XV

Transposto o estreito a que Magalhães chamou de Todos os Santos, como ficou dito, mas que um seculo depois era já conhecido por estreito de Magalhães[[6]] e entrada a frota no mar do Sul, estava ainda assim bem longe o termo da penosa viagem, pois que não lhe faltaram perigos e trabalhos que passar.{98}

Não foram as tempestades que difficultaram a marcha, porque essas felizmente não assaltaram os navegantes n'aquelle mar, e tanto que estes lhe chamaram mar Pacifico, que ainda hoje conserva; mas a propria miseria em que se viam, faltos de saude e de alimentos, sem encontrarem comestiveis nem poderem fazer aguadas nas ilhas a que iam aportando, despovoadas e desprovidas das coisas necessarias á vida.

D'esta miseria nos dá boa idéa Pigafetta quando descreve, como testemunha presencial, as necessidades e apuros em que se viram os navegantes:

«Comiamos bolacha, diz Pigafetta, que estava feita em pó, cheio de gorgulhos, que lhe tinham absorvido a substancia alimentar, com um sabor acre detestavel da urina de ratos de que estava empregnado. A agua para beber era, por egual pôdre e amarga. Para não morrer de fome vimo-nos obrigados a roer o coiro que forrava a verga grande e que impedia que a madeira desgastasse os cabos; era, porém tão duro o coiro, exposto a agua, ao sol e aos ventos, que precisava estar de molho no mar quatro e cinco dias, para ficar um pouco mais macio, pondo-o depois ao lume, e assim o comiamos. Muitas vezes vimo-nos na necessidade de comermos serradura de madeira; e os ratos, tão repugnantes{99} ao homem, chegavam a ser o alimento mais apetitoso, pagando-se até por meio ducado cada um.»

«Mas ainda não era tudo. Maior desgraça nos veio atacar, a de uma enfermidade que consistia em nos inchar as gengivas cobrindo completamente os dentes de ambas as mandibulas, a ponto de que os atacados d'aquella doença não podiam tomar nenhum alimento[[7]]. Além dos mortos, cahiram doentes vinte e cinco a trinta marinheiros, com dores nos braços, nas pernas e por outras partes do corpo, mas que emfim se curaram.

«Pela minha parte não sei dar bastantes graças a Deus, por durante este tempo e entre tantos doentes não ter tido a menor doença.»

Não bastavam, porém, tantas provações aos ousados navegadores, porque, quando pensavam encontrar os viveres e refrescos de que tanto careciam, vendo aproximarem-se de umas ilhas, em volta das quaes navegava grande quantidade de barquinhos tripulados, depararam com bandos de selvagens, que assaltando os navios, pretendiam roubar quanto podessem. Foi necessario repellil-os á viva força e disparar sobre os barcos tiros de artilheria. Só depois d'esta recepção{100} é que os navegantes poderam entrar com elles em commercio, trocando bagatellas que levavam por alguns poucos viveres.

Depressa largou a frota d'aquellas ilhas e Magalhães as denominou ilhas dos Ladrões, com que ainda são conhecidas, chamando-se-lhe tambem ilhas Mariannas em razão das missões que n'ellas estabeleceu a rainha D. Maria Anna de Austria, mãe de Carlos II.

D'estas missões trata largamente o padre Gobien na sua Histoire des Mariannes, impressa em Paris em 1701.{101}

[[6]] Alguns escriptores tem dito que este nome foi posto pelo proprio Magalhães e ainda Buzeta e Bravo assim o dizem no Diccionario Geographico Historico de las Islas Filipinas, é, porém, fóra de duvida, que o estreito foi primeiro denominado de Todos os Santos, como vem na relação de Pigafetta e no Diario de Albo.

Nas cartas geographicas e livros de geographia da segunda metade do seculo XVI já o estreito vem indicado com o nome do seu descobridor, e apenas consta de um aucto lavrado por Pedro Sarmento de Gamboa, quando atravessou o estreito em perseguição do Corsario inglez Drack, elle denominou o estreito Mãe de Deus em razão dos grandes perigos que passou para o atravessar, e de que felizmente sahiu a salvo, pedindo a Filippe II de Castella que lhe conservasse aquelle nome em homenagem á Virgem que tão milagrosamente lhe acudira. Apesar d'isto Filippe II conservou ao estreito o nome do teu descobridor.

[[7]] Esta doença é o escorbuto.