SCENA X

JOSÉ PIMENTA E GUTERRES

Pimenta (rebuçado)

Boas noutes.

Guterres (suspendendo-se)

Boas noutes.

Pimenta

Quem é o senhor?

Guterres

Não respondo a encapotados de melodrama. Destape-se.

Pimenta (deixa cair as bandas do capote)

Eis-me.{169}

Guterres

Eis-me o que? Cada vez o conheço menos.

Pimenta

O senhor fallava agora aqui em filha d'Aniceto. Que ha de commum entre o senhor e a filha de Aniceto?

Guterres

De commum de dois? temos questão grammatical ou phisiologica?

Pimenta

Que tem o senhor que ver com ella?

Guterres

Que tenho que ver com ella? Ha muita cousa que ver: por exemplo, Barcellos, o rei dos tambores, V. S.ª etc. Falta elle que ver...{170}

Pimenta

O senhor sabe que da zombaria ao rewolver não ha mais que um passo?

Guterres (sorrindo)

O senhor figura-se-me um patusco bastante tragico. Um tyranno em Barcellos não póde ser melhor nem peor que a sua pessoa. Como se chama, posso saber?

Pimenta

Sou José Pimenta.

Guterres

Pimenta? por isso o senhor é tão cálido!... Eu sou de apellido Mira-mar. Tenho uma alma larga e fresca como o oceano. Saibamos: o senhor namora a filha d'este Aniceto? Falle franco, que tem em mim um coração de poeta e um respeitador dos direitos adquiridos. Ama a tal pequena?{171}

Pimenta

Amo.

Guterres

Tambem eu.

Pimenta

Tambem o senhor?

Guterres

Tambem eu; mas ha uma differença entre nós, e vem a ser que ella a mim não me conhece, e provavelmente ao senhor ama-o.

Pimenta

Tenho provas d'isso.

Guterres

Tem? (Solemne) O senhor sabe que esmagou{172} n'este momento um dos mais romanticos corações que batem em peito de homem? Sabe que espezinhou as florinhas d'um amor nascente que burbulhavam na charneca d'esta alma? (concentra-se) Coragem! Deixe-me saborear voluptuosamente o meu fel. E então o senhor vem aqui fallar-lhe? Sabe que ella está...

Pimenta (apontando para o quarto de Aniceto)

Sei que está alli no N.º 10, que m'o disse o creado da hospedaria.

Guterres (apontando)

Alli?

Pimenta

Alli sim. O senhor tambem o deve saber. Espere... (reparando na vidraça sobranceira á porta.) Vejo um vulto de cara por detraz d'aquelles vidros.. O senhor não vê?{173}

Guterres

Sim, eu vejo lá o que quer que seja.

Pimenta

É ella que me conheceu a voz. Quer outra prova?

Guterres

Não senhor, estou satisfeito. Aquella mulher é sua. Sou magnanimo até aqui!

Pimenta

Se me fosse possivel subir á altura da vidraça! Alli está uma mêza. O senhor guarda segredo? Não revella este arrojo d'um amante apaixonado?

Guterres

O senhor chama a isso arrojo? Arrojo seria o snr. Pimenta quebrar os caixilhos das vidraças{174} e passar-se lá p'ra dentro. Póde fazêl-o que eu não digo nada.

Pimenta (attento nos vidros)

É ella. É o anjo! Lá está o rosto amado!

Guterres

Vá, não perca tempo. Dê-lhe um beijo envidraçado. (Pimenta aproxima uma banca da porta; sobe, e, ao chegar a cara aos vidros, Aniceto parte a vidraça com um murro, e põe fóra a cabeça.)

Aniceto

Ah cão!

Pimenta (saltando)

Traição! traição! (Ouve-se o rodar da chave. Pimenta foge.){175}