SCENA VI

FREDERICO, MORGADINHA E JOÃO LOPES A INTERVALOS

Frederico

Salvei-te ou não? Tu salvaste-me com a força, na romaria; e eu aqui, salvei-te com o genio! Vês como o amor me deu espirito n'um trance difficil? Fazes maravilhas de perspicacia e finura, tu, com a magia dos teus olhos, ó formosa! (Ouve-se toque a rebate de sinos, que sôa de diversas longitudes. Rumôr longiquo de vozes.){121}

Morgadinha

Que será isto!? Ó João Lopes!

João Lopes (dentro)

Que quer, snr.ª morgadinha?

Morgadinha

Sabes a que tocam os sinos? é fogo?

João Lopes (dentro)

Fogo não me parece. Acho que é bernarda. Estou cá á janella a vêr se entendo a gritaria.

Morgadinha

Diz que é bernarda...

Frederico (alvoroçado)

Horrivel! oh! horrivel! Isso bole sériamente{122} comigo, comtigo, comnosco, com o nosso futuro, Joanna!

João Lopes (dentro)

É revolução.

Morgadinha

Revolução!

Frederico

Não ouves a fatalidade que esbraveja? Terei eu de perder-te, archanjo?

Morgadinha

Qual perder-me! Importa-me cá a mim a bernarda! Hei de ser tua! Não temas, Frederico, que eu sou forte!..

João Lopes (na scena)

Já intendi o que elles dizem... Dão morras{123} aos papeis, e que se queime o escrivão da fazenda... E trazem musica... Ouvem?... (Ouve-se distinctamente, mas ainda longe, o hymno da «Maria da Fonte», á mistura com os «môrra!»)

João Lopes

O snr. morgado está na torre a ouvir. Agora bom será que o snr. Frederico se escape, senão desconfio que o matem, sendo aqui pilhado... (Frederico apanha as saias na cintura para poder fugir. A Morgadinha agarra-o.)

Morgadinha

Não te deixo sahir agora, que é perigoso.

Frederico (muito inquieto)

Morrer aqui, seria uma morte ingloria, Joanninha! Dá-me armas que eu quero defender-me com uma bravura digna de ti! Armas! armas! um revolver de doze tiros! Quero armar-me até aos dentes, e combater, e morrer gloriosamente ao teu lado!{124}

Morgadinha

Frederico, tu estás maluco!.. Olha que elles não vem cá... Não percas o juizo!

Frederico (muito á tragica, alludindo ao estrondo da gritaria)

Não vem? Vem! Escuta! escuta! Não ouves o bramido do tigre popular? Olha... é o leão que ruge, partidos os grilhões de respeito á lei! É a Libia e a Hircania a vomitarem féras! Olha o lago sujo como se levanta em vagalhões e como elles roncam!

Morgadinha

Vem então esconder-te, vem esconder-te!

Frederico

Não! Um homem não se esconde quando olhos como os teus são testemunhas de tamanha covardia! É mister ser heroe!.. Mas eu estou vestido ignobilmente! (Arranca os vestidos mulheris:{125} fica de quinzena; mas conserva o chapéo e os boucles) Agora, armas! armas! (A morgada ri-se apontando-lhe para a cabeça.) Por que ris tu, mulher forte! porque ris tu, se fazes favor?!

Morgadinha

Tira a cartola e os cachos, meu amor.

Vozes (que sobrelevam o estrondo dos figles)

Morra o escrivão de fazenda! morra! (Grande catharro de João Lopes.)

Frederico

É chegada a hora! Dá-me um abraço, querida! Um abraço! e até ao reino eterno! As nossas nupcias são no céo!.. (Aponta para o tecto e fica como extactico; em quanto a Morgadinha vae rapidamente dentro, e sáe com dous bacamartes de bocca de sino.){126}

Morgadinha

Aqui tens um bacamarte; defende-te, que eu te defenderei tambem! (Ella aperra o bacamarte.)