Capitulo VI

Em que se diz a razão por que o cavaleiro da ponte sustinha aquele passo, e de como sua irman ali veio ter

«Chegadas eram já ali as andas com as duas irmans, e toda a outra gente, e vendo como o cavaleiro da ponte (que desarmado já o rosto tinha) era de formosura, e presença extremada, e ainda mancebo, todos ficaram muito tristes de tamanho desastre.

«Lamentor, que via como o escudeiro estava lançado aos pés de seu senhor, tristemente chorando, havendo d'êle compaixão (porque, assim na pratica que com êle tivera havia pouco, na ponte, como n'aquilo, lhe parecera de boa maneira e de criação) foi-se para o consolar; e tirando-o para fóra d'ali, d'onde estava chorando, lhe disse:

—«Até nas cousas proveitosas, a temperança é muito louvada; os choros não aproveitam para nada; por isso, é muito mais necessaria n'êles; nem os choros se devem ter senão como cousa que se não póde escusar. Vosso senhor faleceu como cavaleiro; e ainda vos digo que as pessoas que lhe bem-queriam não devem estar tristes; antes se devem alegrar muito, porque foi de tam alto coração que não pôde suportar ser vencido,—que, sê-lo ou não, está na ventura.»

—«D'esta desventura minha, pois fico só (disse o escudeiro, chorando) não me pésa tanto por mim, senhor, como por ser tomada por quem é.»

—«Os cavaleiros por amores, tornou Lamentor (desejando saber o que este era), tudo lhes está bem fazer.»

—«Em lugar, lhe respondeu o escudeiro, que lhe seja agradecido; mas o meu senhor, sobre todas as cousas do mundo, queria bem a uma donzela, que não tinha para êle mais armas que a formosura; porque a vontade (segundo éla mostrou) nunca foi d'êle, antes disseram algumas pessoas de sua casa que no dia em que éla concedeu o praso chorou muitas lagrimas, e que nunca o concedera se não fôra por seu pae, que era tam afeiçoado a meu senhor (e com razão) que, ao cabo de longo tempo, alcançou isto de sua filha, e ainda á hora de sua morte.»

«Todos ficaram espantados d'ouvir isto, porque o cavaleiro da ponte era formoso e se houvera na justa grandemente.

«Lamentor, a quem isto pesou muito, pelo esforço que êle na justa lhe vira, com grande melancolia, disse:

—«Consolae-vos, que amor nunca perdoou desamor; tarde ou cedo, vereis vingança.»

«O escudeiro, chorando, e tornando-se a lançar aos pés do seu senhor:

—«Ai! senhor cavaleiro, disse, para a morte não ha ahi vingança!»

«Lamentor o tornou a erguer, dizendo-lhe: que, para o chorar, haveria tempo; que por então curasse de entender no que havia de fazer.

«O escudeiro lhe disse que iria, d'ali a uma jornada, onde estava uma fortaleza de seu senhor, em que vivia uma sua irman viuva, a quem a êle dera para lhe comer as rendas enquanto que êle seguia as aventuras: e d'ahi viria o concerto para o levarem ao jazigo de seus antecessores; e que, por então, deixasse Lamentor ali um seu escudeiro, que o guardasse.

«O sol ia já declinando, e era tempo de repousar: mórmente quem do mar saíra.

«E porque, não muito longe d'aquele lugar, e da ponte, estava um assento gracioso d'arvoredo, e corria por entre êle agua, ordenou Lamentor de ali jantar, e assim o fez depois, dizendo ao escudeiro que queria ir repousar n'aquele lugar; que lhe daria as andas em que o levassem, e que, se mais lhe cumprisse, de boamente o faria.

«O escudeiro, tendo-lh'o em mercê, disse que assim fosse.

«E, começando-se de ordenar tudo, sucedeu por acaso que a irman do cavaleiro da ponte, que sabia que não havia mais que oito dias para se acabar o praso em que seu irmão (que éla muito queria) todo o seu contentamento tinha posto, determinára vir ali com grandes pompas e atavios, como aquela que devia, por amor e obrigação, acompanhá-lo até ao fim,—porque tinha éla por certo que o acabaria êle com grande honra, pois tanto tempo mantivera sua aventura que não havia já cavaleiro em toda essa parte que por ali não tivesse passado.

«E acertou então de vir: e, vendo aquele ajuntamento e as andas, não soube que dizer; mas logo lhe deu o coração uma volta, e, chegando-se com presteza, viu o escudeiro, que éla bem conhecia, andar chorando. Preguntou-lhe que cousa era aquela. Olhou, e viu o irmão jazer já sobre uns panos ricos, que Lamentor lhe mandara pôr, e, apeando-se apressadamente, foi correndo para êle. Lançando os seus toucados por terra, começou a ir, arrancando cruelmente os seus cabelos (que longos eram), para onde o corpo de seu irmão morto jazia, dizendo:—«Para a dôr grande, não se fizeram leis!»

«Isto dizia éla, porque era costume muito guardado n'aquela terra, que ficara d'outro tempo, sob grandes penas proíbido, não se pôr mulher nenhuma em cabelo, senão por seu marido.

«Chegando a êle, o abraçou muitas vezes, e o beijou, dizendo:

—«Irmão meu, que morte foi esta, que assim vos levou tam depressa, que vos não pude falar? Quam enganada me trouxe, do vosso castelo até aqui, a desventura?! Que desconcertos da fortuna são estes? Para verdes outrem, tomaveis vós esta empreza; e eu para vêr a vós parti de casa: e tudo era para não vêrmos o que desejavamos!... Triste de mim, que, quando vós, com outro rosto, fostes correndo a abraçar-me, dizendo: «D'aqui a três anos, senhora irman, haverei a causa do mundo mais desejada, e, com vossa licença, que mais quero» logo me deu n'alma. E disse-vos: «Que largo praso, esse, para quem o recebe; parece até que quem o põe o não põe para outra cousa!» Mas vós, que para isto quisestes este bem, como que não folgaveis de me ouvir aquilo, me tornastes: «O grande amor assegura esta demanda.» Inda mal, muitas vezes, porque foi tam grande! Mas não me comerá a mim a terra com esta dôr, sem fazer, com todo o meu poder, que custe o largo praso alguma cousa áquela que tanto custou a vós e a mim!»

«As duas irmans, que já tinham descido para darem as andas, se foram para éla, e, tomando-a entre si, começaram a agasalhá-la, á maneira de a quererem consolar,—que a lingoagem d'aquela terra não a sabiam.

«Éla, com alta voz, chorando, disse: «Deixai-me, senhoras, chorar meu irmão, pois não tem outrem que o chore.»

«Chegou-se Lamentor, que sabia a língoa, e andára todas as partidas do mundo, e disse:

—«Os cavaleiros, senhora, que em feitos d'armas acabam, como vosso irmão, não devem ser chorados como os outros homens; porque êles acham o que buscam. Vós, senhora, posto que muita causa tenhaes para ser triste, pela perda que perdestes n'ele, que era o melhor cavaleiro d'esta terra toda, tendes tambem muita razão para louvar a Deus por ele ser tal. Deixae o pranto, e vêde o que mandaes que se faça; que parece, senhora, escandalo curardes mais de vossa dor que de vosso irmão, emquanto o tendes diante de vós.»

«N'isto, chamou o escudeiro, para que lhe dissesse o que estava d'antes ordenado. E éla o houve por bem, e fez-se assim.

«E puseram o cavaleiro da ponte sobre as andas, em ricos panos; e a irman, chorando, pediu que a metessem com ele. Lamentor a tomou por um braço, e a donzela (porque a irman não podia) pelo outro, e puseram-na dentro. E querendo Lamentor soltar os paramentos das andas, como causa de tanto dó, se chegou mais para éla, e disse estas palavras:

—«Ainda que o tempo, senhora, seja para outra cousa, como não sei quando vos tornarei a ver, de mim sabei, como certo, que podeis fazer a vosso serviço; o mais, sabereis do escudeiro.»

«E éla não tornou resposta, que ia toda coberta, lançada já sobre o rosto de seu irmão, chorando.

«Ele soltou os paramentos, e assim se foram.»