XXIV
*A mulher fatal*
Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello, que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a receber a visita.
Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.
Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.
—É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.
—Oh, minha senhora!… tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o braço.
—Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me enganou…
—O palpite de v. ex.^a?
—Sim… eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra… Delicadeza egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.
Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz tremida:
—A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?
—Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra do parlamento a esta hora…
—Minha senhora… que vale a patria, em comparação da honra que v. ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir.
—Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido…
—Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel…
—Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D. João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846 com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D. João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II, serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae, amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.
Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de cavallaria.
Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido. Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.
Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda, authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou…
—Diz v. ex.^a muito bem—atalhou Calisto.—Que nobre alma as suas palavras me manifestam!
—Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão: eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.» Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v. ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos, permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me?
—Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D. Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles.
—Em tal caso…—balbuciou D. Iphigenia—baldou-se a minha pretenção.
—Queira v. ex.^a ouvir-me…—Molesta-se com o fumo do charuto?—perguntou elle erguendo-se.
—Não, senhor.
Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se, proseguindo:
—Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu; porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse, minha senhora e prima, sou eu.
—V. ex.^a?!—acudiu Iphigenia.
—Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei vencer das instancias dos meus constituintes.
—Eu estou maravilhada!…—exclamou Iphigenia—Ha presentimentos prodigiosos!… Que força estranha era esta que me impellia para v. ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e desairosamente… Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar… a um primo.
—E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a qual é actualmente a sua situação.
—Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não estou velha nem feia…
—Que favor lhe fazem, minha senhora!—atalhou Calisto mui risonho.
—Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres, tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse, este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae.
—Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do coração?—perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!
—Todas as que não condigam com a minha situação de viuva.
—Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno…
—Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v. ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me fazem desgraçada.
—E como seria v. ex.^a feliz?—interrompeu Calisto.
—N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente.
Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:
—Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos, com quanto seja casado…
N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso. Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:
—Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino…
Fez uma breve pausa, e proseguiu:
—V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer de uma expansão.
—Porque não ha de sêl-o?—accudiu D. Iphigenia, interessada na commovente historia.
—Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo. Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si. Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha mocidade… Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não na enfadam porventura minha senhora?
—Interessam-me e commovem-me—disse com affectuosa sympathia a brazileira—Vae dizer-me que se apaixonou?
—Tive um delirio—respondeu o morgado, compassando as palavras em tom muito do intimo—Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que eu seria capaz de um crime… E, todavia, se algum seio de mulher podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!… Se alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a roubar um grão!… Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me comprehender… Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E, se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante das quaes um homem precisa chorar.
Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao leitor e a mim, quando m'o referiram.
Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras chinezas do seu leque, disse:
—De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada, se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!…
Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:
—Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a, estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!
Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas, affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade, desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.
Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas, quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa d'aquelle quarto de hora.
Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.