XII

A 24 de agosto largou a esquadrilha do porto de S. Julião, depois de quasi cinco mezes ali passados, com bem pouco resultado para os progressos da expedição.

Durante esse tempo repararam-se os navios, não sem grandes difficuldades, como se sabe, e realisaram-se notaveis modificações nos commandos, em resultado da insurreição de Quezada e de Luiz de Mendonça.

Alvaro de Mesquita commandava agora a caravella Santo Antonio e João Serrão a Conceição. Magalhães confiara o commando da Victoria a seu cunhado Duarte Barbosa.

Antes da partida todos da esquadrilha se prepararam espiritualmente com os soccorros da religião, confessando-se e commungando, como quem se dispunha para grande empreza, consoante o costume do tempo.{80}

Entretanto deu-se a bordo uma scena tocante, que impressionou tristemente toda a companha e foi a despedida de João de Cartagena e do padre Pedro Sanches que tinham de ser abandonados em terra, conforme a sentença que a isso os condemnara.

Era lastimoso o seu estado, com tudo o respeito que Magalhães soubera incutir á sua gente, fez com que ninguem se oppuzesse a semelhante barbaridade, e os condemnados lá ficaram á mercê, na praia, apenas com provisão de bolachas e vinho para alguns dias.

Com que magua e, quem sabe arrependimento, viram os miseros levantar ferro os navios e largar as vellas ao vento até desaparecerem na distancia do extenso mar, indo-se-lhe n'elles a esperança de voltarem á patria, abandonados n'aquellas paragens até ali ignoradas para a navegação!

E a frota de Magalhães foi singrando no mesmo rumo que Serrão já levara quando fôra explorar a costa d'aquelle mar.

O tempo ia bonançoso, sem chuvas, nem vento rijo; mas já proximos do rio Santa Cruz principiou a desenvolver-se temporal e tão violento, que as caravellas estiveram a ponto de perder-se.

Diz Barros que Deus e os Corpos dos Santos é que os salvaram, referindo-se á apparição dos fogos de Santelmo nos topes dos mastros.{81}

Era crença dos marinheiros n'aquelles tempos, e por muitos annos o foi ainda, que quando appareciam aquelles fogos nos topes dos mastros—hoje conhecidos como resultantes da electricidade—era signal de estar passado o perigo.

Aquelles temporaes detiveram a frota dois mezes no rio Santa Cruz, sem Magalhães poder proseguir na sua almejada descoberta.

A 18 de outubro, porém, o tempo parecia ter abrandado mais duradouramente, e Magalhães resolveu ir ávante, mandando fazer rumo para S. O. sem se afastar da costa.

Principiavam os navios, a entrar em mares até então desconhecidos, e o receio dos navegantes era cada vez maior. Vinha a memoria as historias phantasticas e horriveis que se contavam d'aquelles mares tenebrosos. A superstição invadia todos os espiritos e apavorava os mais ousados. Só havia ali um espirito forte que tinha que repartir-se por todos, incutindo-lhe animo e confiança: era o de Fernão de Magalhães, firme no seu proposito, crente na sua idéa. Com elle tinha que se impôr a todos os seus subordinados, fazendo-lhes saber, que haviam de ir até o fim, até encontrar a procurada passagem para o mar do Sul, ainda que tivessem de chegar a 75.° graus de latitude, ou os seus navios se afundassem no meio da porcella.{82}

Não tardou que, de novo, a tempestade assaltasse as frageis caravellas, obrigando-as a estar á capa dois dias, mas abonançando ao terceiro, permittiu aos navegantes avançarem até 50.° de latitude, avistando a 21 de outubro, uma lingua de terra para S. O.

Esta vista alegrou Magalhães, que mais se fortaleceu na sua idéa, prevendo que aquella lingua de terra devia de ser a embocadura do estreito ou passagem para o mar das Indias.

Immediatamente tratou de mandar fazer um reconhecimento por Serrão e por Mesquita, que iam respectivamente nas caravellas Conceição e Santiago.

Mal, porém, estes navios se tinham apartado da frota, quando pela noite sobreveio um forte temporal, que se estendeu por toda a costa, pondo em imminente perigo tanto as caravellas que tinham ido ao reconhecimento, como as que ficaram á espera de noticias.

Parece que a Providencia se comprazia em contrariar tanta audacia e dar razão aos medrosos, que quasi tinham por louco o chefe da temeraria empreza.

Foi uma noite e um dia de infinda tormenta. As caravellas que haviam ancorado, largaram as amarras e abandonaram-se á porcella; a Conceição e a Santiago correram ao vento sem governo, em perigo de a cada{83} momento vararem na costa. Diz Barros que os ventos dominantes, n'aquella quadra, eram do Sul, contrarios ao rumo dos navegantes. Tanto bastava para difficultar a viagem e augmentar os perigos em mares desconhecidos.

Mas a mesma Providencia que assim experimentava os navegantes, tambem lhes accendeu a esperança no meio da tormenta, pois que as duas caravellas corridas do tempo, quando os navegantes se julgavam perdidos, devisaram estes uma aberturasinha ao longo da costa que lhes pareceu ser como que a entrada de alguma bahia.

Manobrando com grande difficuldade, fizeram prôa para lá, e seguindo sempre avante transpozeram aquella entrada e encontraram-se n'uma bahia, e, como o tempo os não deixasse deter, foram correndo as caravellas até que entraram n'outra garganta de terra para além da qual se acharam em espaçosa bahia, como ainda não tinham encontrado.

Ali serenou a tempestade, e os navegantes poderam reconhecer onde estavam, resolvendo Serrão e Mesquita voltarem a juntar-se a Magalhães a participar-lhe a boa nova.

A abertura na costa, para que os navegantes aproaram as suas caravellas, foi, sem duvida, um raio de esperança que lhes sorriu{84} entre a porcella, e por isso a denominaram estreito de Nossa Senhora da Esperança. Á primeira bahia denominaram-n'a depois, de S. Gregorio, e ao segundo estreito, de S. Simão.{85}