XXXII
*A virtude de Theodora em paroxismos*
Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de Cintra.
Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.
De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham propriamente a si.
Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de Freimas, Benevides de Barbuda.
A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa. Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do escandalo.
Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel inglez, a Buenos-Ayres.
As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a maledicencia ajuntou á admiração o respeito.
Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do parentesco. E mais nada.
Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa. Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico, e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete, e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda, saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos em nascimento, asnidade e estylo.
N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo. Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.
Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada ao filho das esperanças suas e da patria.
N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á platéa.
Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta.
—O collega por aqui?—disse o doutor—Reminiscencias me não acodem de havel-o visto na platéa!
Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:
—Venho vêr as dimensões das suas orelhas.
—Como assim!…—balbuciou Liborio.
—Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá se a operação lhe convém aqui ou lá fora.
—Não comprehendo a razão do insulto!—disse Liborio.
—Será lá fora—concluiu Calisto e saiu.
A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual, dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso, Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas.
O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso voltado para a friza de Iphigenia.
N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familia
Sarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando
Catharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar.
Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de todo em todo.
Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D. Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido. Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada reincidira na velha culpa. Enganara-se.
Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto como esta na balança.
Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido se augmentava.
Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade. A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses, servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.
Mas—honra á virtude que cae mais tarde que o costume!—honra á virtude de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas immaculadas!
Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.
Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria eterna.