ANIMAES AGOUREIROS

ERROS ÁCERCA DE ALGUNS ANIMAES[[1]]

Amigo:

Fiquei, na minha carta passada, de te fallar dos erros inveterados no povo, a respeito d'alguns animaes; e que só podem trazer males, como erros que são.

Sabido é de ti, por certo, que a superstição chega a crêr que a entrada d'uma borboleta branca pela porta ou pela janella dentro, é signal de ter o dono ou dona da casa de receber uma boa nova; mas se a borboleta é parda ou escura, maldita seja ella que annuncia desgraça.

Se uma aranha, vermelha e pequena, passeia pelo vestido de qualquer pessoa, é certo que tem essa pessoa de receber dinheiro; em prata se é branca, em ouro se é amarella, e em cobre se é negra. Quando a mosca vareja entra em casa, traz visita inesperada; e{16} que fortuna não é para a casa onde canta o grillo branco!

Isto, que parece sómente ridiculo, é mais do que isso; porque tanto se alegra quem tem bom agouro, como se entristece e apoquenta quem teve a infelicidade de o receber máo.

A coruja das torres, que toda a gente conhece pelo nome, mas que ainda muita outra a não conhece por a ter visto, inspira horror, susto, desprezo, raiva e odio, pelas crenças de máo agouro, ás mulheres, que isto mesmo transmittem ás creanças, e ainda aos homens, fracos pela ignorancia, que vêem almas do outro mundo, consultão os agouros, as feiticeiras e os adivinhos!

A coruja das torres é a mais bella das tres especies que temos, pela sua leveza, pelo bem pintado de amarello e cinzento sobre o mais bello branco d'algodão, e pelo delicado folho de pennas encrespadas que lhe circumda a cabeça; mas como ave nocturna, para que os raios do sol lhe não firão os olhos, de dia se esconde; e procura para isso as torres e os campanarios das egrejas, os telhados e ainda algumas paredes velhas, aonde encontre buracos, para passar o dia; d'onde sáe pelo crepusculo, quando a luz a não incommoda já.

Suppõe o povo que ella mora nas torres e telhados das egrejas, para roubar e beber o azeite das alampadas, ao passo que ella procura aquelles logares, onde os ratos, sempre damninhos, vivendo á vontade e multiplicando-se, lhe possão servir de sustento.

Se, pousando sobre o telhado de uma casa, deixa ouvir o seu grito rouquenho ou o sopro seguido, que se assemelha ao resonar d'uma pessoa com a bôca aberta, entende o povo que ella chama alguem á sepultura;{17} e com a ideia da noite e visinhanças dos cemiterios, olha a coruja como ave funebre e mensageira da morte; declarando-lhe a guerra mais atroz, sem compaixão nem indulgencia, em logar da benevolencia e gratidão, que devia prestar-lhe, poupando-lhe sempre a vida, pelos bons serviços que esta ave presta á agricultura. De todas as aves nocturnas, nenhuma lhe é mais proveitosa, por ser um creado e guarda fiel, que em quanto dorme o senhor, espreita e dá caça a muitos roedores nocivos, como o rato domestico ou rato commum, o rato campestre, etc., os quaes roubão de noite, roendo os fructos, os grãos e as sementes.

Um outro animal, cuja perseguição é de morte, e a quem attribuem crassos erros, é a cobra, conhecida nas aldeias pelo nome geral de bicha. Talvez concorra tambem para esta aversão, que o povo lhe tem, a magnifica pintura que no Genesis faz Moysés, corporisando o peccado ou antes, a tentação na figura d'uma serpente, a que dá o nome de demonio. A cobra é destituida de palpebras; conservando os olhos abertos, a sua vista, por isso, é fixa, e parece olhar em todas as direcções! Não ha fugir de vista semelhante! Para qualquer lado que se caminhe, a vista da serpente está fixa em nós!

Assim é a tentação! Só lhe póde escapar quem, apoiado na virtude, resoluto lhe volta as costas. Escorregadia, como a serpente e como ella capaz de enroscar-se, só se póde evitar, não a deixando enlear, para não tomar posse, porque depois de apertar, cada vez nos cinge mais. Se a serpente levanta, por algum tempo, a cabeça, é para a abaixar logo; e só caminha de rastos, sempre, vista com repugnancia, como a tentação e o crime, que será sempre rasteiro, vil e abjecto; e que para se não apresentar horripilante, ou{18} ha-de viver enroscado sobre si mesmo, como a serpente, ou, como ella, escondido por entre o matto.

O que é certo é que o olhar d'estes reptis, com a posição da cabeça, cingindo-se ao chão ou elevando-se e estendendo-se, o que faz parecer que uma cobra caminha, sem comtudo saír do mesmo logar, assusta de tal modo os pequenos e timidos animaes, que procurando fugir-lhe, para qualquer lado que se dirigem, encontrão sempre os olhos do seu pequeno inimigo, o qual parece persegui-los; até que cansados, tremulos e atordoados pelo mêdo, approximão-se, máo grado seu, do inimigo que os espera e que lhes dá a morte! Isto tem feito attribuir ás serpentes a faculdade de magnetisar com a vista. Nós mesmos sentimos muitas vezes uma impressão, que quasi nos incommoda, com o olhar de certas pessoas que têm os olhos grandes, saídos, e a vista um pouco fixa; e como fascinados tambem, tentamos desviar dellas os nossos olhos; mas, apesar da impressão um tanto desagradavel, lá se vão sempre encontrar com os outros.

Porém, o erro, mais commum ácerca das cobras, é o de ellas procurarem as mulheres, as vacas e as cabras para mamarem! Que intelligencia lhe concede o vulgo, quando afiança que a cobra para enganar a creança, emquanto mama na mãe que dorme, mette a ponta da cauda na bôca do filho, para elle chupar, suppondo assim ser o bico do peito pela forma cylindro-conica! Como afiança ter encontrado nos curraes cobras debaixo das vacas, sugando-lhes o leite!

A cobra, se mamasse, pertenceria aos mamiferos; daria á luz os filhos vivos, e não poria ovos; teria têtas proprias para alimentação dos filhos, e a sua organisação seria muito differente. Mas ainda mesmo, apesar{19} de tudo isto, se a cobra, por uma especie de lambarice, tentasse mamar, enganando a mãe e o filho com a sua intelligencia, não o poderia fazer em razão da disposição anatomica da sua lingoa e falta de beiços, para poder fazer preza no mamilão e chupar. É verdade que se encontrão algumas vezes nos aidos; mas ahi vão ellas buscar mais elevada temperatura, que o calor do gado fornece áquelles logares.

Não sei como algumas historias, ás quaes não acho fundamento algum, não fôrão desmentidas logo no seu principio; e puderão correr de bôca em bôca, de logar para logar, enchendo o paiz inteiro, e passando até de nação para nação.

Tal é o que contão do ouriço cacheiro. Diz o povo que este pequeno animal se sustenta de fructos, e que para os colher sobe acima das arvores fructeiras, chega aos ramos carregados, abana com elles, deita a fructa ao chão, desce depois e vem rolar-se sobre ella, até ficar coberto, espetando-a nos espinhos que lhe revestem o corpo; e que assim carregado, caminha para o seu buraco, chiando de contente e fazendo tal bulha, como um carro das aldeias, bem carregado, ao qual de proposito fazem chiar o eixo, dizendo que os bois se enthusiasmão com aquella infernal chieira.

Ora o ouriço cacheiro não faz cova na terra para habitar, mas dorme debaixo de hervas que ajunta, ou debaixo de raizes junto dos pés das arvores, ou serve-se d'algum buraco já feito ao pé dos muros ou debaixo de algum montão de pedras.

Come fructos, é verdade, e mesmo algumas raizes, quando não tem para comer os insectos, que são o seu verdadeiro sustento; assim como a carne dos animaes que encontra mortos: e uma cousa que tem sido notada por alguns naturalistas, e poder elle comer{20} com grande vontade, sem experimentar incommodo algum, as cantharidas aos centos, quando nos outros animaes são veneno tão forte, que basta uma para causar tormentos horriveis num cão ou num gato, e tres ou quatro serão sufficientes para darem a morte ao homem.

Quer o povo que este animal suba, e vá abanar a fructa das arvores. Mas, como ha-de elle trepar, se não póde?

Nem tem a flexibilidade e agilidade para isso, nem os membros conformados de tal modo, que o possa fazer, nem unhas para se poder segurar.

É tão fraco trepador, que, para subir a uma pequena pedra, emprega todos os esforços, firmando a cabeça, sem ás vezes o poder conseguir.

Lembra-me dizer aqui, que os espinhos da pelle d'este animal são proveitosos para as preparações de historia natural, que têm de estar em alcool; servindo em logar de alfinetes, por se não estragarem, oxydando-se, nem estragarem as preparações; assim como tambem podem servir, pela mesma razão, para segurarem os insectos nos quadros.

Porém, nada mais grosseiro e vergonhoso do que a metamorphose do cabello em cobra! Um cabello deitado em agoa transforma-se numa cobra muito fina: diz o pensar mais rude!

Este absurdo é de tal grandeza, que não gastarei palavras para o mostrar; mas direi sómente que a pretendida cobra é uma espécie de filaria; animal filiforme, commum nos regatos e nas agoas pouco correntes, chegando a um metro e ás vezes a tres e quatro de comprido, negro ou acastanhado; e como se tem encontrado algumas vezes nas agoas, aonde o gado costuma ir beber, e deixa muitas vezes os cabellos,{21} coçando-se, o povo ao vêr estes helmintos juntos com os cabellos, decidiu logo a metamorphose d'estes nos animaes, aos quaes por serem finos e compridos, lhes chamárão cobras!

Estes animaes costumão dar voltas sobre si, mettendo as extremidades por entre ellas, como as pontas d'um nó, e quando morrem, parece terem dado um nó perfeito.

Tambem terás ouvido dizer que as andorinhas vão á beira do mar procurar e escolher uma pedrinha, conhecida pela pedra das andorinhas; e vem com ella no bico para abrir no ninho os olhos aos filhos, que sem esta operação os não abrem! E como é procurada a tal pedrinha e estimada por algumas pessoas, para, pela sua virtude, tirarem os argueiros dos olhos! E de certo precisão bem d'ella, pois devem andar com elles bem cobertos de poeira! A tal pedrinha é um seixo chato e bem polido pelo mar, ou mesmo um bocado de uma concha preta, que o mar tenha tornado bem lisa e macia! Que graça! as andorinhas feitas operadoras da catarata dos proprios filhos!

Muito mais teria que dize-te sobre estes grosseiros prejuizos, como da amizade que as cobras têm aos homens; da sympathia que os sardões têm para com as mulheres; e d'outras muitas babuseiras e erros prejudiciaes, mas hoje ficarei por aqui.

Adeos até outra occasião.

Teu amigo==A. Luso.{22}

[[1]]Augusto Luso.