Capitulo VII

Como, depois de partida a irman do cavaleiro da ponte, por aprazer aquele lugar a Lamentor, ordenára fazer ali seu assento

«Tristes ficaram todos por aquela desventura; mas Lamentor, que não esquecia quem trazia consigo, limpando os olhos das lagrimas que aquela partida assim lhe fazia, veio para onde sua senhora estava com a irman, com estas palavras:

—«Agora nos podemos, senhora, ir; que na mortalha alheia não temos mais que fazer.»

«E, tomando-as, cada uma por sua mão, mandou os seus para aquele lugar que d'antes lhe parecera bem, dizendo-lhes o que haviam de fazer entrementes.

«Foram-se então todos pôr sobre a ribeira d'este rio, olhando para êle. Falando em outras cousas, estiveram ali um pouco, porque o mais depressa que ser podia foi armada uma rica tenda, e preparado de comer, que tudo vinha em grande abastança.

«Repousaram até bem tarde, que as andas tornaram. E por não serem já horas para caminhar, se deixaram ficar ali aquela noite,—que a fortuna tinha já ordenado que fosse para sempre.

«Belisa (que assim se chamava aquela senhora que vinha prenhe), emquanto ali estiveram, antes que as andas viessem, adormeceu; e, acordando um pouco agastada, viu junto de si Lamentor, e lançando-lhe, amorosamente, os braços sobre o pescoço, esteve assim pensativa por um pouco.

«E êle, vendo que éla sonhára, pelo desacordo com que acordára, lhe preguntou:

—«Que cousa, senhora, foi essa?»

—«Sonhava, senhor (lhe respondeu éla) que estávamos, vós e eu, ambos presos de um fio; e que eu cortava-o, e que vos não via mais.»

«Lamentor, não lhe pareceu senão que lhe atravessavam aquelas palavras o coração (como na verdade assim foi) e assim êle, com isto que em si sentiu, se entristeceu grandemente.

«Adivinhava-lhe, parece, a alma o seu mal. E não pôde tanto dissimular que o não conhecesse éla, e disse-lhe:

—«Que é isto, senhor, que assim vos mudastes com o que vos disse?»

«Mudando êle o proposito em cousa que tambem lh'o mudasse a éla, para lhe escusar alguma imaginação, pelo perigo em que vinha da prenhez, lhe respondeu, dizendo:

—«Hei-vo-lo, senhora, de confessar, ainda que n'isto force minha condição,—que nem dizer-vo-lo, nem cuidá-lo quisera. Houve melancolia. Perdoae-me, que de vós não se póde éla haver. Mas como os sonhos não venham senão do que a gente traz na fantasia pareceu-me (porque me dissestes que sonhaveis que me não vieis mais) que era desconfiar do que vos quero, e de mim,—sendo vós bem segura de ambas as cousas, ou de cada uma.»

—Éla, com a boca cheia de riso, que bastava para o desagastar (se êle aquilo cuidava) se chegou mais para êle, dizendo-lhe:

—«Bem longe viera eu buscar essa desconfiança! Eu vos perdôo. Parece que é este dia aziago, que tantos desastres acontecem n'êle!»

«N'isto, e em outras cousas, passaram aquele dia, emquanto houve sol,—o qual com mais prazer se havia de pôr, do que amanheceu, pelo que ouvireis.»