Capitulo III

Da conta que a dona dá á donzela de sua vinda áquela terra

«Coitada de mim (começou éla) que, para me magoar, busco ainda desventuras alheias, como se as minhas não bastassem; que são tantas que, muitas vezes, n'este despovoado, eu mesma ando espantada de mim, como as posso sofrer!

«Por isso, vos não parecia sem causa triste; que assim o sou eu que, se o soubesseis, ainda muito mais vo-lo pareceria do que cuido que parecerei no aspecto; porque a longa dôr, que ha já muito tempo que eu passo, tem o cansado d'este meu corpo tam acostumado a sofrê-la, que, já agora, vive n'éla.

«Este é um dos queixumes grandes que eu tenho do corpo, que não ha cousa para que êle, por longo costume, não seja.

«Assim ha já muitos anos que eu não vivo para mim, e que vim para estes ermos, fugindo das gentes para quem só anoiteceu e amanheceu...

«Muito me aprouve achar-vos tambem conforme á minha tristeza; porque nos consolaremos, ambas desconsoladas:—que isto vae assim como quem é doente d'alguma peçonha, e se cura com outra.

«Quando vos eu á primeira vista vi, em o apartamento de toda a gente (que n'esta terra ha muito) e o muito que tambem ha que eu não via n'éla cousa com que falasse, me moveu á alteração, e não pus em vós os olhos, tanto, como depois que vos falei; e, quanto mais vos ólho, mais acho que vos olhar. As passadas palavras vossas me dizem que deveis ter o coração altamente agravado.

«Nas mágoas que as lagrimas teem feitas no vosso rosto (que para esse efeito parece que não foi dado) entendo eu quam dada deveis ser aos cuidados, porque não costumam élas fazer-se sem razão.

«Vejo-vos moça; ainda ereis para viver no mundo. Mal haja a desventura que tam cedo começou em vós, e tam tarde acaba em mim!

«Muito folgaria de me contardes vossas tristezas, uma a uma, que assim, como vos eu ouvi, não me bastou mais que para me magoar. Mas, pois vós, senhora, assim fostes servida, eu sou contente.

«E já que não pudestes escusar desventuras, folgo em que vós folgueis de encobrir vossos males,—que o pesar ha este bem: Inda que não aproveite para doer menos, aproveita para se sofrer melhor.

«Isto é assaz para as tristes das mulheres, que não teem remedios para o mal, que os homens teem; porque, n'esse pouco tempo que ha que eu vivo, tenho aprendido que não ha tristeza nos homens. Só as mulheres são tristes; que as tristezas quando viram que os homens andavam de um lugar para outro, e, como as mais das cousas, com as continuas mudanças, ora se espalhavam ora se perdiam, e que as muitas ocupações lhe tolhiam o mais do tempo, tornaram-se ás coitadas das mulheres,—ou porque aborreceram as mudanças, ou porque não tinham para onde lhe fugir.

«Porque, certamente, segundo as desventuras são desarrazoadas e graves, aos homens se haviam de fazer; mas, quando com êles não puderam, tornaram-se a nós, como á parte mais fraca. E assim é que padecemos dous males, um que sofremos, e outro que se não fez para nós. Os homens cuidam outra cousa, mas o que das mulheres não cuidam êles?! Logo, costumaram ter em pouco as suas tristezas. Mas se élas, por isso, teem razão de serem mais tristes, sabê-lo-á quem souber que mágoa é manter verdade desconhecida!»

A isto não pude eu suster um cansado suspiro de dentro d'alma; e éla, sentindo-o (com quanto o eu encobri) estendeu a sua mão direita, e, tomando a minha, com dissimulação, suspeitosa, tornou a falar para mim, dizendo:

—«Quando eu era da vossa edade, e estava em casa de meu pae, nos longos serões das espaçosas noites do inverno, entre as outras mulheres de casa, umas fiando, e outras dobando, muitas vezes, para enganarmos o trabalho, ordenavamos que alguma de nós contasse historias, que não deixassem parecer o serão longo; e uma mulher de casa, já velha, que vira muito e ouvira muitas cousas, por mais ancian, dizia sempre que a éla pertencia aquele oficio, e, então, contava historias de cavaleiros andantes.

«E, verdadeiramente, as afrontas e grandes aventuras (que éla contava) a que se êles punham, pelas donzelas, me faziam a mim haver dó d'êles,—porque cuidava eu que um cavaleiro convenientemente armado sobre seu formoso cavalo, pela ribeira de um rio, de gracioso campo passeando, podia ir tam triste como uma delicada donzela, em alto aposento, encostada a seu estrado, entre paredes, só podia estar, vendo-se de altos muros cercada, com tantas guardas,—feitas para tam pequena força. Mas, para lhe tolherem as vontades, fizeram grandes defezas, e, para lhe entrar o desgosto, muito pequenas.

«Mais maneiras teem os cavaleiros para se mostrarem mais tristes do que são; e muito menos teem as donzelas para se mostrarem mais tristes do que parecem aos homens.

«Ao menos, se eu, depois que soube muitas cousas, pudera tornar atraz, menos me houveram de magoar do que me magoaram. Que tambem se deve esperar da dôr aquilo para que cada um a tem; de outra maneira, não se devia éla ter.

«Digo isto, senhora, porque pelo lugar onde suspirou vosso coração, (que vós de mim, quanto podieis, vos quisereis encobrir) suspeito eu que d'alguma grande sem-razão deveis trazer o cuidado magoado; porque a vossa edade não era para viverdes nos matos. Se os homens não costumassem agravar donzelas, muito fôra de sentir; mas, das cousas costumadas, quem se deve agravar?!

«Muito bem vos posso dizer isto (ainda que o conhecimento entre nós seja pouco) porque sou mais velha que vós, e porque é verdade, para que se não deve esperar tempo, como para as outras cousas.

«Quantas donzelas comeu já a terra com a saudade que lhe deixaram cavaleiros, que come outra terra, com outras saudades?!

«Cheios são os livros de historias de donzelas que ficaram chorando por cavaleiros que se iam, e se lembravam ainda de dar de esporas a seus cavalos, porque não eram tam desamorosos como êles.

«N'este conto, não entram só os dous amigos de que é a historia que ha pouco vos prometi. N'êles, sós, cuido que se encerrou a fé que em todos os outros se perdeu; e creio que por isso ordenaram outros homens de os matarem á traição, maldosamente, porque se não pareciam com êles.

«O mal não sómente aborreceu o bem, como quisera ainda que o não houvera ahi.

«Lembra-me que, quando meu pae contava a vileza da maneira que tiveram os falsos cavaleiros, para matarem os dous amigos, dizia que muito folgara de a não ouvir para a não saber, pois não viera em tempo para deixar de ir á terra magoado, porque já geração d'êles não havia ahi.

«Mas, se muito para sentir foi a morte dos dous, muito mais para sentir foi a das duas tristes donzelas, que a desventura trouxe a tanta desdita, que não sómente conveio aos dous amigos tomarem a morte por élas, mas ainda conveio tomarem-na élas por si mesmas.

«Os dous amigos, no que fizeram, cumpriram para com élas, e para consigo mesmos, aquilo a que eram obrigados pelas leis da cavalaria que mantinham; élas só cumpriram para com êles, o que eu creio que é de maior estima; porque élas, por outros, não fizeram aquilo, e êles, por outras, deveriam-no fazer.

«Assim, como de pessoas que fizeram mais, se deve tambem a morte sentir mais, ainda que a mim egualmente me doem umas e outras: élas, porque eram mulheres, e êles, porque eram homens...

«Isto digo eu, para vós, e para mim, porque meu filho tambem era homem, como êles.»