XXIII

*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*

Calisto dormiu mal.

As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu fiat lux primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.

O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes. Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes, encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão, que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma d'aquellas.

Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.

—Porque chamam a isto chaise-longue?—perguntava Calisto Eloy ao engenhoso Margoteau.

—Porque chamam?!

—Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E étagère e console e téte-à-tête, e onaise? E é carissimo tudo isto! A gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de francez de samblador, que vem aqui aprender?

Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira bem apercebida.

A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe chegou do correio carta da sua esposa.

Dizia assim:

«Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é, dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.

«O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que perder, como diz o primo Affonso.

O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério. Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da alma e do corpo.

Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.

Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.

Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

Tua mulher que muito te quer Theodora

Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:

—Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas… Já as tuas sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!… Agora vejo que tu eras quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste, porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!… Os contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros, embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus ardores!…

Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.

Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa, n'este theor:

«Prima Theodora e estimada esposa.

Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima. Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.

Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo
dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.
Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.
Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.

Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o dinheiro que disser a ordem.

Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.

Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e algumas ancoretas do vinho da Ribeira.

Teu muito affecto e extremoso
Calisto