XII

*O anjo custodio*

Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e indireitar as tortuosidades da humana maldade!

Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina
Sarmento.

Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas, enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.

O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito, relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de
Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

—Quem é um ratazana?—pergunta D. Bruno.

É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome, porque v. ex.^a o não conhece.

—Que quer elle?

—Fallar com v. ex.^a

Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer.

Interrogou o criado com máo semblante o morgado.

Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado se sabia lêr. Disse que não o interrogado.

—Pois entrega esse papel a s. ex.^a

D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou:

—Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado
Custodio?

—Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje.

—Esse homem que ahi está dá ares de criado?

—Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que parece um colete.

—Manda-o entrar para aqui.

D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:

—Que Custodio é este!?

N'isto, assomou Calisto Eloy.

Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.

—Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da Nação.
V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.

—Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar…

—Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!—tornou Bruno.

—Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.

Abriu o moço a bôcca, e disse:

—Ah… agora é que eu entendi… Mas… queira v. ex.^a sentar-se… Eu não sei que allusão possa ser esta… que… a respeito de…

Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:

—Vou fallar.

E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem receia ser ouvido.

—Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso
Mascarenhas.

—O sr. Bruno de Mascarenhas—proseguiu o morgado—é solteiro. Cedo ou tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da raça.

(Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes eram pouco entendidos em estylo garrafal.)

Façamos de conta—proseguiu Calisto—que v. ex.^a é hoje, como será, volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá encontrou e lá encerra.

A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica, senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae n'ella.

De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo} Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?

—Não sei…—respondeu Bruno—Só, no caso de se darem as circumstancias que v. ex.^a diz, é que se póde responder.

—Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de sua mulher…

—Sim…

—Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga, e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.

Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está gosando, e lhe augura a elles.

É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno de Mascarenhas.

—Eu!…—exclamou o moço com artificial espanto.

—V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!

—Mas que houve em casa do Sarmento?—perguntou alvoroçado o fidalgo.

—O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia… Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?

D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no primeiro instante:

—Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos serios á sr.^a D. Catharina.

—Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas? perguntou com solemnidade o Barbuda.

—Juro pela honra de meus avós.

—Que vae fazer v. ex.^a?—tornou Calisto.

—Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no paquete de ámanhã para França.

—Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um amigo do desembargador Sarmento…

—Nada direi sr. Barbuda.

—Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de
Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.

—E saíu com os olhos marejados.

* * * * *

D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»

É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.

Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do magistrado, e disse-lhe:

—Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.

Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião interpolladas de agradecidas lagrimas.