SCENA VII

OS MESMOS, PANTALEÃO E JOÃO LOPES

Pantaleão (estupefacto)

Que vejo? que é isto? como entrou este homem aqui?

Frederico (atirando ao chão o bacamarte)

Venho offerecer-me á vingança de V. Ex.ª

Morgadinha

Meu papá, o snr. Frederico vem pedir-lhe a minha mão de esposa!{127}

Pantaleão

Das duas uma: ou o senhor foge, ou é espatifado pelo povo!

Frederico

Não sei fugir: sei morrer.

Pantaleão

Mas vá morrer a casa do diabo; não quero que o matem aqui.

João Lopes

V. Ex.ª tem rasão; matal-o aqui é máo: o melhor é eu ir escondêl-o no meu quarto; por que, se o povo o achasse aqui a estas horas, os creditos da menina não ficavam com muita saude.

Pantaleão

Pois vae escondêl-o... some-o no inferno!{128}

Morgadinha

Meu pae, se Frederico fugir, fujo eu; se elle morrer, morre sua filha, sua filha unica, a sua Joanninha, a luz dos seus olhos! Meu papá (ajoelha-lhe) eu já não posso deixar de ser esposa de Frederico, e juro que sou d'elle na vida e na morte! (Ergue-se: conduz Frederico pela mão, e ajoelha com elle) Dê-nos a sua benção, querido papá!

Pantaleão

Nunca! nunca! (Ouvem-se fora as acclamações.)

Morgadinha (erguendo-se soberba)

Então, não tenho pae! tenho só marido! Se o povo o matar, ha de vêr morrer-me ao pé d'elle... mas vingada!.. (Lança mão do bacamarte) Que entre o povo!{129}

Pantaleão

Em que apertos me vejo! Rebenta-me o coração!..

João Lopes (muito commovido)

Snr. morgado!.. Olhe que perdemos a nosa menina!..

Pantaleão (a Frederico)

Esconda-se n'aquelle quarto, homem... Depressa.

Frederico

Obedeço, por que m'o ordena o pae d'este anjo. (Sáe com João Lopes.){130}