SCENA I

PANTALEÃO E MACARIO

Pantaleão

Como eu lhe vinha contando, amigo e snr. Macario Mendes, minha filha, desde que começou a vestir-se á moda, e a tocar piano, está muito distrahida do troca-tintas do escrivão. Não anda por janellas, não sáe de casa, e gasta alegremente o seu tempo a tocar, a cantar e a vestir-se. Isto custa-me um dinheiro callado; mas dou-o por bem empregado.{100}

Macario

E quem é que ensina a snr.ª morgadinha a tocar?

Pantaleão

É a mulher d'um sujeito que se estabeleceu ha pouco em Santo Thirso com loja de fazendas brancas...

Macario

Bem sei, bem sei.

Pantaleão

Foram lá as primas de Ruivães que fizeram a descoberta; mas o que tem muita graça é que o homem da mestra é tão ciumento que só a deixa ir a casas onde não ha homens...

Macario

Que tal pezêta é ella!..{101}

Pantaleão

E para vir aqui, pôz por condição que a mulher só viria á noitinha acompanhada pelo marido que a deixa á porta, e vem por ella duas horas depois. Eu estive quasi a não aceitar tal professora por saber que o escrivão de fazenda estava muitas vezes na loja do marido; e receei que ella fosse medianeira d'alguma carta...

Macario

E tem rasão, snr. morgado... Veja lá!.. olhe que o mundo é um covil de marotos!

Pantaleão

Não ha receio; que eu tratei de me informar, e soube que o logista pôz fóra da loja o velhaco do Frederico, por desconfiar que elle lhe trazia d'ôlho a consorte.

Macario

Não que sem licença d'elle não ha maior{102} desmoralisação n'este mundo! Aquillo tem mesmo idêas de Sardanapalo! Ainda bem que lhe está por um fio a ladroeira da repartição...

Pantaleão

Conte lá isso então. Em que termos está a bernarda? Rebenta hoje ou ámanhã?

Macario

Hoje. Está tudo alevantado quando fôr nove horas. Os sinos hão-de tocar a rebate nas quatro freguezias mais chegadas, e o povo cáe todo sobre Santo Thyrso, e faz cêrco para que o escrivão não possa escapulir-se; que elle é leve como uma penna, e quando a gente mal se precatar, vê-o fazer vispre, zêpe-zêpe (expressão sibilante para imitar a rapidez da corrida.)

Pantaleão

Se elle fugir, amigo Macario, deixal-o ir. Nada de o agarrar, que não vão os meus creados escadeiral-o e eu ter de o pagar por bom. O que{103} eu desejo é que elle não appareça mais em Santo Thirso. Lá a respeito da papellada isso é queimal-a toda; que depois o governo como não tem cadernos para a cobrança dos impostos, não o manda para cá a elle nem a outro.

Macario

Grande idêa é essa, snr. morgado! E o governo faz uma economia bem boa. Se a gente fosse dando cabo dos empregados, ajudava o governo a fazer economias, porque depois não havia quem quizesse servir os empregos. O sytema é um bocado violento para os empregados, mas eu não vejo outro meio de os ir acabando...

Pantaleão

Não acho isso humanitario!

Macario

Meu caro amigo e snr. morgado, eu sou homem politico ha trinta annos, leio jornaes, e tenho feito muita somma de deputados; conheço{104} por dentro e por fóra o paiz e as suas necessidades. Fique certo d'isto; em quanto se não der fim a uma casa a que os jornaes chamam burrocracia, não se indireita a patria.

Pantaleão

Como se chama isso?

Macario

Burrocracia, que pelos modos é palavra de idioma francez, que vem a dizer empregado publico.

Pantaleão

Snr. Macario, vá indo cá com as minhas idêas moderadas. O melhor systema de se acabar com os escrivães de fazenda é queimar os cartorios. Eu lhe ponho uma comparação. Se eu queimar a palha que tenho, e não comprar outra, que me acontece á minha parelha de machos? Morrem de fome, não é verdade?{105}

Macario

Isso é.

Pantaleão

Pois ahi tem: os escrivães, em se lhe queimando os papeis, não tem que roer.

Macario (duvidoso)

Nada; a comparação dos machos não me convence, queira V. Ex.ª perdoar. (Com energia) Matal-os, matal-os, é o grande desideratum.

Pantaleão

E os papeis? deixam-se ficar?

Macario

Os papeis queimam-se, queimam-se as casas, queimam-se os escrivães! Nada de cataplasmas emolientes; o paiz o que precisa é causticos e ventosas.{106}

Pantaleão

Ora vocemecê, snr. Macario Mendes, sabe que no cartorio do tal pulha está o processo da execução que a fazenda nacional me move...

Macario

Por seis contos d'uma fiança dos bens dos frades, sei muito bem... Esteja descançado, que não ha de lá ficar papel em que se amortalhe um cigarro.

Pantaleão

Quem é o chefe da revolução?

Macario

Á falta d'homens por hora sou eu; mas não sei a que os commandantes das freguezias decidirão. Já ouvi rosnar que elles querem acclamar V. Ex.ª general em chefe.{107}

Pantaleão

Homem, tire isso da cabeça ás freguezias. Vocemecê bem sabe que eu ando muito adoentado dos intestinos, e não posso deixar de tomar o meu banho de canôa á noute. Dinheiro, sendo preciso, algum darei para a revolução; mas entrar nella em pessoa não posso por causa d'esta molestia dos reins que me não deixa cavalgar; e vocemecê bem entende que um general em chefe a pé não tem geito, nem pode vêr de longe o inimigo, se nos fôr necessario entrar em batalha com o exercito. Dispensem-me por tanto de tamanha honra.

Macario

Farei as diligencias; mas receio que...{108}