XXV

*Perdido!*

Fecharam-se as camaras.

Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda, desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado Portugal.

As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas coisas nas gazetas, e dizia entre si:

—Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!…

Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para repousar-se em fresca sesta a aurora.

Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia, conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo, com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas, distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.

Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de graciosas estantes e étagères, cheias de livros luxuosamente encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.

Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.

Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden.
Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:

—Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.

Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera, e murmurou:

—Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de gratidão.

—Lagrimas… para que?—Volveu ella com meiguice.—As lagrimas deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento? Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!… Ainda não quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas… Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da sciencia que m'o descubra. Não é assim?…

—Que fallar o seu prima!—disse com vehemente, mas suffocado amor, o morgado—Que melodias!… Eu não sei responder-lhe… Apenas sei escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada Vilhalpandos, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á vida.

—Sempre lagrimas!…—atalhou Iphigenia—Então que é que diz o Sá de
Miranda?

—Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras: «mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas francezes disseram coisa mais peregrina?… E n'esta mesma scena, poucas linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua alma: «Sabes que sonho?»

Fausta!… é um nome lindo, disse a mimosa viuva.

—Se não existisse Iphigenia…—accudiu Calisto. Já este nome me soava docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.

—Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o tinha no afflicto rosto da sua:

Ah!
Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour
Le malheureux objet d'un si tendre amour?

O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?

—Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora, porque… não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha prima.

—Essas lisonjas—volveu ella sorrindo—aprendeu-as nos seus livros velhos, primo Calisto?

—A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?… Eu não podia mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!… Os meus classicos só me ensinaram duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!

Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.

A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias, poderia espantar-se: eu, não.