Capitulo V
Do que Lamentor passou n'aquela parte onde foi aportar com a sua nau, e da batalha que teve com o cavaleiro da ponte e do que mais lhe sucedeu
«De reinos estranhos, dizem que veio n'um tempo passado ter a estas partes um nobre e famoso cavaleiro.
«Aportou, cerca d'aqui, em uma nau grande, carregada de muita riqueza, e, sobretudo, de duas formosas irmans, a uma das quaes êle mais que a si queria. Para que éla não sentisse a saudade de sua terra, trouxeram a outra irman, donzela, mais pequena que aquela por quem êle vinha buscar terras estranhas.
«Contam que élas eram filhas de um poderoso senhor, como depois, com o tempo, se suspeitou, pelos muitos cavaleiros andantes que pelo mundo foram espalhados n'aquela epoca. Mas esta historia será longa.
«Aportando Lamentor (que assim se chamava) n'estas partes, como digo; havida inteira informação da terra, e da gente d'éla, porque, como êle viesse da maneira que vinha, não queria fazer seu assento em nenhum lugar muito povoado; e, saindo um dia pela manhan da nau, com todas as suas riquezas, começou a caminhar por este vale acima,—que para tudo tinham já seus criados feito o concerto necessario.
«Em umas ricas andas, que Lamentor na nau trouxera, iam as duas irmans; porque a maior vinha quase no fim do tempo da prenhez.
«A manhan era graciosa. Parecia que assim se acertou, para a terra mais lhes contentar. Ia o ano no mês d'abril, quando florescem as arvores, e as aves, que até então estiveram caladas, começavam a andar fazendo os gorgeios do outro ano, pelo que, por entre o arvoredo d'este vale (bem podeis cuidar quejando seria então, pois agora é tanto) estavam élas tomando recreio, ora n'uma cousa ora em outra.
«Tudo buscava Lamentor para que sua senhora e a donzela sua irman, de alguma maneira, perdessem a saudade de sua terra, e o enjôo do mar.
«Sendo êles cerca de uma ponte, que ahi perto ainda está, e querendo-a passar, lhe disse um escudeiro que no começo d'éla estava:
—«Senhor cavaleiro, se quereis passar, convem que façaes, uma, de duas:—ou que confesseis que o cavaleiro que mantem esta passagem quer bem com mais razão que ninguem, ou o determinará a justa.»
—«Muitas cousas havia mister de saber (lhe respondeu Lamentor) quem houvesse de responder a essa pregunta: e como se póde saber se quer êle bem com mais razão sem ouvir primeiro onde, ou como o quer? Mas, por agora, d'isso eu não curo: porque a mim basta-me saber que, por mais razão com que êle queira bem, eu o quero mais que êle, e que todos os do mundo. Isto que sei, certo de mim, me escusa saber mais d'êle que a condição com que êle guarda esta ponte. A razão que tem para isso, guarde-a para si; que, para êle, poderá ser que pareça a maior do mundo. Deveis, bom escudeiro, dizer-lhe que faria bem em deixar-nos passar, antes que o julgue a justa.»
«O escudeiro, que já olhára para as andas, e nunca cousa tam bem lhe parecera, lhe tornou:
«—É escusada, para êle, essa embaixada, porque está tam ufano, que não póde agora ninguem com êle (e na verdade tem causa); porque fará d'aqui a oito dias três anos que êle mantem este passo, sem achar cavaleiro que o vencesse, sendo o mais esforçado d'êles que por toda esta terra ha. E então se acaba o praso que lhe foi dado por uma donzela, a mais formosa que n'estas partes se sabe, filha do senhor d'aquele castelo que ali vêdes, em que éla lhe prometeu seu amor, sendo esta ponte por êle guardada com a dita condição. Mas se êle fosse sabedor da companhia que vós trazeis, com razão deveria temer agora, mais que nunca; mas eu não lh'o posso ir dizer, que já outras vezes lhe levei assim embaixadas, e êle tornava-me má resposta: e sucedendo depois á sua vontade m'o deitava em rosto, como que a minha tenção ficasse, pelo seu acontecimento, culpada.»
—«Ora, pois, determine-o a justa», disse Lamentor, olhando já para as andas.
«Tirando então, de um tiracolo, o escudeiro uma corneta, tocou-a.
«Dahi a um pouco, deixou-se sair d'um espesso arvoredo, que alem da ponte estava, um cavaleiro bem armado, a cavalo, e vindo direito para a ponte, ali houveram ambos justa, de que meu pae contava muitas cousas de grande esforço e valentia, que vos eu não contarei; porque, ainda que as mulheres folguem muito de ouvir cavalarias, não lhes está bem contarem-nas, nem élas parecem, nas suas bôcas, como nas dos homens que as fazem.
«Mas, comtudo, dissera-vo-las eu, se me lembrassem inteiramente; porém, não me lembra senão que contava meu pae que romperam três lanças, e á quarta caiu o cavaleiro da ponte; e com a queda grande do encontro (que tambem foi grande) ficára sem se poder levantar por um pouco.
«Lamentor se apeou rapidamente. Quando chegou junto d'êle, o achou sem fala, e, descobrindo-o, lhe pareceu como morto. Mas, d'ahi a um pouco, acordou, todo mudado na côr, e levantando os olhos para Lamentor, que sobre êle estava, com um suspiro:
—«Ai! ai! cavaleiro,—lhe disse. Que vos nunca vira, prouvera a Deus, ou que ao menos vos não tornára a ver!»
«Lamentor houve d'êle dó, maiormente de suas lagrimas, que lhe viu; e, tomando-o pelo braço, o ajudou a erguer, dizendo:
—«Do amor, senhor cavaleiro, nos podemos queixar com razão; que, assim como vos êle a vós fez aqui guardar esta passagem, me fez a mim fazer-vos dano. De vo-lo ter feito, me pesa como homem; que, fazer-vo-lo, foi como namorado. N'outra alguma cousa de vosso contentamento vo-lo emendarei, quando mandardes.»
«O cavaleiro da ponte, que assim o viu comedido, bem lhe pareceu razão de lhe agradecer aquela vontade; mas tamanha era a dôr que tinha no coração que não pôde acabar de forçar a sua. Comtudo, porque era de alta criação, lhe disse, como desculpando-se:
—«O amor demasiado não vive em terra de razão, mas eu irei tomar vingança d'êle n'outras, alongadas d'esta, onde não veja cousa com que os meus olhos descansem; ainda que esta vingança bem me pésa,—pois que ha de ser de mim e de meu cuidado?!»
«E assim se virou para outro lado, e deu a andar pelo vale abaixo. E como êle da queda grande que dera ficasse mal-tratado, e (segundo depois pareceu) quebrasse alguma cousa de dentro, não foi muito pelo vale abaixo, porque, acabando o seu escudeiro de tomar o cavalo, começando d'ir após êle, o alcançou perto d'ali: e achando-o já lançado no chão, de bruços, foi para o erguer, e viu que êle era em estado de morte.
«Começou a chorá-lo amargamente, e Lamentor, que o ouviu, deu a correr para lá. E vendo que estava o escudeiro com seu senhor, como morto, nos braços, desceu-se prestesmente, e foi-se para êle; e vendo-o no derradeiro termo de sua vida, e como desmaiado, lhe começou a dizer:
—«Que é isto, senhor cavaleiro?... Esforçae! que é este o passo verdadeiro para que tomastes a ordem de cavalaria.»
«E êle, acordando, pôs os olhos em Lamentor, e estendeu-lhe, vagarosamente, a mão direita, como em signal que parecia de paz. E, com uma voz cansada, disse:
—«Ao esforço, se me êle pudera valer, perdoára eu tudo; pois me falece agora, quando a mim tanto cumpre viver...»
«E com a força que fez para dizer isto (como homem que tinha alguma dôr grande de dentro) foi-se-lhe o folego, e, cerrando os seus olhos, ficou como passado d'este mundo. Mas, d'ahi a um pouco, os tornou a abrir, e fazendo menção com o rosto para aquela parte onde estava o castelo da donzela por quem guardava a passagem, e que todo aquele vale descobria, e levando para lá os olhos,—parece que lembrando-lhe que não tinha já mais de oito dias para acabar o praso que lhe fôra assinado, e como cousa que lhe mais magoava—ainda disse estas derradeiras palavras:
—«Ó castelo, quam perto ainda agora estava de vós!»
«E, com isto, deixaram-se-lhe os seus olhos ir, cansadamente, cerrando para sempre.»