CONTINUAÇÃO DOS ERROS ÁCERCA DE ALGUNS ANIMAES
Os erros ácerca dos animaes são tão variados, tão extravagantes e tantos, que ainda hoje te fallarei de mais alguns; e quantos haverá de que não tenho conhecimento?
Hoje é bem conhecida a utilidade dos sapos na agricultura, pelo devaste que fazem nos insectos, nas lagartas, nos caracoes, etc., chegando a ser procurados para as estufas, como remedio contra aquelles animaes, que devorão e estragão as plantas. Porém é tal a aversão que o povo lhes tem, talvez pela sua fórma e vista, pouco agradavel, como em geral é a de quasi todos os reptis, que chega mesmo a dizer que se deve cuspir trez vezes fóra, todas as vezes que se fallar em sapo, para que não nasção sapinhos na bôca! É tal o odio que lhes tem, attribuindo-lhes o perigo de veneno ou peçonha, como vulgarmente dizem, que se não satisfazem só com os matar, mas sómente em lhes dar uma morte cruel, espetando-os e atormentando-os, deixando-os morrer lentamente; quando estes innocentes animaes, além do bem que nos fazem, como já disse, não podem fazer mal a ninguem, pois não têm armas de que se possão servir para isso; apenas, em sendo muito apoquentados e atormentados, expellem pelo anus um liquido um tanto acre, mas que nem elle, nem a baba, como dizem, são venenosos. Reproduzem-se com tanta facilidade e em tanta abundancia, e desenvolvem-se tanto com o calor e humidade, que, ás vezes, com as primeiras chuvas de maio, são{23} tantos, que por isso e pelos saltos e pulos que dão, coincidindo com a quéda das gotas da chuva, em muitas partes dizem que chovem sapos!
A respeito do pretendido veneno ou peçonha, deves saber que são poucos os animaes, exceptuando os mamiferos, as aves e os peixes, aos quaes o nosso povo não attribua veneno, a ponto de julgar passagem de bicho que deixára rasto venenoso ou peçonhento, a quaesquer feridas que apparecem no corpo das creanças, persuadindo-se que matando o bicho, desapparece a peçonha e logo o mal. Mas, como não sabem qual fôra o genero, nem a especie do bicho que por alli passára, applicão logo um remedio geral para toda a sorte de bicho, dizendo:
Eu te talho, bicho, bichão;
Sapo, sapão;
Aranha, aranhão;
Bicho de toda a nação:
Em louvor de S. Silvestre,
Quanto faço tudo preste,
E de nosso Senhor,
Que é o verdadeiro Mestre.
E fazendo passar ao mesmo tempo, em cruz, uma faca por cima das feridas, talhão e retalhão d'esta sorte qualquer bicho que por alli passasse!
Nada mais difficil do que a medicina, nada mais difficultoso do que ser medico, nada mais melindroso do que receitar, nada mais delicado do que ser boticario; e todos sabem curar, todos são medicos, todos receitão{24} e todos são boticarios, porque todos fazem remedios!
E quanto mais extravagante, mysterioso e miraculoso e sobrenatural parecer o remedio, mais importancia e mais fé lhe dá o povo, pela tendencia que tem para admirar e acreditar sempre aquillo que menos entende. É de grande fé tambem, que um frango preto é proveitoso para servir de remedio contra as lombrigas que atacão frequentemente as creanças. Por meio d'um pequeno golpe dado superficialmente no pescoço do frango, extrahem-lhe um pouco de sangue, com o qual dão uma fricção forte nas costas da creança doente, até que appareção algumas borbulhasinhas! A mais grosseira ignorancia quer vêr n'estas borbulhas as cabeças das lombrigas que acudirão alli ao cheiro do sangue; e com uma navalha de barba, bem afiada, corta então as bolhasitas, dizendo que talhará assim as bichas, de uma vez para sempre; e que este é o unico remedio infallivel!
Já que fallamos em frango, vem a proposito aqui o preconceito mais grosseiro, que revela a maior ignorancia e a mais crassa pequice!
Diz o povo que o gallo aos sete annos põe um ovo, do qual nasce uma cobra! E isto mesmo tenho eu ouvido dizer a algumas pessoas que se querem apartar do povo pelo seu vestuario e pelos seus costumes, e ficão a par da mais grosseira plebe, pelo seu modo de pensar e pelas suas crenças!
Acontece que uma gallinha nova, ainda franga, pouco robusta, põe ás vezes um ovo pequeno, sem gemma, constando só da clara e casca, que quasi sempre é aspera e rugosa; outras vezes uma gallinha já casada, e cansada por uma longa postura, põe um ovo semelhante, como fazendo um ultimo esforço; e achados{25} estes ovos nas capoeiras ou poleiros, como são differentes dos outros, por serem mais pequenos e pela falta de gemma, são do gallo e não das gallinhas! Porém o erro sobe de ponto ao dizerem que d'aquelle ovo sairia uma serpente! Um gallo feito mãe! e feito mãe de serpente!!
Em que ovario se desenvolveria aquelle ovo? em que oviducto tomaria a clara ou albúmen? Aonde formaria elle a casca ou essa crusta calcarea?
Certamente nas tripas!
A gemma ou vitellus, para que a esphera germinativa, que é o ponto branco que se vé no meio, fique sempre voltada para cima, em qualquer posição que o ovo tome, para receber o calor immediato da gallinha no chôco, é ligada de cada lado ás duas extremidades do ovo por uma especie de cordão torcido da mesma materia da clara, a que se dá o nome de chalases. Ora, estes pequenos ovos abortados, apesar de não conterem a gemma, contem a clara e conservam os chalases; e são elles a terrivel serpente que mais tarde tinha de se desenvolver! Haverá cousa mais grosseira? Ignorancia maior?!
O lobo, animal bem commum entre nós, é tido por muitas pessoas, como tendo a bôca de um lado escachada até o ouvido; e que agarrando nos cordeiros os lança ás costas, fugindo com elles.
O lobo tem a bôca regular d'ambos os lados, não põe os cordeiros ás costas, mas muitas vezes, vendo-se perseguido, não querendo deixar a preza, segura-a pelo lado do pescoço e foge com ella, correndo ambos, como uma parelha de cavallos.
Quando isto se dá com os nossos animaes, a respeito dos quaes o exagero, passando de bôca em bôca, tem dado causa tambem a muitos erros, o que será a{26} respeito dos animaes estranhos, cujas descripções são feitas por viajantes, quasi sempre propensos á mentira, a augmentarem e a exagerarem as cousas!
Muitas vezes os proprios naturaes de um paiz, pela mesma razão, informando mal os curiosos, os fizerão acreditar em falsas narrações e contos extravagantes.
Hoje, porém, graças ao desenvolvimento do estudo da Historia natural, á sua reconhecida utilidade, á protecção dada aos museus e aos jardins d'acclimatação, estes erros têm-se emendado, e vão-se conhecendo as cousas á luz da verdade. Só entre nós, aqui no Porto, parece desnecessario um museu; pelo menos não vejo ligar-lhe a mais pequena importancia! E para que!
Aqui já todos são sabios.
Que importa o estudo dos bichos e das hervas?
Dá elle dinheiro? Não dá? Pouco importa dizer tolices; não é cousa de utilidade publica.
As ridiculas historias de alguns macacos, como os gorillos, os chimpanzés e os orangos, raptarem as raparigas e fugirem com ellas para os bosques, que tão acreditadas forão, e fazião que as mulheres tivessem tanto medo dos macacos, são hoje desmentidas.
A hyena foi tida como um monstro; fizeram-n'a até hermaphrodita! Derão-lhe os instinctos mais sanguinarios e a maior ferocidade; disserão que ia aos cemiterios desenterrar os cadaveres, para nelles cevar a sua ferocidade! A hyena é um animal pouco sanguinario, preferindo a carne morta e de dias, á carne viva e com sangue; cobarde, poucas vezes ataca, e se ataca são os animaes pequenos, matando a fome muitas vezes com os cadaveres dos animaes que desenterra, quando se achão mal cobertos.
O condor, que passou como ave cruel e temivel, é cobarde como em geral todos os abutres, que mal{27} merecem o nome de aves de rapina; e estão no caso das hyenas. Sustentando-se de carne morta, não atacão os outros animaes; mas lanção-se sobre os que encontrão mortos ou sobre aquelles que encontrão morrendo; ou espreitando as cabras, as vacas, etc., na occasião em que dão á luz o filho, lanção-se sobre o recem-nascido, sem sequer atacarem a mãe, apesar de doente; uma creança armada d'um páo basta para os fazer fugir.
O veneno da tarantula, aranha bem commum na Italia, Hespanha e Portugal, foi tido como causa de effeitos terriveis, deixando atarantados ou em convulsões horriveis os mordidos por ella, e receitando-se até como remedio a musica. Mas hoje, dizem que é bem sabido, que o veneno d'estas aranhas não é perigoso senão para os insectos que lhes servem de sustento.
Has-de ter visto os nossos pescadores andarem pelas ruas vendendo alguns polypeiros petrosos, a que chamam arvores do mar. Não estranho que elles lhes chamem arvores do mar. Porém estranho que pessoas de instrucção, dadas ás letras, nada queirão saber da sciencia e se contentem com a lição do pobre pescador, repetindo o mesmo, e até ensinando, que as madréporas, astréas, fungias, etc., são tortulhos e arvores do mar, sem fazerem ideia, já se vê, do que é uma arvore, nem dos pobres animaes que caírão nas suas mãos e debaixo das suas vistas, que tão mal os olharão; porém para maior esclarecimento e maior disparate acrescentão os que já não precisão de estudar—são arvores do mar petrificadas.
Poderia continuar a fallar-te de mais alguns d'estes erros, mas receio enfadar-te, e por isso fico por aqui.{28} Emquanto aos curiosos animaes que habitão a nossa costa da Foz, da Granja, Mattosinhos e Leça, terei talvez ainda occasião de te fallar d'elles em particular; pois são uma distracção nos solitarios passeios á beira-mar, amenisando o que parecia monotono, e tornando habitado o que parecia deserto, achando nós companhia aonde nos julgavamos sós.
Adeos até outra occasião.
Teu amigo==A. Luso.{29}