XIII
Emquanto Serrão e Mesquita, luctando com a furia dos elementos, conseguiam fazer o reconhecimento ordenado por Magalhães, o audacioso capitão mal se tinha podido haver com o resto da frota, que ficára á espera á entrada do cabo, a que Magalhães deu o nome de Cabo das Onze Mil Virgens, em memoria do dia em que o avistou ser dedicado pela egreja áquella festa.
Pelo espirito de Magalhães mais de uma vez, n'aquellas longas horas, passou a funebre idéa de que Serrão e Mesquita teriam perecido e mais a sua gente, no meio de tão grande tormenta.
O temporal continuava desabrido, e a gente de Magalhães mostrava-se cada vez mais apprehensiva, o que augmentava os receios do chefe pelo exito da empreza que{86} elle, com bem fundadas razões, via proximo a realisar.
Para maior alarme, viram os navegantes elevarem-se rolos de fumo do lado da terra, o que fez suppor que eram fogueiras que os naufragos tivessem accendido para dar signal de onde estavam. Isto pareceu certo a Magalhães, que logo resolveu ir em soccorro dos naufragos, fosse qual fosse o perigo a que se ia expor e o resto da sua gente.
«Quando estavamos, porém, n'esta anciedade, diz Pigaffeta, eis que apparecem duas embarcações, de panno largo e bandeiras desfraldadas ao vento, saltando por sobre as ondas e se dirigiam para nós. Ao approximarem-se dispararam tiros de bombarda, e a sua gente dava gritos de alegria, a que correspondemos do mesmo modo, e quando soubemos, por elles, que tinham visto a grande extensão da bahia ou do estreito, dispozemo-nos para continuar o nosso caminho.»
Pelo que Serrão e Mesquita contou a Fernão de Magalhães, não restava duvida que se encontrára, emfim, a passagem procurada. Os exploradores haviam reconhecido golfos de mar entre alcantiladas rochas, diziam uns; outros julgavam ter achado o estreito, por onde haviam navegado tres dias sem lhe encontrar o fim, notando grandes correntes com pequenos minguantes, signal evidente{87}
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{89} de que o estreito levava as suas aguas para o poente, ao oceano.
Tudo isto dava acerto ao juizo de Magalhães, o qual mandou dez homens em uma chalupa reconhecer a terra.
Esses homens não encontraram gente, mas vestigios. Mais de duzentas sepulturas indicavam ter ali havido povoado; devia ser, porém, na estação do calor, em que os indios vem estabelecer-se á beira do mar, voltando para o interior na estação das chuvas, e era aquella em que os exploradores ali se encontravam. Mais viram muitos esqueletos e ossos soltos de baleias, espalhados pela praia, signal de grandes temporaes que ali arrojavam aquelles cetaceos.
Herrera diz, que por ordem de Magalhães foi a caravella Santo Antonio fazer novo reconhecimento no canal, mas sem resultado, porque tendo Mesquita avançado umas cincoenta leguas, não lhe achou o fim, pelo que resolveu voltar á frota a dar parte da sua viagem a Magalhães.
Vinha talvez mais convencido de que o canal ou estreito só teria mais perigos para quem o quizesse devassar, do que levaria a bom termo de viagem. Magalhães, porém, não se desconcertou com o resultado do reconhecimento de Mesquita, e antes resolveu terminantemente seguir avante, convencido{90} de que passaria o estreito e encontraria, emfim, o mar da India ou do Sul.
Não quiz, porém, levantar ferro, sem reunir na Trindade—navio almirante—o conselho dos capitães, para lhes communicar a sua resolução e saber ao certo dos mantimentos que havia, para que tempo chegariam.
Reunido o conselho, os capitães declararam que havia comestiveis para tres mezes. Quanto á resolução que Magalhães lhes communicou todos se mostraram concordes, talvez mais por obediencia ao chefe, do que por convicção do bom exito do commettimento. Apenas o piloto Estevão Gomes, parente ainda de Magalhães, descordou dos seus companheiros, ponderando que corriam grande perigo em proseguirem, pois que os temporaes ou as calmarias que atrazassem a travessia, poderiam inutilisar tudo, perdendo os navios ou reduzindo todos á fome, de que morreriam. Magalhães combateu moderamente a opinião de Estevão Gomes, affirmando que o canal que encontraram era a passagem para o mar do Sul, e tinha a certeza do que dizia, porque, na thesouraria de Portugal vira uma carta de marear desenhada por Martim Behaim, em que estava traçada aquella passagem, de que não podia duvidar agora. O enthusiasmo de Magalhães{91} chegou a tal ponto que disse ao conselho: Ainda que para chegar ao fim tivesse que comer as pelles de vacca que forravam as antenas dos navios, não retrocederia sem cumprir o que havia tratado com Carlos V.
Todos se submetteram á vontade do chefe, e no dia seguinte a frota soltou vellas e navegou pelo estreito fóra até á grande bahia de S. Bartholomeu, onde os navegantes depararam com um grupo de ilhas.
A frota lançou ferro, e Magalhães mandou fazer um reconhecimento n'um canal ao sul, pelas caravellas Conceição e Santo Antonio.
Ao sul ficava terra, a que Magalhães pôz o nome de Terra do Fogo, por ter observado, de noite, grandes fogueiras que lá ardiam. Aquellas terras ainda hoje conservam esse nome.
Nada adiantou o reconhecimento que Magalhães mandou fazer, porque a caravella Conceição voltou breve sem nada trazer de novo, e a Santo Antonio, debalde a esperaram, não a tornando mais a ver.
Esta falta inquietou sobre modo a Magalhães, pelo receio de que se teria perdido o navio, e ainda empregou esforços para o procurar, mas tudo foi inutil, dando acerto ao parecer do piloto André de S. Martim, que disse a Magalhães que a caravella voltára{92} para Hespanha, como effectivamente voltou, tendo a companha sublevado-se contra Mesquita, ao qual prenderam, dando o commando do navio a Jeronymo Guerra, que ia a bordo como escrivão.{93}