Capitulo XI
De como se deu sepultura ao corpo de Belisa, e do pranto que com êle fez Lamentor
«Lamentor se tornou a seu pranto,—que muita causa tinha êle para isso.
«Mas, estando êle, e a irman, assim por um grande espaço de tempo, que ia já o Sol para o meio-dia, a dona honrada (que ama se chamou depois, pela criação da menina) como era já idosa, era de muito saber, e chegando-se para onde ambos estavam no seu pranto:
—«Senhores, (começou a dizer) para o pranto, muito tempo vos ficará, que a desventura parece que é n'esta terra como na nossa. Deixai as lagrimas, que não é agora tempo para vós, senhor, não parecerdes cavaleiro; nem para vós, senhora, parecerdes tanto mulher. Lembre-vos que a tristeza é de todos; que tamanho mal foi o nosso que não tam sómente o hemos de ter, mas ainda nos havemos de consolar uns com os outros. E, pois temos a dôr para sempre, doâmo-nos, sequer, como de nós que ficamos vivos. A sepultura é devida aos mortos: hão-se de fazer as cousas necessarias; olhai que é o derradeiro dom da vida! Termos o corpo da senhora Belisa mais tempo sobre a terra, parecerá fazermos-lhe força no mais pouco de sua partida; e porventura se deve éla desgostar de lhe negarmos o seu descanso quando não nos hade pedir mais cousa alguma.»
«Acabadas estas palavras, que não foram ditas sem muita dôr de todos, tomou éla á senhora Aonia, como sobraçada, e a levou para a tenda pequena, que chegada áquela estava; e d'ahi tornou por Lamentor, e tambem o ajudou a ir para lá. Depois, entendeu em concertar o necessario.
«Mas Lamentor não quis que levassem o corpo de Belisa para outra parte, antes mandou que ali, onde falecera, fosse a sua sepultura; porque logo assentára em sua vontade de nunca mais, emquanto vivesse, se mudar d'aquele lugar. E assim o fez.
«E porque, nos reinos d'onde êles vinham, se costumava, antes que mandassem os corpos mortos á terra, virem todos os parentes a beijarem-nos nas faces, e os familiares nos pés, e o parente mais chegado por derradeiro de todos (parece que faziam aquilo como saudação, para que aquela transmigração fosse como em boa hora), quando tudo foi acabado, a ama veio chamar Lamentor e a senhora Aonia, que foi prestes lançar-se sobre as faces de sua irman.
«E, beijando-a muitas vezes, levantou a voz, dizendo:
—«N'outra terra, muitas tivereis vós que fizeram isto, mais que n'esta!»
«E aqui começou a rasgar o seu formoso rosto.
«E todos levantaram um triste pranto.
«Á maravilha, cada um lembrava a sua dôr, e assim a iam beijar nos pés.
«Lamentor, a quem mais doía onde ainda nunca outra cousa lhe doera, depois de muitos suspiros arrancados d'alma, olhando pelo que devia fazer, pelo costume, d'esta maneira disse:
—«Senhora Belisa, como vos hei de saudar, eu? Por mim, deixastes vós vossa mãe, vossa terra, vossos amigos e parentes! Quem vos pôde apartar de mim, em terras estranhas, para me fazerdes tam triste?! Não me querieis vós a mim, tamanho bem? Como me deixastes só? Mas alguma desventura me houve inveja, que o que vós me fazieis para ser o mais ledo cavaleiro do mundo—para eu ser o mais desgostoso o fazieis vós!... Malaventurado cavaleiro, que para vós, senhora, estava ordenada uma sepultura em terra alheia, e, para minha vida, duas! Mas a vossa terá o corpo; e a minha: vida e alma! Não era mais rijo, senhora, o fio que nos prendia a ambos? Como o cortastes vós, sem mim? Não vos lembrou que era eu o que vos não havia de ver mais? Mas pedistes, senhora (me disseram) que vos levassem de junto de mim, para me não tirarem do repouso; e outrem tirava-m'o estando longe de vós. Não bastou a minha desventura haver de ser mais triste do mundo, mas ainda a maneira como me veio o havia tambem de ser! Não me chamaram senão para vos não ver; e ainda então vos doestes de mim, que quisereis limpar-me as lagrimas, e a minha desventura não o queria. Faleceu-vos a mão; como que vos deixava, sendo já senhora da vossa vontade a morte. E, com os olhos derradeiros postos em mim, me fostes mostrando que, com a alma, se vos ia tambem a vontade. Mas devidos eram os meus anos a este vosso caminho; mas mais o era eu ás tristezas! E, pois fico para élas, o melhor é ficar sem vós!»
«E, com isto, cumpriu o costume.
«Mas a ama, que via não haver ali outrem sobre quem recaisse o cuidado das honras derradeiras, senão a éla, arredando Lamentor e a senhora Aonia, tomou uma rica toalha nas mãos, e, lançando-a por cima do rosto de Belisa:
—«Agora para sempre (disse) vos cumpre olhar para o ceu, onde éla, bem-aventuradamente, está; que isto é terra! Quem a amar, pois já éla a deixou, parece que errará ao bem que lhe quiser.»
«Palavras eram estas de muita consolação, se soubera a dôr presente consolar-se.
«Mas assim a enterraram.
«Deixemos aqui as cousas de Lamentor (que foram muitas e extremadas as que êle fez, pelo muito que a Belisa queria), porque como este conto seja dos dous amigos, agravo se lhe fará, ao muito que d'êles ha para dizer, gastar-se n'outrem alguma parte do tempo.»