SCENA II

OS MESMOS E A MORGADINHA

(A morgadinha traja na ultima moda, mas exageradamente. Vestido muito curto, sem alguma roda, apanhando-se-lhe cingido ás pernas; grande laço na cintura posteriormente; sapatos de salto dourado; cabelleira com estupendos tufos encaracolados.)

Pantaleão

Vens para o piano, Joanninha?

Morgadinha (pondo luneta d'oiro)

Sim, papá, vou estudar a minha lição de escala. (Senta-se ao piano.)

Macario (á parte, benzendo-se espantado do trajar da morgada)

Que desmoralisação! Isto é o peccado em carne e ôsso!{109}

Pantaleão

Está vocemecê admirado d'estas modas, amigo Macario!

Macario (ironico)

São bonitas... (Grave) Mas não acho isto decente para a observancia dos bons costumes.

Morgadinha

Que quer? é moda; andam assim todas as senhoras do tom.

Macario

Do tom? Sem tom nem som. As minhas filhas assim não hão de vestir, se Deus quizer.

Morgadinha (voltando o rosto com aborrecimento)

Então as suas filhas são senhoras?{110}

Macario

D'aquella massa se fazem, snr.ª morgada...

Morgadinha (dedilha nervosamente nas teclas)

Adeus, adeus. Temos historia!

Pantaleão (a meia voz)

Não a zangue... Deixe-a lá... Tomára eu que ella se entretivesse com os vestidos...

Macario

A cabeça... está feito, mas as pernas a vêr-se-lhe, snr.ª morgada! Assim não se podem observar os bons costumes... (A Morgadinha canta acompanhando a escala, e desafina quando guincha as notas das oitavas altas. Macario Mendes, offendido pela desharmonia, faz caretas.)

Pantaleão

Ainda não sabes cantar modinha nenhuma, menina?{111}

Morgadinha

A mestra não quer que eu cante modinhas; aprendo a escala que é o essencial. (Repete a escala, e quando principia a desafinar, Macario despede-se, apertando a mão a Pantaleão.)

Pantaleão

Veja lá os meus papeis, snr. Macario.