Capitulo XII
Do que sucedeu ao cavaleiro, que saiu da tenda, vencido do parecer e formosura da senhora Aonia
«Torno-vos ao cavaleiro que saiu da tenda, tam triste que não pôde alongar-se muito d'ali; e, apeando-se, sentou-se ao pé de um freixo que cerca d'aquelle ribeiro e da ponte estava. E, para pensar mais á sua vontade, mandou o seu escudeiro, arredado d'ali, que desse de comer ao seu cavalo na ribeira d'aquele rio, porque logo se temeu de êle o ver assim, e cair em alguma suspeita que fosse contar a Cruelcia (que era aquela por quem viera ali, como ouvistes), porque todos os seus lhe eram muito afeiçoados; e como éla quisesse a êle muito grande bem, êles não se podiam ter que lh'o não mostrassem todo em as obras; d'onde nascia irem-lhe êles a dizer e contar tudo o que êle passava.
«Assim o que êle fazia por bem lhe saía ás vezes em mal; que para tamanho bem lhe éla queria que não podia deixar de ouvir, pelo tempo, cousas que a magoassem; nem tambem êle não as podia deixar de fazer, pelo pouco que lhe queria. Como, de feito, assim, por derradeiro, lhe foi isto causa, a éla, de triste fim.
«Mas, sentado o cavaleiro ao pé do freixo, esteve por longo espaço revolvendo muitas cousas na fantasia.
«E, quando se lembrava do que a Cruelcia devia, parecia-lhe sem-razão deixá-la; por outra parte, lembrando-se de quam bem lhe parecera Aonia, parecia-lhe desamor não lhe querer bem.
«Tinham-no assim, entre ambas, formosura e obrigação, a ver quem o levaria; mas, por derradeiro, pôde mais a de mais perto.
«Costumava dizer meu pae que fôra vencida a obrigação, como cousa que lhe não vinha de direito o pago no amor, e vencera a formosura, como quem só de amor se pagava.»