XVII

É d'aqui em diante que se vai passar a tragedia mais horrivel, que enlutou a temeraria empreza de Magalhães.

A 4 de abril de 1521 largou a frota do archipelago de S. Lazaro, depois denominado das Filippinas, como já ficou dito, e dirigiu o rumo para a ilha de Zebú, que o regulo de Masavá lhe indicara como um dos portos mais importantes e mais proximos, para entrar em commercio.

Effectivamente, decorridos tres dias de viagem, avistaram uma ilha, e aproximando-se d'ella viram que era muito povoada de casas construidas sobre arvores collossaes.

Era a ilha de Zebú.

Magalhães entrou em commercio com o rei d'aquella ilha, não sem alguma difficuldade,{112} pois que o regulo queria que os hespanhoes lhe pagassem egual tributo ao que era imposto ás embarcações das ilhas visinhas que vinham áquelle porto.

Custou a convencer o rei de que os hespanhoes não lhe pagariam tal tributo e, antes pelo contrario o exigiriam para si e lhe fariam guerra, se o rei presestisse n'essa imposição.

Trocadas explicações de parte a parte, o rei de Zebú reconheceu a inconveniencia e entrou em boa amizade com Magalhães, annuindo a dar privilegio aos hespanhoes para estabelecerem commercio na ilha, unica exigencia que faziam e direito que se reservavam.

Foram, porem, mais longe as boas relações que entabolaram com aquella gente. O rei de Zebú manifestou desejo de ser christão, depois de ouvir as façanhas praticadas por portuguezes e hespanhoes, animados da grande força moral que a religião do crucificado dava aos que observavam a sua lei.

O baptismo do rei de Zebú celebrou-se com grande aparato, e não só este rei mas muitos outros regulos ou senhores d'aquella ilha, rainhas e boa parte da população receberam a agua do baptismo.

Não se poderá affirmar que a convicção ou a fé os movesse a tão facilmente abraçarem{113} a religião de Jesus Christo, porque de certo o espirito d'aquella gente não poderia estar preparado para comprehender toda a sublimidade do christianismo; mas sim os attrahiu a curiosidade e ainda mais a idéa de que o baptismo lhes daria mais coragem e valor para vencerem seus inimigos nas guerras que traziam com os povos vizinhos.

Sim, isto sobretudo é que os devia ter attrahido.

Viam alli gente christã que os deslumbrava com o seu poder, que elles consideravam como sobrenatural, quando a artilharia disparava tiros retumbantes, e a mosquetaria fuzilava lume pelo ar; e sem poderem ainda apreciar a grande vantagem das armaduras, contra as quaes se embotariam as suas agudas settas, pois não haviam entrado em lucta, o fogo das armas lhes bastava para os maravilhar, apesar dos christãos só terem dado descargas de polvora secca.

Dominados aquelles indigenas pelo prestigio dos christãos, foi relativamente facil a Magalhães obter d'elles quanto queria; e assim o rei de Zebú jurou solemnemente fidelidade a Carlos V, e com elle todos os senhores da ilha submissão ao imperador das Hespanhas.

Não, obstante o reconhecimento da auctoridade de Carlos V e da submissão dos habitantes{114} da ilha de Zebú, o senhor ou rei de outra ilha proxima não approvou o procedimento dos seus vizinhos, e por isso, quando alli foram os hespanhoes, para entabolar relações, o rei negou-lhes obediencia.

Isto deu logar a uma demonstração de força dos hespanhoes, que incendiaram uma aldeia da ilha, retirando-se depois nas chalupas.

O regulo que não quizera reconhecer a auctoridade dos extrangeiros, chamava-se Silapulapú; mas outro regulo da mesma ilha, chamado Lula, mostrou-se mais docil, e tanto, que prometteu a Magalhães o mandar-lhe presentes em troca dos que d'elle recebera.

Este Lula, consciente ou inconscientemente, foi a causa da desgraça do grande navegador. Elle incitou, por assim dizer, Magalhães a fazer a guerra a Silapulapú, e se o fez de boa fé, ou de plano concertado, para dar ruina aos christãos, é o que a historia não diz, mas se poderá inferir pelo modo como Lula procedeu.

Na manhã de 26 de abril de 1521, enviou Lula um seu filho a Magalhães com duas cabras, dizendo-lhe que, se não mandava mais presentes, não era por sua culpa, mas porque Silapulapú a isso se havia opposto, persistindo em não reconhecer a auctoridade dos hespanhoes. Dizia mais o Lula{115} que, se Magalhães lhe mandasse alguns dos seus homens de guerra, elle promettia, com a sua gente, reduzir á obediencia o Silapulapú.

Esta simples mensagem de Lula foi para Magalhães como que um repto á sua coragem e valentia.

Não se diria nunca que Fernão de Magalhães hesitava um momento quando lhe reclamavam o esforço do seu braço, a bravura do seu animo. Elle, soldado ousado, que havia ferido guerras em Africa, e que ha tanto tempo conservava a espada na bainha, sem ter ensejo de retemperar o aço da sua lamina, rechassando o inimigo; elle, a quem a aventura attrahia e povoava a sua imaginação das mais seductoras façanhas, encontrava alfim novo ensejo para experimentar se o seu braço ainda era o mesmo e se a boa estrella, que tinha guiado sempre as suas armas, mais uma vez o conduziria á victoria.

As circunstancias, porém, não se apresentavam muito favoraveis, e d'isso o quiz convencer João Serrão, homem experiente, que não se deixava fascinar pela gloria, mais que duvidosa, da temeridade d'aquelle feito.

Era preciso attender a que a gente de Magalhães estava consideravelmente reduzida: uns, tinha-os a morte levado; outros, as doenças e trabalhos da viagem os haviam{116} impossibilitado. Os válidos eram poucos, e esses mesmos meio depauperados.

Tudo isto ponderou Serrão a Magalhães. O rei de Zebú tambem se mostrou contrario á resolução do grande capitão, apesar de não poder calcular toda a força e valentia de que os christãos poderiam dispôr, na conta em que os tinha de homens extraordinarios, por assim dizer, sobrenaturaes. Entretanto sabia que o inimigo era assaz numeroso, e pelo sentimento nato de que, contra a força não ha resistencia, elle pensava, a despeito de todas as maravilhas creadas no seu espirito, quanto era arriscada e talvez fatal para os hespanhoes a lucta que ia travar-se.

Magalhães não attendeu as razões nem os conselhos dos seus e do rei de Zebú. Costumado a mandar e a ser obedecido, tanto mais depois de ter subjugado os proprios elementos para chegar ao termo da sua empresa, nenhumas forças seriam capazes de o demover da resolução que tomára, de submetter pelas armas os habitantes da ilha de Mactan que se negavam a prestar obediencia.

O numero dos seus soldados pouco lhe importava, como pouco lhe importava se o inimigo era assás numeroso. Estava elle com o seu braço e com a sua espada costumada á guerra contra infieis. Vencera em Africa{117} muitas vezes contra milhares de indigenas, e de que façanhas se poderia orgulhar se assim não fôra!

A sua espada e a sua fé valiam por um exercito; sob o seu commando e ao seu lado cada soldado valia por mil. Eram assim as guerras d'aquelle tempo contra os povos d'alem mar, como o tinham sido na peninsula contra os mouros; a cruz levava de vencida o crescente por toda a parte; porque não havia de triumphar tambem alli?!

Para quem com tanta firmeza e sacrificio tinha desvendado os mares procellosos, para dar a volta ao mundo, luctando tenazmente pela sua idéa, tantas vezes contrariada pelos elementos e pelos homens, que valia agora a resistencia de uns selvagens?

Muito maiores obstaculos tinha elle destruido no seu caminho, sobrando-lhe sempre animo para proseguir avante, e não podia comprehender que homens como aquelles que o acompanhavam na temeraria empresa que se propôs, que com elle tinham compartilhado dos perigos para alli chegarem, se arreceassem agora de entrar em guerra com um bando de selvagens, e medissem primeiro cautelosamente as forças para se lançarem na lucta, quando nem sabiam ao certo o numero dos inimigos nem as armas de que elles dispunham.{118}

O rei de Zebú era suspeito para informar da quantidade e qualidade do inimigo. Quem podia affirmar o contrario?

O triumpho das armas christãs importaria a submissão completa e incondicional de todos aquelles povos, e o grande capitão não só teria coroado a sua empresa de encontrar o mar do sul, mas traria á Hespanha tributarios os povos d'aquellas regiões, fascinados e submettidos pelo prestigio das suas armas.

Era de tentar a cartada! Quem lhe poderia resistir?!{119}