XIX

Foram mais previdentes que humanos os mareantes, que se fizeram á vela sem empregar alguns meios de salvar o Serrão e vingar a morte de seus companheiros. Mas nem por isso foram mais felizes no proseguimento de sua viagem, que a fortuna raro corôa acção ruim.

Chegados á ilha de Bohol, agora uma das Filippinas, reconheceram quanto era reduzido o pessoal para as manobras das tres embarcações que restavam da flotilha de Magalhães. Apenas havia 115 homens, e por isso João Carvalho, que ia commandando agora a frota, determinou que se lançasse fogo á caravella Conceição, por ser a mais arruinada, e a tripulação d'esta fosse distribuida pela Victoria e Trindade.

Assim aportaram a mais algumas ilhas do{138} archipelago e em todas tractaram e fizeram commercio com os naturaes.

Na ilha de Borneo, porém, onde aportaram a 8 de julho, iam ficando captivos, ou mortos se, suspeitando da traição que os naturaes lhe preparavam, não largassem immediatamente para o mar, vendo que se dirigia para os navios grande numero de pirogas e juncos cheios de gente armada.

Foi preciso fazer fogo de artilharia sobre aquelles barcos, com o que destruiram a muitos chegando a aprisionar 16 homens e treze mulheres.

Entre os prisioneiros contaram o filho do rei da ilha de Luzon, o que seguramente era boa presa, para com ella João Carvalho resgatar um filho seu e mais dois castelhanos que haviam ficado em terra, quando as caravellas tiveram que se fazer ao largo. Mas não o entendeu assim o Carvalho, preferindo receber ouro pelo resgate, o que valeu o mesmo que sacrificar o filho e os dois companheiros, porque os insulanos não lhe entregaram os captivos a despeito de todas as diligencias que elle fez para esse fim.

Era, por desgraça, o justo premio do que praticára em Zebú.

D'esta torpeza cedo teve que se arrepender o Carvalho, que certamente não seria com acções d'este jaez que elle, havia de{139} conservar e até augmentar seu prestigio entre os demais.

D'ahi lhe resultou seguramente o ser deposto por seus companheiros que, reunidos, resolveram dar o commando da Trindade a Gonçalo Gomez de Espinosa, e o da Victoria a João Sebastião de Elcano, fidalgo biscainho, que até ahi se conservara na sombra.

Foram estes dois capitães que conseguiram levar seus navios até as Molucas, não sem grandes difficuldades, pois não tinham a latitude certa em que demoravam. Valeram-se para isso de pilotos que aprisionaram, em embarcações que iam encontrando por aquelles mares, e d'este modo lograram seu intento com grande alegria e proveito, segundo refere Pigafetta.

Foi a 8 de novembro que a Victoria e a Trindade fundearam no porto da ilha de Tidore. Haviam chegado, emfim, ás terras das especiarias, sonho dourado d'aquelles tempos e que déra causa áquella viagem aventurosa.

Os portuguezes já por alli tinham andado e disposto os naturaes para o tracto com os europeus, e por isso os hespanhoes encontraram melhor acolhimento, facilitando o seu commercio, em que trocaram tecidos por cannella, noz-moscada, pimenta e cravo.{140}

Os capitães celebraram tractados de commercio e vassallagem com os regulos e, apressando o regresso, para trazerem tão boas novas a Carlos V e á patria, dispuseram-se a partir em meio de dezembro.

Só porém a caravella Victoria pôde largar da ilha de Tidore, a 21 de dezembro, ficando a Trindade de querena, pois precisava de grande concerto nas obras vivas.

A Victoria veiu tocando em mais algumas ilhas, provendo-se de sandalo e de cannella, seguindo a rota que os portuguezes faziam nas suas viagens para a India, segundo diz Pigafetta.

Trazia 60 homens de tripulação, entre estes treze naturaes da ilha; mas os trabalhos, as doenças e as insubordinações vieram dizimando esta gente, morrendo uns e tendo que se executarem outros por seus delictos graves.

Quando a Victoria aportou á ilha de Sant'Iago de Cabo Verde, a 9 de junho de 1522, obrigada pela fome, que já victimara alguns homens de sua tripulação, estava cada vez mais reduzida.

Em Sant'Iago não foram mais felizes, porque os portuguezes, ciosos de que extranhos andassem em exploração de mares e terras que a elles só competia, quizeram apresar o navio castelhano e a gente que{141} n'elle vinha, logo que souberam, por denuncia de um tripulante, da viagem que vinham fazendo.

A Victoria teve, por isso, de largar precipitadamente, não sem lhe ficarem em terra doze homens prisioneiros dos portuguezes.

Finalmente a 6 de setembro de 1522 chegava á bahia de S. Lucar de Barrameda a Victoria, commandada pelo afortunado Sebastião de Elcano e com dezoito homens dos 265 que tres annos antes haviam partido na expedição.

Dia de jubilo para alguns e de tristeza para muitos foi o da chegada da Victoria a S. Lucar de Barrameda. Os que se regosijavam por ver chegar os que lhe pertenciam, mal acalmavam os lamentos das viuvas, das mães ou das irmãs, que debalde procuravam entre os recemchegados, os maridos, os filhos ou os irmãos.

Eram tão poucos os que voltavam e tantos os que haviam partido!

Que de sacrificios não custara aquella viagem; que de vidas immoladas á civilização, desde a do chefe da frota até a do mais obscuro marinheiro!

Entretanto a noticia do regresso espalhava-se por toda a Hespanha, levando a admiração e o espanto á gente por aquelles ousados navegadores.{142}

Carlos V, que chegara da Allemanha, ao saber a boa nova escrevia a Sebastião de Elcano, ordenando-lhe que fosse á sua presença a contar-lhe da viagem: «E quero, dizia, que me informeis mui particularmente da viagem que haveis feito, e do que n'ella succedeu, e vos mando que, logo que esta vejais, tomeis duas pessoas das que comvosco vieram, das mais cordatas e de melhor razão, e vos partais com ellas para onde eu estiver, que por este correio escrevo aos officiaes da Casa de Contractação das Indias, que vos vistam e vos assistam com todo o necessario a vós e ás dictas duas pessoas».[[13]]

Sebastião de Elcano apressou-se a ir á presença de Carlos V, que estava em Sevilha, fazendo-se acompanhar de Pigafetta, o qual apresentou ao imperador um livro manuscripto, relatando dia a dia a viagem de circumnavegação.

Carlos V ficou maravilhado e encheu de honras e pensões Sebastião de Elcano, mais afortunado que Fernão de Magalhães a quem essas honras e pensões deviam pertencer. Ao piloto hespanhol concedeu Carlos V a pensão annual de 500 ducados de ouro, auctorização para se acompanhar sempre{143} de dois homens armados, e um brasão de armas quartelado, representando scenas da viagem, e tendo por timbre um globo com a inscripção: Primus circumdidiste me.

Eram o brasão e timbre que deviam pertencer a Fernão de Magalhães, que tão infeliz foi que nem sequer o pôde legar a seus descendentes, como era seu desejo.

O filho e esposa de Magalhães pouco sobreviveram ao grande capitão, pois que o primeiro morreu em 1521 e a segunda um anno depois; e o mesmo succedeu a Diogo Barbosa, seu sogro, e mais parentes, que poucos annos se lograram, desapparecendo assim no tumulo os poucos herdeiros do grande navegador.

A fortuna vária não deixou pois a Magalhães gosar os fructos da sua gloriosa empresa; outro colheu os louros e os brasões de tal feito; mas não é o nome d'este afortunado que a historia commemora; não é a Sebastião de Elcano que a sciencia venera e agradece os beneficios que lhe legou, e sim a Fernão de Magalhães, porque foi elle que lidou para obter os navios em que devia fazer a travessia dos mares, e com que custo o conseguiu elle! foi Magalhães que dirigiu os mareantes e os reduziu á obediencia tantas vezes quantas contra elle tentaram revoltar-se; foi elle que affrontou a resistencia dos{144} homens e a furia dos elementos; que, zombou das tempestades e jogou a vida quando, todos e tudo conspirava contra ella, e levou avante a sua idéa, incutindo animo quando todos desfalleciam, e assim chegou ao fim, circumnavegando os mares, passando de um mar ao outro, sem outro guia que os seus proprios calculos, deixando ao mundo aberta a passagem para o mar do sul, passagem que nenhum navegador antes d'elle lograra encontrar.

É de Fernão de Magalhães a gloria; foi este portuguez que deixou o nome seu memorado nos mares do novo mundo, como nas cartas geographicas está gravado; e não bastando isto, o nome do grande portuguez elevou-se ao espaço infinito e com elle marcou nos ares duas bellas nebulosas que são conhecidas por nuvens de Magalhães.

Duradoura gloria esta que viverá tanto como o mundo. Nos mares e nos céos o nome de Fernão de Magalhães!

Diz John Herschel, em uma carta datada do Cabo da Boa Esperança, em 13 de junho de 1836:[[14]] «As nuvens de Magalhães, nubecula major e nubecula minor, são muito notaveis. A maior compõe-se de acervos estellares irregularmente dispostos, de outros{145} acervos esphericos e de estrellas nebulosas entremeadas de nebulosas irreductiveis. Estas ultimas parecem formadas por uma poeira estellar. O proprio telescopio de 20 pés não tem bastante poder para as revelar estrellas.

«Aquellas nebulosas produzem uma claridade geral que illumina o espaço da visão e estabelece um fundo esplendoroso em que se distingue tudo que n'elle está disseminado. Nenhuma outra região celeste junta tantas nebulosas e acervos estellares em egual espaço.

«A nubecula minor é menos formosa; offerece numero maior de nebulosidades irreductiveis, e os acervos estellares que se vêem são mais escassos e menos brilhantes.»

A. de Humboldt, falando d'estas nuvens, diz:[[15]] «das duas nuvens de Magalhães que giram em volta do polo austral, d'este polo tão despovoado de estrellas que podia chamar-se uma região devastada, a maior, principalmente, parece, conforme investigações modernas, uma quantiosa accumulação de acervos esphericos de estrellas de maior ou menor grandeza e de nebulosidades irreductiveis. O aspecto d'estas nuvens, a esplendorosa constellação do navio Argos, a via lactea que se vai dilatando entre o Escorpião, o{146} Centauro, e o Cruzeiro tambem, não tenho duvida em dizel-o, o aspecto pittoresco de todo o céo austral produziu em minha alma uma inolvidavel impressão.»

André Corsali fala da existencia d'estas nuvens, na sua Viagem a Cochim, e Pedro Martyr de Anghiera tambem, no seu livro De Rebus Oceanicis et Orbe Novo; o illustre secretario de D. Fernando de Aragão, attribuindo aos portuguezes o descobrimento d'estas nuvens, diz: Assecuti sunt portucalenses alterius poli gradum quinquagesimum amplius ubi punctum circumeuntes quas dam nubeculas licet intueri veluti in lactea via sparsos fulgores per universi cœli globum intra spatii latitudinem.[[16]]

Ao nome de nuvens do cabo, por que as conheceram os pilotos portuguezes primeiro que os hollandezes e dinamarquezes, prevaleceu o nome de Magalhães, com que a sciencia as designou, e n'isto vai honra á memoria do arrojado navegador portuguez que, não tendo a fortuna de receber em vida o premio do extraordinario descobrimento, teve a invejavel gloria de deixar o seu nome gravado nos mares e nos céos, como os deuses da Mythologia.{147}

D'estes conta a fabula, mas d'aquelle fala a historia humana.

É bom recordar estas glorias que, sendo de um homem, são da humanidade em geral e d'este velho e glorioso paiz em especial, porque Fernão de Magalhães era portuguez.{148}

[[13]] Collecion de documentos inéditos para la historia de España, tom. I, p. 247.

[[14]] Cosmos T. I pag. 451.

[[15]] Obra citada.

[[16]] Oceanica. Dec. III lib. I, pag. 217, por Pedro Martyr de Anghiera.