Capitulo XXIII
Do singular conselho que deu a ama á senhora Aonia pelo que suspeitou dos seus amores
«Não dormis, senhora Aonia? E que será, senhora, se não podeis dormir? Parecendo-me vae que esta nossa vinda aqui para desastres foi, e não mais; mas assim de longe os ordena a ventura, que logo ao começo se não podem conhecer.
«Mal cuidara eu o que havia de acontecer á senhora Belisa, quando, aquela noite, depois de dormirem todos, nos levantamos nós sós, caladamente, e pelo laranjal do jardim (que com a espessura do arvoredo fazia então mais escuro) passámos cheias de medo, e vós pegada a mim, toda tremendo, fomos sair pela portinha falsa que acolá, no mais escuro lugar d'êle, estava, onde achámos a Lamentor aguardando-nos já havia pedaço, todo cheio de esperanças tam longas que, emfim, haviam de vir a ser, assim, esperanças, não mais!
«Por isso, cumpre a todas as pessoas (e ás donas, senhora, muito mais cumpre, pois são as que aventuram mais) que, ao principio das cousas, olhem onde élas podem ir parar; que não ha nenhuma tamanha, que no começo d'éla, se lhe não possa resistir, ou deixar sem trabalho; que muitos rios grandes ha ahi que, onde nascem, se podem impedir com um pé, ou levar para outro ponto; e no meio d'êles, ou depois que colhem forças, todo o mundo junto os não poderá tolher ou mudar. Chama uma agoa a outras agoas, e um erro a muitos erros... Em pequeno espaço, crescem de maneira que se não podem depois deixar!
«Gravemente, e com muita prudencia, devia cada um cuidar se o que faz, ou o que determina fazer, é cousa honesta e que convenha; que, se lhe sae bem, todos lh'o teem a bem, e se não, ainda que o mundo lh'o tenha a mal (o que muitas vezes acontece, porque, mal-pecado, já as cousas não são julgadas senão pelas saidas d'elas) não tem ao menos de que se queixar consigo.
«E grande bem é, a meu ver, excusar a pessoa as inimizades entre si, pois não ha lugar cá n'este mundo que defenda a ninguem de si mesmo.
«Pode-se tolher inimigo e inimiga, frio e chuva; cuidado, pode-se tomar, e tolher—não.
«Já quem faz o que deve, saindo-lhe como não deve, não quero afirmar que lhe não dará paixão; que a perda de qualquer proposito (ainda que seja desarrazoado) a dá. Mas, assim, digo que se lhe der paixão, dar-lhe-á sofrimento para éla.
«Bem-aventurado se póde chamar, n'esta vida, quem tem dôr que se suporte; pois, segundo parece, não se póde viver sem éla, assim como assim.
«Nos amores cuidará alguem que não é isto necessario, e que não é costumado; cuido eu que não poderá ser mais necessario. Em todas as cousas se deve haver respeito ao como e ao quando, e ao porque ou para que se fazem, para se não errarem. Maiormente se deve ter este respeito nos amores, pois são tão sujeitos aos erros, que mais mal contado seria, ao caminhante rico, se fosse desprevenido pelo lugar que de ladrões é seguido, que por outro que o não fosse; porque n'este, se lhe acontecesse algum desastre, culparia a ventura; mas n'aquel'outro culparia a si, que são culpas mais graves de perdoar.
«Por isso, senhora, vos peço que aprendaes de mim, que vi culpas, e os danos d'élas, porque assim como toda a pessoa, no bem, é mais amiga de si que d'outrem, assim tambem no mal (quando acontece que haja algum desvario consigo) é mais inimiga de si que de ninguem.
«E isto não é para espantar, porque é inimigo de casa, como dizem.
«Ainda mal, muitas vezes, que me foi necessario que vo-lo dissesse, porque o soube para vo-lo dizer!
«Quereis antes, senhora, não ser contente que arrependida.»
«E aqui, fazendo a ama uma pausa, não para acabar, mas sim para descansar (que vontade tinha já de lhe dizer tudo) sentiu dormir Aonia.
«E, cuidando que fosse fingido, esteve um pedaço espreitando-a, e, por derradeiro, pondo-lhe a mão, e bulindo-a, se certificou que dormia. Parece que, cansada do trabalho não acostumado, adormeceu. Éla era moça, e nunca se vira n'outra...
«A ama, ainda que isto lhe fizesse duvidar do passado comtudo, pelo que passara já por éla, pareceu-lhe o que era, porque não ha cousa que traga mais certo o sôno ás moças que a dôr grande: e ás velhas tira-lh'o.
«E com esta fantasia, em que a ama se afirmou, adormeceu tambem.»