Capitulo II

Em que a donzela vae prosseguindo a sua historia

N'este monte, mais alto de todos, (que eu vim buscar pela soledade, diferente dos outros, que n'êle achei) passava eu a minha vida como podia, ora em me ir pelos fundos vales que o cingem derredor, ora em me pôr, do mais alto d'êle, a olhar a terra como ia acabar no mar, e depois o mar como se estendia logo após éla, para acabar onde ninguem o visse.

Mas, quando vinha a noite, entregue a meus pensamentos, e via as aves buscarem seus pousos, umas chamarem as outras, parecendo que queria sossegar a terra mesma; então eu, triste, com os cuidados dobrados com que amanhecia, me recolhia para a minha pobre casa, onde Deus me é boa testemunha de como as noites dormia!

Assim passava eu o tempo, quando, uma das passadas noites, pouco ha, levantando-me, eu vi a manhan como se erguia formosa, e se estendia graciosamente por entre os vales, e deixar indo os altos.

O sol, já levantado até aos peitos, vinha tomando posse dos outeiros, como quem se queria assenhorear da terra.

As doces aves, batendo as asas, andavam buscando umas ás outras; os pastores, tangendo as suas flautas, e rodeados dos seus gados, começavam a assomar pelas cumiadas.

Para todos, parecia que vinha aquele dia assim ledo. Só os meus cuidados, vendo, parece, como vinha poderoso seu contrario, se recolhiam a mim, pondo ante meus olhos para quanto prazer e contentamento pudera aquele dia vir, se não fôra tudo tam mudado; d'onde o que fazia alegre a todas as cousas, a mim só teve causa de fazer triste!

E como os meus cuidados, para o que tinha a ventura ordenado, me começassem de entrar pela lembrança de algum tempo, que foi, e que nunca fôra, assenhorearam-se assim de mim que não me podia já sofrer a par de minha casa, e desejava ir-me para lugares sós, onde desabafasse em suspirar.

E ainda bem não foi alto dia, quando eu (parece que acinte) determinei ir-me para o pé d'este monte, que d'arvoredos grandes, e verdes ervas, e deleitosas sombras, é cheio; por onde corre um pequeno ribeiro de agoa de todo o ano, que, nas noites caladas, o rugido d'êle faz no mais alto d'este monte um saudoso tom, que muitas vezes me tolhe o sôno; onde, outras muitas, vou eu lavar minhas lagrimas, e onde, muitas, infinitas, as torno a beber.

Começava então de querer cair a calma: e no caminho, com a pressa, por fugir d'éla, ou pela desventura que me levava a mim, três ou quatro vezes caí ali; mas eu (que, depois de triste, cuidei que não tinha mais que temer) não olhei nada para aquilo, em que me parece que Deus me queria avisar da mudança que depois havia de vir. Chegando á borda do rio, olhei para onde haveria melhores sombras. Pareceram-m'o as que estavam além do rio. Disse então que n'aquilo se enxergava que era desejado tudo o que com mais trabalho se podia haver; porque não se podia ir alem sem se passar a agoa, que corria ali mansa e mais alta que na outra parte.

Mas eu (que sempre folguei de buscar meu dano) passei alem, e fui-me assentar sob a espessa sombra de um verde freixo, que, para baixo um pouco, estava.

Algumas das ramas estendiam-se por cima d'agoa, que ali fazia algum tanto de corrente, e, impedida por um penedo, que no meio d'éla estava, se partia para um e outro lado, murmurando.

Eu, que os olhos levava ali postos, comecei a cuidar que tambem nas cousas que não tinham entendimento havia fazerem-se dano umas ás outras.

Estava d'ali aprendendo a tomar algum conforto no meu mal: porque assim aquele penedo estava contrariando aquela agoa que queria ir seu caminho, como as minhas desventuras no outro tempo costumavam fazer a tudo o que eu mais queria,—que já agora não quero nada. E crescia-me d'aquilo um pesar!

Ao cabo do penedo, tornava a agoa a juntar-se, e ir seu caminho sem estrondo algum, antes parecia que corria ali mais depressa que pela outra parte: e dizia eu que seria aquilo para se apartar mais rapidamente d'aquele penedo, inimigo do seu curso natural, que, como por força, ali estava.

Não tardou muito que, estando eu assim cuidando, sobre verde um ramo que por cima da agoa se estendia, se veio pousar um rouxinol. Começou a cantar tam docemente que de todo me levou após si o meu sentido d'ouvir. E êle cada vez crescia mais em seus queixumes, que parecia que, como cansado, queria acabar, senão quando tornava, como que começava.

Então (triste da avezinha) estando-se assim queixando, não sei como, se caiu morta sobre aquela agoa! Caindo por entre as ramas, muitas folhas cairam tambem com éla. Pareceu aquilo sinal de pesar, n'aquele arvoredo, de caso tam desastrado.

Levava-a após si a agoa, e as folhas após éla. Quisera-a eu ir apanhar, mas pela corrente que ali fazia, e pelo mato que d'ali para baixo, cerca do rio, logo estava, prestemente se alongou da vista.

O coração me doeu tanto, então, em vêr tam depressa morto quem d'antes, tam pouco havia, vira estar cantando, que não pude ter as lagrimas.

Certamente que por causa do mundo, depois que perdi outra cousa, me não pareceu a mim que assim chorasse de vontade; mas em parte este meu cuidado não foi em vão; porque, ainda que a desventura d'aquela avezinha fosse causa de minhas lagrimas, lá, ao sair d'elas, foram juntas outras muitas lembranças tristes.

Grande pedaço de tempo estive assim embargada dos meus olhos, entre os cuidados que muito havia que me tinham já então, e ainda terão, até que venha o tempo em que alguma pessoa estranha, com dó de mim, com as suas mãos cerre estes meus olhos, que nunca foram fartos de me mostrarem mágoas de si.

E estando assim, olhando para onde corria a agoa, ouvi bulir o arvoredo. Cuidando que fosse outra cousa, tomou-me medo; mas, olhando para ali, vi que vinha uma mulher; e, pondo n'ela bem os olhos, vi que era de corpo alto, disposição boa, e o rosto de dona, senhora do tempo antigo. Vestida toda de preto, no seu manso andar, e meneios seguros do corpo, do rosto e do olhar, parecia d'acatamento. Vinha só, e tam pensativa que não apartava os ramos de si, senão quando lhe impediam o caminho, ou lhe feriam o rosto.

Os seus pés trazia por entre as frescas ervas, e parte do vestido estendido por élas. E, entre uns vagarosos passos que éla dava, de quando em quando colhia um cansado folego, como que lhe queria falecer a alma.

Sendo cerca de mim e me viu, ajuntando as mãos, á maneira de medo de mulher, um pouco, como que vira cousa desacostumada, ficou; e eu tambem assim estava,—não de medo, que a sua boa sombra logo m'o não consentiu, mas da novidade d'aquilo que ainda ali não vira, havendo muito que, por meu mal, tinha frequentado aquele lugar, e toda aquela ribeira.

Mas não esteve éla muito tempo assim, porque, parece, conhecendo tambem que estava com uma boa sombra, começou a dizer, vindo ao meu encontro:

—«Maravilha é ver donzela em ermo, depois que a minha grande desventura levou a todo o mundo o meu...»

E d'ahi a grande pedaço, misturado já com lágrimas, disse:

—«... filho!»

Depois, tirando um lenço, começou a limpar o rosto, e a chegar-se para onde eu estava.

Levantei-me eu então, fazendo-lhe aquela cortesia, que éla, com a sua, e consigo mesma, me obrigava.

E éla:

—«O descostume grande, (me disse) ha muito tempo que vivo n'este ermo, de ver pessoa alguma, me faz, senhora, desejar saber quem sois, e que fazeis aqui, ou que viestes a fazer, formosa e só.»

Como eu um pouco tardava em lhe responder, pela duvida em que estava do que lhe diria, (parece que entendendo-me éla) me tornou:

—«A mim, podereis dizer tudo, que eu sou mulher como vós, e, segundo vossa presença, vos devo ainda ser muito semelhante; porque me parece (agora que vos ólho de mais perto) que deveis ser triste, que vossos olhos teem vossa formosura desfeita, e, ao longe, não se enxergava.»

—«Pareceis vós logo ao longe (respondi eu) o que sois ao perto; e não vos saberia negar cousa em que de mim vos servisseis; que os vossos trajos, e tudo o que vos eu ólho, é cheio de tristeza, cousa a que eu sou ha muito tempo conforme; e porque posso mal encobrir o senhorio que, eu mesma, ás longas mágoas sobre mim tenho dado, não me quero rogar, antes vos devia ainda agradecer quererdes saber de mim o que quereis, para ser ao menos meu mal escutado alguma hora!»

—«Pois dizei-m'o (me tornou éla) que ficardes-me devendo ouvir-vos eu, nova maneira é tambem de me obrigardes; mas assim me pareceis vós, que, de vos ser obrigada, folgo muito ainda.»

Satisfazendo-lhe eu então, disse:

—«Sou uma donzela que n'este monte, da banda d'alem d'este ribeiro, pouco ha que vivo, e não posso viver muito. N'outra terra nasci, n'outra, de muita gente, me creei, d'onde vim fugindo para esta, despovoada de tudo, senão só das mágoas que eu trouxe comigo! Este vale, por onde correm estas agoas claras, que vêdes, os altos arvoredos de espessas sombras sobre a verde erva, as flores que por aqui aparecem, e a seu prazer se estendem, ribeira d'esta agoa fria, doces moradas e pousos das sós deleitosas aves, são tam conformes a meu cuidado, que o mais do tempo em que o sol anima a terra passo aqui, e, ainda que me vejaes só, acompanhada estou.

«Muito ha que tenho andado este caminho: nunca vi senão agora a vós. A grande solidão d'este vale, e de toda esta terra por aqui derredor, me faz ousar vir assim, mulher... formosa, bem vêdes já que não! E pois não tenho armas para ofender, para me defender para que me seriam já necessarias? A toda parte posso já ir, segura de tudo, senão só do meu cuidado; que não vou a nenhum cabo que êle não vá após mim. Ainda agora estava eu aqui, só, olhando para aquele penedo (mostrando-lh'o eu então d'ali) a ver como ele estava contrariando aquela ágoa que queria ir seu caminho. Ante os meus olhos, sobre aquele ramo que a cobre, se veio pôr um rouxinol, docemente cantando. De quando em quando parecia, que lhe respondia outro, lá de muito longe.

«Estando êle assim, no melhor do canto, caiu morto sobre aquela ágoa, que o levava tam depressa que o não pude eu ir apanhar.

«Tamanha mágoa me nasceu d'isto, que me recordei de outras minhas, de que tambem grandes desastres foram causa, e levaram-me onde eu tambem não podia ir buscar-me... (A estas palavras se me arrasaram os olhos de ágoa, e fui-me com as mãos a êles.) Isto, senhora, fazia quando vós aparecestes, e o faço as mais das vezes; porque, sempre, ou chóro, ou estou para chorar!»

Eu, que lhe tinha já respondido, detive-me um pouco cuidando como lhe preguntaria outro tanto d'éla: maiormente da causa que foi das suas lagrimas quando não pôde, senão muito tarde, dizer: «filho».

Éla, cuidando que, porventura, eu não queria dizer mais, disse:

—«Bem se vê n'isso, senhora, que sois d'outra parte, e ha pouco que estaes n'esta, pois dos desastres que n'este ribeiro acontecem vos espantaes. Ha uma historia muito falada n'esta terra, por aqui derredor, que muito ha que aconteceu. Lembra-me que era eu menina, e ouvia-a já então contar a meu pae, por historia. Agora, ainda folgo de cuidar n'éla pelos grandes acontecimentos e desventuras que n'éla houve. E ainda que nenhum mal alheio possa confortar o proprio de cada um, parte de ajuda me é saber, para o sofrimento, que antigo é fazerem-se as cousas sem razão, e contra razão. De boa vontade, pois parece que ainda a não ouvistes, vo-la contarei; que, segundo entendo, devem-vos aprazer as cousas tristes, como vós a mim me dizeis.»

—«O sol (lhe respondi eu) vae alto, e eu folgaria muito de a ouvir, pela ouvir a vós, e depois por saber que não busquei embalde esta terra para minhas tristezas, pois tanto ha que se costumam n'ela. Outra cousa, senhora, vos quisera eu agora preguntar; mas fique para depois, que para tudo haverá tempo, ainda que a historia, como dizeis, é de tristezas, e não poderá durar tam pouco como o dia.»

—«Os dias são agora grandes (me tornou éla) e não poderão êles nunca ser tam pequenos que eu, com todo o meu poder, vos não fizesse a vontade n'êles, assim sou, senhora, paga por vós; mas olhae o que quereis antes.»

—«Porque é cousa em que vós folgaes ainda agora de cuidar (lhe respondi eu) não póde ser pouco para desejar ouvir. Fique o que eu d'antes quisera para depois, ou para sempre; que só de o eu querer lhe deve vir isto. Não tomeis de aqui que eu não folgarei de ouvir a historia, porque isto pudera ser se não fôra de tristezas, para que eu vou achando, já agora, o tempo curto, tanto folgo com élas. Por isso, contae-a, senhora; contae-a, pois é de tristezas... Gastaremos o tempo n'aquilo para que parece que no-lo deram,—a vós e a mim.»