XIV

*Tentação! Amor! Poesia!*

Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de amor!

Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa. Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento adultero. Honrados desejos!

Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano os cimentos da sua obra.

Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!

O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e disse-lhe:

—Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.

—Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;—disse Calisto, esvasiando a bolsinha.

Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno coração de oiro esmaltado com iniciaes.

Ah!—acudiu Adelaide pressurosa—isto não!…—E retirou sofregamente o coraçãosinho.

Algum dos circumstantes disse:

—Então o sr. morgado não serve para administrar corações?!

—Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa estima—respondeu com adoravel graça a menina.

Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor mais virginal.

D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente.

Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo. É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída.

E aqui está que Calisto Eloy—ia me esquecendo dizel-o—tambem sentiu a queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.

Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o dote da sua amiga.

E ajuntou:

—V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara…

O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.

Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu peculio.

Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador, desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.

A partida acabou taciturna e triste.

Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca, apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos do soneto V;

Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino
Lume, mais branca neve, oiro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso:

D'um Angelico ar, de um amoroso
Meneo, de um spirito peregrino
S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino
Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do terceto:

Não cabe em mim tal bem-aventurança!

N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim, escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com orthographia mais imaginosa que a minha:

«Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião. Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá.

Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua mulher muito amiga, Theodora

Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e leu no soneto XXXIII:

Eu vi em vossos olhos novo lume,
Qu'apartando dos meus a nevoa escura.
Viram outra escondida fermosura,
Fóra da sorte e do geral costume…

Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio.

Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito. Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro. Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em peito portuguez:

Senhora de grão primor,
Meu amor,
Formosissima deidade,
Arde meu peito em saudade,
Quem fui hontem, não sou hoje;
Minha alegria me foge,
Se vos olho.
Já captivo em vós me acôlho,
Havei de mim piedade;
Sêde minha divindade;
Não leveis a mal que eu chore
Com tanto que vos adore
Gentil e nobre menina
Como Camões a Cath'rina
E como Ovidio a Corinna.

Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um salpicão frito.

Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se, saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo tempo, e ajudou o na ardua empreza.

Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao outro:

—Quatro pés nunca vestiram luvas.

Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira:

—As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.

Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.

Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino.

A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo:

—Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de roupagens novas e hodiernos afeites!…

Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr.
Liborio.

Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.

N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram, aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.

Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas pugnas inglorias!