XI
*Santas ousadias!*
Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja severo e intolerante com as fragilidades do coração.
Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada e outra solteira.
Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de riso civilisado, e disse-lhe:
—Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!… Deixe correr o mundo…
—Que remedio!—atalhou o morgado—mas o que eu farei é sacudir o pó dos meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa. Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.
—Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos receba.
—Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.
—E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio…
—De qual Petronio?—interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em
Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.
—Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na vida privada da mulher?
Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:
—Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora… Quem sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho máo!?…
—É verdade—assentiu o abbade;—mas é justo e urbano que v. ex.^a não vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo.
—Não me ensine as leis da cortezia, abbade—replicou algum tanto affrontado o fidalgo da Agra.—Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D. Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos a sentarem-se na ourella dos thronos.
—Não ponho duvida n'isso;—obtemperou o abbade, e accrescentou com malicia e bem rebuçada ironia—alguns fidalgos muito mal-creados que tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez; foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem plebe grosseira e ignobil.
—Acertadamente—disse o morgado.
—Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!—insistiu o deputado bracharense.—A minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. Noli esse multum justum, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto dos proprios delinquentes.
—Mas eu não sou apostolo—acudiu Calisto.—Conheço que já não vim a tempo, nem a missão me condecora.
Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios, e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.
N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado. Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.
—Ferro penetrante—exclamou o desembargador—que me traspassou este corpo já fraco, e pendido á campa.
Calisto apertou-o nos braços e clamou:
—Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes. Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina, minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da Tribulação: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem vossos, e os vossos males fossem meus.»
Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com mui entranhado affecto:
Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza! Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma!
D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos, rompeu elle n'esta pergunta:
—A sr.^a D. Catharina já leu Homero?
—É romance? disse ella.
—Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe. Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do thalamo ditoso.
Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.
—Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.
—Não conheço, disse a dama… Li Le mariage, de Balzac.
—Não sei quem é: deve ser francez.
—Pois não leu?
—Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.
—É possivel… balbuciou D. Catharina.
—E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito nupcial!…
—E isso que tem?—atalhou a dama—é a moda…
—A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama: «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens convisinhassem de mim!…
—Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha do desembargador.
—Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora.
—Como assim?! quem o auctorisa…
—As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.
—Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu pae… A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o são.
—Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.
—A mim?
—Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.
—Mas—interrogou irada e rubra de despeito a dama—que ousadia a de v. ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!… Olhe que essas liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa.
—Não se moleste assim, minha senhora—tornou Calisto.—Respeito tanto v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta, que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado espontaneo do bem de todos.
—Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição—disse D.
Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.
Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de
Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.
Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle, dizendo:
—Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama… Amolleceu-a?
Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito consternado, e murmurou:
—Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.
E repetiu em tom cavo:
«…Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de prudencia, senão obra de magua.»
Depois, suspirou, e cheirou rapé.