Capitulo XXI
De que maneira Bimnarder se viu com Aonia
«Aonia, que estava escutando, ouviu toda esta pratica; e, comquanto a ama contradissera a outra, éla o creu. E não fôra isto nada, senão que, após a crença, foram todas as outras cousas que as crenças, n'estes casos, costumam trazer após si; que logo teve desejos, pensando em querer-bem; e já não havia dia nem hora que êle fosse certo de sua vontade para que se não apartasse d'ali por algum desastre, que éla começou a recear,—porque o verdadeiro bem-querer não póde estar muito tempo sem receios.
«Vêdes aqui como se namorou esta donzela de Bimnarder, que pareceu cousa feita de acinte; porque ambos se começaram a querer-bem sob uma sombra de piedade; e como haviam de acabar ambos de uma mesma maneira,—começaram assim tambem, ambos de dous, de uma!
«Aonia, logo que se determinou consigo, não pôde mais descansar.
«E como êle tivesse por costume vir sempre por derredor d'aqueles paços (que sumptuosos se faziam, á maravilha), por uma fresta alta, que na camara onde éla dormia fôra feita só para o lume, se subiu Aonia, sabendo que êle andava ahi.
«E, como o viu, com os desejos que tinha de o ver, e com o que consigo tinha assentado, pareceu-lhe não tam só assim como êle era, mas como éla queria que fosse.
«Depois de o éla estar olhando um pouco, bem á sua vontade, porque êle, ainda que contra a fresta com o rosto acertasse então de estar, acertou tambem de estar olhando para o chão, pensativo como costumava, teve éla tempo para o ver bem. Mas, depois de um pedaço bom, não suportando não ser vista por êle, fez que falava com alguma pessoa de casa.
«A isto, olhou Bimnarder, e, conhecendo-a, transportou-se, e lhe caiu o cajado no chão.
«Levou Aonia contentamento d'aquele desacordo, que bem o viu. E esteve assim mais um pouco; mas não pôde tanto forçar-se que a vergonha natural de donzela (ainda tam moça, e tam guardada, como éla era) não pudesse mais que o seu desejo, e tirou-se depressa da fresta.
«Porém, não estando ainda bem em baixo, tornou a espreitar se se fôra êle, e tornou-se logo a tirar.
«Tambem quisera éla tornar outra vez e outras, mas não pôde tantas vezes decidir-se a fazer o que não devia.
«Veio a noite n'aquele dia mais cedo, para Aonia, do que nunca outra viera. Deus sabe como éla aquela tarde passou! Mas não quero aqui contar muitas cousas, que, por querer-bem, se fazem de maneira que se não podem dizer. A velha e honrada ama, que, com o que suspeitou, entendeu o desassocego de Aonia, que diferente foi logo para quem atentasse n'isso, andava triste, e desgostosa, em parte de si, pelo que lhe contara d'êle. E, por isso, o sentia muito mais, e áquela ceia não pôde comer.
«Mas, recolhidas que élas foram áquela camara da fresta, onde dormiam, e pondo-se a ama a tratar da menina que creava, como costumava,—como pessoa agastada de alguma nova dôr, e quis tornar ás cantigas; e começou éla então, para a menina que estava tratando, a cantar-lhe um cantar á maneira de solau; que era o que, nas cousas tristes, se costumava cantar n'estas partes, e dizia assim:
ROMANCE
«Pensando-vos estou, filha;
Vossa mãe me está lembrando:
Enchem-se-me os olhos d'agoa...
N'éla vos estou lavando.
«Nascestes, filha, entre mágoa.
Para bem inda vos seja,
Pois em vosso nascimento
Fortuna vos houve inveja.
«Morto era o contentamento,
Nenhuma alegria ouvistes;
Vossa mãe era finada,
Nós outros eramos tristes.
«Nada em dôr, em dôr creada,
Não sei onde isto ha de ir ter...
Vejo-vos, filha, formosa,
Com olhos verdes crescer.
«Não era esta graça vossa
Para nascer em desterro.
Mal haja a desaventura
Que pôs mais n'isto que o erro!
«Tinha aqui a sepultura
Vossa mãe, e mágoa—nós;
Não ereis vós, filha, não,
Para morrerem por vós.
«Não ouvem fados razão,
Nem se consentem rogar;
De vosso pae hei mór dó,
Que de si se ha de queixar.
«Eu vos ouvi a vós, só,
Primeiro que outrem ninguem;
Não foreis vós, se eu não fôra;
Não sei se fiz mal, se bem!
«Mas não póde ser, senhora,
Para mal nenhum nascerdes,
Com esse riso gracioso
Que tendes sob olhos verdes.
«Conforto mais duvidoso
Me é este que tomo assi;
Deus vos dê melhor ventura
Do que tivestes 'té aqui!
«A Dita e a Formosura,
Dizem patranhas antigas,
Que pelejaram um dia,
Sendo d'antes muito amigas.
«Muitos hão que é fantasia;
Eu que vi tempos e anos
Nenhuma cousa duvido,
Que tudo é sujeito a danos.
«Mas nenhum mal não é crido;
O bem só é esperado?
E na crença, e na esperança,
Em ambas ha 'hi cuidado,
Em ambas ha 'hi mudança!»