SCENA III
PANTALEÃO E OS DOIS CREADOS (QUE POUSAM AS VASILHAS)
Pantaleão
Ora venham cá vossês, tomem tino no que eu vou dizer, e abram-me esses olhos. Vossês tem obrigação de zelar a honra d'esta casa, por que nasceram n'ella, cá se crearam, e cá hãode morrer, se me servirem bem. Aquillo que souberem a respeito do que vou perguntar hão de dizer-m'o. Aqui quem governa sou eu, percebem? Vossês tem visto de noite alguma vez por debaixo das janellas d'esta casa o escrivão de fazenda? um homem muito magro que cá vinha d'antes?{20}
1.º Creado
Bem sei quem é o escribon das fazendas de Santo Thyrso... Olhe, fedalgo, eu jurar non juro que era elle; mas aqui atraz ha trez noutes, vinha eu de regar a cortinha das Chans, e ao sahir da carvalheira, rebentando sobre a direita, vi uma coisa a escoar-se por entre os carvalhos que parecia um abentesma...
2.º Creado
Eu tambem já bi esse abentesma, salbo seja, ahi ós pois da mêa noute; mas aquillo, meu amo, non podia ser o escribon das fazendas por que Vossenhoria faça de conta que elle por este caminho alem lebaba-se assim têzo e hirtego que não bolia c'os pezes. Havéra de ser o mesmo que tu enxergaste, Antonho!
Pantaleão
Pois creiam vossês que não era outro senão o escrivão de fazenda. N'estes arredores não ha homem d'aquelle feitio senão elle... Sabem{21} o que eu quero, rapazes? é que lhe dêem uma boa sova de estadulho.
1.º Creado
Só se for a tiro; que non ha home que o pilhe na carreira.
2.º Creado
E p'ra lh'acertar c'uma bala faz minga saber atirar ás lebres. (Ouvem-se risadas de mulheres já perto.)
Pantaleão
Por ora, nada de tiros; o que mando é que lhe arrumem quatro bordoadas, sem lhe dizer isto nem aquillo. Vossês zupem-lhe e escamem-se, que eu com a justiça não quero testilhas; mas não lhe batam, sem o apanharem cá á volta da casa... Vamos conversar aqui p'ra carvalheira que vem ahi as raparigas da freguezia. (Sáem pela esquerda.){22}