Capitulo XXV
De como Bimnarder, pela fresta do aposento de Aonia, lhe falou
«Como aconteceu a Bimnarder que, vindo a noite, pondo-se á fresta, como as passadas fizera, sentiu-as deitar, e, d'ahi a um grande pedaço, já quando estava desesperado, ouviu pela casa andar de mansinho, e pôrem alguma cousa contra a fresta.
«Estando com o sentido pronto, n'isto sentiu que subia alguem, e não crendo que fosse tanto (como acontece na vista das cousas muito desejadas, e esperadas muito), antes receando que fosse algum desastre, abaixou-se prestes, e deixou-se estar ao pé da fresta.
«Aonia levantou o pano, e, com o escuro que fazia, não viu ninguem.
«Comtudo, deixou-se assim estar um pouco e, não sentindo nada, duvidou de todo, e, indo para descer, disse:
—«Parece que foram só palavras!»
«Conheceu-a, na fala, Bimnarder. Dizendo:
—«Não foram, nem serão», subiu depressa á fresta.
«E éla tambem o conheceu, e subindo, chegando êle, e querendo-lhe falar, disse éla muito devagarinho:
—«Que me perdoeis!»
«N'isto, começou a chorar a menina, e, acordando, a ama se pôs a embalá-la, cantando-lhe; mas, não se querendo éla acalentar, se ergueu a ama, dizendo:
—«Não sei se acharei lume, que esta criança sente alguma cousa.»
«E, desde que abriu a porta da camara, se foi á outra casa das mulheres, a procurar lume.
«Aonia, que viu não haver remedio, querendo-se, depressa descer, chegou o rosto muito á fresta dizendo:
—«Ide-vos embora, que não póde ser mais.»
—«De vós, lhe respondeu êle, me não posso eu ir assim.» E isto, tremendo-lhe a fala.
«E éla, que houve dó d'êle, querendo soltar o pano, amparo da fresta, não se pôde ter que lhe não desse de si alguma presença, e disse-lhe:
—«Pelo que fiz por vós, julgae o que tinha para vos dizer; e perdoae-me (que vos não posso pagar em mais) o soltar d'este pano.»
«E assim o soltou, descendo-se muito depressa, e concertando tudo.
«Quando tornou a ama, já a achou deitada.»