XVI

Havia mais de tres mezes que Magalhães tinha atravessado o estreito com a sua frota e não podera até ali reconhecer as ilhas que encontrara.

Chegou o dia 16 de março de 1521, que era domingo de Lazaro, e com elle o descobrimento de um novo archipelago, que Magalhães denominou S. Lazaro, em razão do dia em que o descobrira.

A primeira ilha d'este archipelago era a ilha Zamal, assim denominada pelos naturaes e que tambem se encontra nos mappas com o nome de Samar, e ainda no Diario de Albo com o nome de Suluan e Yunagan, como as primeiras ilhas reconhecidas pelos castelhanos.

Foi n'este archipelago que Magalhães desembarcou com parte da sua gente, armando{102} duas tendas para os doentes, e descansando alguns dias em terra, da penosa e longa viagem que todos traziam.

A ilha escolhida foi a Humunu a que os navegadores chamaram Aguada dos Bons Indios, por terem ali feito aguada e por seus habitantes serem doceis, quasi timoratos, pelo menos em presença dos visitantes. Com elles trocaram das bagatellas que levavam por viveres de que careciam.

Boa gente eram os indigenas d'esta ilha onde os navegantes poderam descansar alguns dias; depois do que proseguiram viagem, avistando a 27 de março outras ilhas para O. e S. O. as quaes verificaram serem tambem habitadas.

As novas ilhas denominavam-se Masavá ou Masaguá, Butuan e Calagan, comprehendidas no archipelago que Magalhães denominou de S. Lazaro e a que depois se chamaram Filippinas em homenagem ao filho de Carlos V[[8]].

Não foi difficil aos navegantes entrarem em boas relações com os habitantes d'estas ilhas, os quaes vieram em barcos ao encontro{103}
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{105} da frota e falaram com Magalhães por meio de um interprete, que os hespanhoes levavam e que falava o malayo.

Um balangai das ilhas de S. Lazaro ou Filippinas

Tão bem se entenderam, que o rei da ilha de Masavá veio a bordo fazer os seus comprimentos a Magalhães, trazendo-lhe presentes, que este não quiz acceitar, na primeira entrevista, para mostrar que não o movia a cobiça, e antes presenteou o rei com mercadorias que levava.

O rei de Masavá mostrou-se muito reconhecido a Magalhães e tanto que, pedindo este para com elle trocar viveres por fazendas, o rei lhe mandou arroz e do mais que tinha recebendo tecidos de côres, que muito lhe agradaram.

Na visita que o rei fez a bordo, Magalhães mostrou-lhe as armaduras d'aço dos seus soldados, que os tornava invulneraveis aos golpes ou aos tiros das armas de fogo; fez exposição das armas que levava, mandou disparar a artilheria, o que tudo causou espanto ao rei indigena.

Isto deu motivo ao rei de Masavá para se considerar honrado com a amizade d'aquelles extrangeiros subditos de um rei christão poderoso, e por isso dispensou-lhe toda a boa hospitalidade de que dispunha, n'uma terra semi-selvagem.

A convite do rei, foi a terra Pigaffeta e{106} outro companheiro para conhecerem do paiz em que estavam.

Conta Pigaffeta que, quando desembarcou, o rei levantou as mãos ao ceu, e se virou para os visitantes que fizeram outro tanto.

Era isto signal de boa paz e de que tinham os extrangeiros como enviados de Deus. Depois dirigiram-se para um alpendre feito de cannas, debaixo do qual estava um balangai, embarcação de uns cincoenta pés de comprido, e se sentaram á poupa com o rei. Ali foi servida carne de porco e vinho e só Pigaffeta é que se atrevia a tocar na escodella do rei quando bebia. Os da comitiva do rei estavam de pé e armados de lanças e escudos.

Apezar da falta de um interprete da lingua, intenderam-se por signaes e assim foi Pigaffeta tomando nota da significação de muitas palavras escrevendo-as no seu caderno, admirando-se todos muito de o verem escrever!

Ao fim do dia tornaram a comer carne de porco guisada e arroz, servido em grandes pratos de porcellana, beberam mais vinho por escudellas e quando acabou esta refeição, foram para o palacio do rei, que era em forma de uma grande meda de feno, coberto de folhas de platano, e subiram para os{107} aposentos reaes por uma escada de mão.

Meia hora depois de ali estarem foi servida nova refeição de peixe assado, gengibre e vinho. N'essa occasião viu Pigaffeta o filho mais velho do rei que veiu sentar-se ao seu lado.

Esta refeição durou mais algum tempo, sendo servido mais peixe e arroz, e o companheiro de Pigaffeta bebeu tanto vinho que se embriagou.

Foi um verdadeiro dia de festa depois de tantos mezes de privações.

N'aquella noite Pigaffeta e o seu companheiro dormiram no palacio do rei ao lado do principe herdeiro, todos deitados em esteiras de cannas tendo por cabeceira almofadas de folhas d'arvores.

Era o mais a que chegavam as commodidades da vida d'aquelle povo, apesar de no paiz abundar o ouro, que facilmente se encontrava misturado com a terra, em pedaços do tamanho de nozes e de ovos.

No palacio do rei havia jarros e muitos outros objectos fabricados d'aquelle metal. O rei trazia brincos de ouro nas orelhas e os copos da sua espada tambem eram do precioso metal.

No dia seguinte o rei convidou Pigaffeta e o seu companheiro para almoçarem, mas os dois retiraram para bordo, agradecendo{108} a boa hospitalidade, beijando n'essa occasião o rei as mãos dos visitantes ao que estes corresponderam beijando as mãos do rei.

Assim entabolaram os navegantes relações com a gente da ilha de Masavá que tão bem os recebeu, que a frota ali se demorou até 4 de abril, em que de novo se fez ao mar no proseguimento da sua derrota.

Durante o tempo, porem, que ali permaneceu passou o domingo de Paschoa e n'esse dia desembarcaram uns cincoenta homens meios armados com o respectivo commandante, e um padre para dizer missa em terra, n'um altar que se armou.

Foi grande a admiração d'aquellas gentes quando isto viram e perguntados se não professavam nenhuma religião, responderam erguendo as mãos para o ceu, como que dando a entender que reconheciam um ente supremo a que chamavam Abba.

Assistiram os reis á missa e, ao offertorio beijaram a cruz e adoraram a hostia consagrada, imitando tudo que viam fazer aos christãos.

Quando terminou a ceremonia Magalhães apresentou uma cruz grande, diante da qual todos se ajoelharam incluindo os indios, e fez entender ao regulo que aquella cruz era o estandarte que o rei christão lhe havia confiado para implantar em toda a parte que{109} chegasse; que n'aquella terra a ia collocar no sitio mais elevado para que todo o mundo a visse e a todos desse signal de ali terem sido bem recebidos pelos naturaes, o que faria que outros que aportassem aquella ilha os tratassem bem. Que os seus habitantes deviam, todas as manhãs fazer adoração aquella cruz, por que ella era o symbolo da redempção.

O rei prometteu a Magalhães fazer o que este lhe dizia e ordenar aos indios que assim o observassem.

A docilidade d'aquella boa gente deixou captivados os navegantes e fortaleceu-lhes o animo para seguirem na sua empreza civilisadora, não concorrendo menos para augmentar a auctoridade moral de Magalhães sobre a sua gente.{110}
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[[8]] Alguns escriptores, mesmo os hespanhoes tem confundido estas ilhas do archipelago de S. Lazaro com as ilhas dos Ladrões, que já citámos.

A obra de Mallot Les Philippines, publicada em Paris em 1846 não deixa duvidas a este respeito.