SCENA XII

ANICETO E GUTERRES

(O palco escuro)

Aniceto (correndo para Guterres)

Ainda aqui estás, ladrão!

Guterres (accendendo um phosphoro)

Olhe que está enganado, snr. Aniceto. Suspenda-se. Veja que eu sou o funccionario da Povoa, Guterres Arthur. (Continúa a accender phosphoros.)

Aniceto

Mas eu vi a cara do meu algoz atraz d'aquella vidraça. Onde está o scelerado, o canalha do flautista?

Guterres

Elle toca flauta? São fataes os flautistas...{176}

Aniceto

Transtornou a cabeça de minha filha o infame... Onde está elle?

Guterres

Safou-se. Os phosphoros acabam-se. Eu vou buscar uma vela ao meu quarto. (Engana-se, e vae querer abrir o quarto de uma das fidalgas, que exclama de dentro.)

Voz de velha

Quem está ahi?

Guterres

Enganei-me.

Voz

Um homem! que desafôro! um homem!{177}

Guterres

Perdão, minha senhora; não grite tanto. V. Ex.ª parece-me bastante velha pelo metal de voz, e não deve recear-se de homens.

Voz

Que escandalo! um homem! a empurrar a porta do quarto de uma senhora...

Guterres

Não se assuste. V. Ex.ª em guerra de paixões é paiz neutro. Esteja socegada. Durma. (Engana-se novamente com a porta d'outra fidalga.)

Voz

Quem bate? quem anda aqui, mana?

Guterres

Cá está outra inviolavel. Não é nada, minha senhora. A mana não teve perigo.{178}

Aniceto (sahindo com uma luz do seu quarto)

Aqui está luz. Venha cá, snr. Miramolim.

Guterres

Miramar, se faz favor.

Aniceto

Que me diz á perseguição d'este facinora? O senhor não lhe disse que eu estava n'este quarto?

Guterres

Nada, eu não lhe disse coisa nenhuma. Eu bem vi que o senhor estava a espreitar pelos vidros; mas como elle disse «lá está o rosto amado» cuidei realmente que o rosto amado era o da sua pessoa. Não se afflija. O caso tem remedio. Trate a doença de sua filha pelo systema homoeopathico. Similia similibus. Sabe latim? (Signal negativo) Quer dizer: cura-se a molestia com a mesma droga que a faz, percebe? quer dizer: a doença de sua filha é causada pelo tal{179} sujeito, não é? (Signal affirmativo) Pois similia similibus arranje-lhe outro similhante.

Aniceto

Dois? tomára eu desfazer-me d'este.

Guterres

Outro marido, percebeu?

Aniceto

Percebi, sim, senhor; mas eu não acho que a minha filha tenha necessidade de casar com este nem com o outro.

Guterres (com enfaze e rapidez)

Snr. Aniceto, a natureza tem direitos inauferiveis. Ha periodos fataes no fluido nervoso que repellem toda a violencia, e a não soffrem sem que a especie seja deteriorada por transtornos contrapostos ás evoluções palyngenesicas da reproducção genesiaca, resultando d'ahi que{180} as evoluções abafadas disparam em atrophia do sensorio e outras aberrações de graves consequencias: o senhor percebe, eim?

Aniceto

As aberrações curam-se com uma boa bengala, snr. Miramolim.

Guterres

Miramar, se faz favor. Vejo que V. S.ª não entendeu. Sua filha ha de dar-lhe grandes penas e trabalhos, se não tiver em quem empregar a actividade do seu coração: percebeu agora?

Aniceto

Muito bem. Aconselha-me então o senhor que lhe procure marido.

Guterres

E quanto antes.{181}

Aniceto

O senhor é solteiro?

Guterres

Sou, sim senhor, porque?

Aniceto

Quer casar com minha filha?

Guterres (com gravidade)

A sua filha, snr. Aniceto, é uma imagem que me sorria nos meus sonhos antes de a conhecer. Eu amo-a com este coração de anjo que tenho; e, se eu já não fosse poeta, os olhos d'ella fariam de mim um Camões d'occasião. Mas a sua pergunta á queima-roupa é um choque tal de felicidade que me burrifica. Deixe-me tomar ar. Ha commoções de alegria que achatam os bofes e sacodem todas as visceras d'um homem.{182}

Aniceto

Não ha tempo a perder. Quero livrar-me da perseguição d'este bandido da flauta. Se V. S.ª annue, vamos sahir immediatamente de Barcellos, e onde podermos parar em paz e socego trataremos do seu casamento com a minha Victorina. Eu vou chamar minha filha. Quero que ella o veja e ouça fallar.

Guterres

Não, senhor. Isto de casamento é um acto sério e solemne. Corações apanhados de surpreza não me servem. A mulher, que houver de ser minha, hei de conquistal-a palmo a palmo com as armas do sentimentalismo poetico. Logo que eu conhecer que consegui apaixonar sua filha, então a contemplarei como objecto matrimonial. Eu sobretudo, snr. Aniceto, sou poeta.

Aniceto

Então que é preciso?{183}

Guterres

É preciso que ella me ame espiritualmente. Eu vou principiar os meus primeiros ensaios no coração de sua filha empregando os expedientes sentimentaes.

Aniceto

Que vae o senhor fazer n'esse caso?

Guterres

V. S.ª não me disse que sua filha se apaixonara pelo tal Pimenta em consequencia de elle tocar flauta?

Aniceto

Foi isso.

Guterres

Pois eu vou empregar tambem a musica. Póde ser que esta menina tenha a alma lyrica e{184} philarmonica e que o seu coração só possa ser abalado instrumentalmente. Faz-me o snr. Aniceto o favor de recolher-se ao seu quarto, e esperar lá os phenomenos que se forem operando na sensibilidade de sua filha?

Aniceto

Sim senhor, eu cá vou esperar os phenomenos. (Recolhe-se.)