Capitulo XXII

De como Bimnarder, estando na fresta da camara de Aonia, se pôs devagar a ouvir a ama

«O pastor da flauta (que não era pastor) teve n'aquela noite maneira de, com um pau que colheu, arribar á fresta; e já estava n'éla quando começara o solau.

«Bem conheceu na limpeza das palavras, e na pronunciação d'élas, que a ama era natural d'esta terra, e avisada; por onde logo receou que, se não tivesse n'éla ajuda, teria grande estorvo.

«Encomendou-se á sua sorte.

«Acabou a ama de tratar da creança, que não foi tratada sem muitas lagrimas d'ambas, d'éla e de Aonia, que penteando-se esteve entretanto, segundo sentiu Bimnarder,—que êle nada de dentro podia bem divisar, pelo impedimento de um pano que diante da fresta estava, para amparo d'éla.

«Acabada a menina de tratar; apagando o lume, se deitaram élas; e, porque a ama tinha sua suspeita, fez que dormia, para espreitar a Aonia; e Aonia, porque tinha seu cuidado, não podia dormir, e ora se revolvia para uma parte, e ora para outra; e outras vezes, após um socego de um pouco, (colhendo folego) dava um baixo suspiro longo, á maneira de cansada d'aquilo que acabara de pensar.

«Esteve tudo a ama notando por um grande pedaço.

«E já Bimnarder estava para descer, cuidando que era outrem a que fazia aquilo, senão quando a ama começou assim a falar para a senhora Aonia:»