XVIII
Morreu o grande capitão ás mãos dos selvagens de Mactan, n'uma lucta tão heroica quanto ingloria, para quem se tinha proposto a tão grande empresa e a levara a cabo através de todas as difficuldades e perigos.
Fernão de Magalhães, costumado a vencer até os proprios elementos, levou-se de enthusiasmo e não mediu o perigo de assim se expôr á morte que lhe traria ruina para elle e para a sua gente, que sem o chefe e desprestigiada, bem poderia ser victima d'aquelles selvagens, e perder o fructo de tantos sacrificios, ficando ignorado do velho mundo o resultado da aventurosa viagem, se nenhum dos ousados mareantes lograsse voltar á Europa, como quasi ia succedendo.
A morte do heroe teve effeitos desastrosos para toda a expedição, que desde aquelle{130} momento perdeu o prestigio que a fazia respeitar e temer no espirito dos habitantes das ilhas.
O rei de Zebú, que tão docil se mostrara, chegando a fazer-se christão e a alliar-se com estes contra os selvagens de Mactan, depressa mudou de idéas e concertou com os seus para dar morte aos castelhanos traiçoeiramente.
Cinco dias depois do triste acontecimento que acabamos de narrar, a 1 de maio de 1521, nova desgraça viera ferir os castelhanos. Moveu-a a intriga e o despeito de um escravo de Magalhães, que era o lingua da expedição, pelo que refere Pigafetta e conforme o que Sebastião de Elcano declarou no inquerito que, em 1522, se levantou sobre a viagem de Magalhães e tragico fim do valoroso capitão.
Aquelle escravo tinha seus aggravos de Duarte Barbosa que, com Serrão, tomara o commando da frota, e para vingar-se persuadiu o rei de Zebú de que os christãos o queriam trazer captivo para a Europa. Esta falsa denuncia foi como que o fogo lançado ao rastilho, pois de mais estava já o rei de Zebú incitado pelos regulos de Mactan, que o ameaçavam de morte e destruir-lhe os seus dominios se elle não desse cabo dos castelhanos.{131}
Faltando-lhe, porém, a coragem para se defrontar com os europeus em lucta leal, o rei de Zebú recorreu á traição. Continuou a mostrar-se muito amigo dos castelhanos e fiel subdito do rei de Castella, ao qual queria mandar um valioso presente. Para fazer entrega d'esse presente convidou os commandantes Barbosa e Serrão a jantarem com elle em terra e que trouxessem os immediatos e mais pessoas da frota que entendessem, com o que lhe dariam grande honra.
Duarte Barbosa, João Serrão e mais vinte e sete homens, entre os quaes se encontravam Luiz Affonso de Goes, portuguez arvorado commandante da caravella Victoria, depois da morte de Magalhães, o piloto André de San Martin, Sancho de Heredia e Leão da Espeleta, escrivães da frota, e o capellão Pedro da Valderrama.[[11]]
Foi isto na manhã do citado dia 1.º de maio. O rei de Zebú com alguma gente de seu sequito aguardava na praia a chegada dos convidados e, logo que estes desembarcaram, encaminharam-se todos para um palmar, á sombra do qual estava preparada a refeição.
O logar não podia ser mais ameno para resguardar dos raios ardentes do sol, que a{132} custo penetravam aqui e acolá por entre as fisgas das largas folhas das palmeiras que formavam abobada sobre o recinto do festim, vindo reflectir nos vasos de ouro e nas porcellanas dispostas sobre a esteira que fazia de mesa, como era uso.
O rei apparentava toda a docilidade e gentileza de que podia dispôr, e com elle a sua côrte se mostrava em extremo submissa aos christãos, de modo que nada fazia suspeitar da traição que tinham armado; só João Serrão desconfiava de alguma cilada, mas pouco valeu a sua desconfiança, porque Duarte Barbosa, nada receando, instou com elle para que o acompanhasse, e Serrão accedeu para não ser tido por timorato ou cobarde.
Em volta da esteira todos se sentaram e principiaram a servir-se do que havia, comendo e bebendo em boa convivencia; mas cedo reconheceram o engano, porque um bando de indigenas armados, que surdiu de emboscada, lançou-se traiçoeiramente sobre os castelhanos e logo se armou alli uma lucta braço a braço, cada vez mais terrivel, sendo os indigenas em tão grande numero que impossivel era submettel-os.
Os castelhanos foram todos assassinados e só João Serrão escapou n'aquelle momento á furia dos selvagens por um certo prestigio que tinha sobre elles.{133}
De pouco isso lhe valeu! Dois tripulantes, mais felizes que seus companheiros, que em terra pereceram na lucta desegual, haviam-se afastado ao desembarque, suspeitando de alguma cilada, e assim que conheceram a traição, foram-se para bordo a dar parte ao piloto portuguez João Carvalho do que occorrera em terra. Carvalho immediatamente mandou approximar os navios da terra e rompeu fogo de artilharia contra a ilha.
Os indigenas, sentindo os tiros, apoderam-se de João Serrão depois de encarniçada lucta, em que este ficou mal ferido, e atando-o de pés e mãos, conduziram-n'o á praia ás vistas dos seus companheiros que dos navios continuavam a fazer fogo sobre a ilha.
Serrão vê-se perdido e grita e clama para os seus que cessem fogo e tragam presentes áquella gente para o resgatar. A confusão, porém, é enorme; João Carvalho não póde dar ouvidos a taes clamores, e receia nova traição dos indigenas, para se apoderarem do resto da sua gente e dos mal defendidos navios.
Para que se não perca tudo ingloriamente, só resta abandonar aquellas ilhas e fazer-se ao mar, para voltar a Hespanha como pudesse, e, emquanto João Serrão ficava na praia gritando para que o salvassem, porque o matariam assim que os navios largassem suas{134} velas, João Carvalho foi ordenando as manobras e aproando ao mar as caravellas.
Serrão, a quem os indigenas, no primeiro impeto, haviam poupado a vida, soffreu as torturas de morrer inanime ás mãos d'aquelles selvagens, vendo fugir-lhe a unica esperança de salvação, que por momentos o animara, com a partida da frota.[[12]]
Triste e vergonhosa retirada aquella para gente que a tanto se afoitara; mas é evidente que já faltava alli o espirito do grande capitão portuguez que a animara e conduzira, por vontade ou por força, a dar a volta dos mares, realizando a primeira viagem de circumnavegação.{135}
Em Mactan deixaram Magalhães morto, que nem seu cadaver puderam arrancar do poder dos indigenas, e assim perderam a alma d'aquella empresa que assombrou o mundo; em Zebú ficavam Duarte Barbosa e João Serrão com seus companheiros victimas de uma traição.
De melhor sorte eram dignos aquelles bravos, que nem tiveram quem alli os vingasse.{136}
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[[11]] Diego Arana, Vida e viagens de Fernão de Magalhães.
[[12]] Pigafetta, liv. II—Herrera, dec. III, liv. I, cap. X.
Sobre este ponto encontro uma discordancia em Gaspar Correia quando este se refere á morte de Fernão de Magalhães, no tomo II das Lendas da India.
Segundo o phantasioso chronista, Fernão de Magalhães não morreu ás mãos dos indigenas da ilha de Mactan, mas sim no banquete do rei de Zebú, tendo ficado vencedor em Mactan, o que discorda completamente de todos os chronistas que referem esta viagem e das declarações feitas por Sebastião de Elcano e seus companheiros, no processo instaurado em Sevilha no anno de 1522.
Gaspar Correia, na sua linguagem barbaresca, que modificaremos para melhor ser entendida hoje, diz, referindo-se ao combate com os indigenas de Mactan: «O rei corrido, vendo-se assim destroçado, concertou traição com o rei christão e fez com elle ajuste de casar com sua filha e com juras que, morrendo elle, que era velho, tudo lhe deixava e viveriam sempre amigos, porque os castelhanos se iriam embora, e se não acceitasse isto e lhe não desse modo de matar os castelhanos, lhe faria guerra. O que o rei christão, como homem brutal, consentiu na traição e preparou grande festa e banquete pelo vencimento, e convidou Magalhães, que foi ao banquete com trinta homens os mais honrados e bem vestidos, onde estando todos no banquete folgando, entraram os inimigos armados e mataram a Magalhães e os castelhanos, não escapando nenhum e o Serrão o despiram e arrastaram á praia onde o justiçaram e mataram arrastado.»