XXXIII
*Escandalos*
Abriram-se as camaras.
A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e disse-lhe:
—Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras. As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera, respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.
—Segue-se que está liberal?—perguntou o pavido abbade.
—Estou portuguez do seculo XIX.
—Apostatou!—disse com pesar mui entranhado o padre—Apostatou!…
—Da religião dos nescios.
—Mercês!—accudiu o abbade.
—Sem direitos—retorquiu o sardonico Barbuda.
Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre, despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o sorriso pungitivo de Calisto Eloy.
Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios. Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes, por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos, e por amor da ordem que está como poder executivo.
Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos, quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:
«Primo e amigo.
Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.
Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima. Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o que sinto.
Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.
Vamos agora ao que importa.
Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta, desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada. Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um patife como tu. Isto é bonito!
Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha tiral-a d'aqui.
Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas. Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa. Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria d'ella.
E se tu tens de a vêr a testilhas com essa diva, que em quanto a mim não é casta? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras, escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação, e tenho horror.
Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado.
A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o que teu bom juizo te suggerir.
Teu primo muito dedicado
Lopo.»
No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.
Ao outro dia embarcou para França.
Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação:
—Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!
—Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.
Partiram.
No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra, recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.