Capitulo XXVI

De como Bimnarder, estando na fresta de Aonia, adormeceu, e se lhe foram, por sonho, os pès, e caiu

«Deixou-se Bimnarder ficar á fresta, e ali esteve até pela manhan, que tam ocupado lhe ficou o pensamento d'aquelas palavras que lhe Aonia dissera, em se indo, e da maneira como lh'as dissera, que uma cousa e outra não lhe dava a mais vagar, nem tam só para se lembrar de fugir ao tempo.

«Mas como êle não tivesse a noite antecedente dormido, nem o dia que se seguiu, então, como descansado de alguma parte de seus cuidados, adormeceu, não já por os ter menos, mas como acontece a quem traz alguma cousa que muito deseja, e anda, entretanto aquele desejo o traz, sem poder repousar, mas, depois que alguma segurança lhe vem de o ter cumprido, repousa e dorme, como se o alcançára.

«E não podemos dizer que seja então menor o desejo, que antes, com razão, deve ser maior.

«Assim foi Bimnarder, que, parte de cansado, e parte de contente, transportou-se, parece, tanto em seu cuidado, que se lhe foram, por sonhos, os pés e as mãos, e caiu no chão, com o pau após si.

«E, ao cair, lavou toda em sangue aquela parte do seu rosto, que d'aquela banda da parede parece que levou; de que muitos dias esteve mal depois.

«Mas nenhumas cousas grandes se acabaram senão por meio de grandes desastres como aqui vereis; porque esta queda foi causa de Bimnarder ver o que, pela ventura, nunca vira.»