V.

Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres, suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no mercado.

Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia esta linda criança por algum tempo.

Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira; mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.

Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter um livro para se entregar á leitura.

D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.

Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe aproximou uma senhora ainda joven.

—Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?—lhe disse a joven senhora com modo affavel.

Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:

—Faço cestinhos com flôres para vender.

—Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?

—Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a satisfazer, vou já preparar o vosso.

—Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?

—Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.

—Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os ires vender?

—Sim, minha senhora.

—E teus paes em que se occupam?

—Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.

—És orphã, e onde moras?

—Estou em casa da snr.ª D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme, tão boa, como rica.

Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos comido, quando de repente me lembrei da snr.ª D. Thereza. Eu e minha avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A snr.ª D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.

—Amas então muito a snr.ª D. Thereza?

—Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir d'utilidade.

—Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.

Parece-me que o meu cesto está acabado?

—Ainda lhe falta uma cercadura de não me deixes. Permitti, senhora, que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais frescas, e em mais abundancia.

—Ide, que aqui te espero.

Rosa partiu correndo.

D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D. Thereza, tinha vinte annos.

O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.

Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma quinta proximo da serra de Vallongo.

D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava. Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou obter o triumpho sobre a molestia.

D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas phantasias.

A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade, orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com esses estupidos e rudes aldeãos, que habitam os campos, e a quem ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só imperava o egoismo.

Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou encantada com a sua innocencia.

Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não voltasse, quando a viu vir correndo.

—Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui muito longe colher as violetas e os não me deixes, porque queria que o meu cestinho vos agradasse.—Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa, a sua apreciação.

Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.

—Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te; mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.

Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos formando as azas.

—Não quero—disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio—que uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro, cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto queres por este trabalho?

—Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras minhas freguezas.

—Mas quanto é que custam ordinariamente?

—Tres ou quatro vintens.

—Quatro vintens!—disse D. Julia admirada.

—Acha caro, minha senhora?—disse Rosa com acanhamento.

—Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho. Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta hora apparece aqui, e fallaremos...

—Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.

—Queres fazer-me zangar?

—Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu não preciso de nada; a snr.ª D. Thereza é muito minha amiga e...

—Não é uma esmola que te dou—replicou D. Julia, mettendo a moeda de prata na mão de Rosinha—não te esqueças da recommendação, que te fiz, de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.

E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha desapparecido, levando na mão o cestinho.

Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.

—Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.

—Não, senhora—replicou Rosa com a alegria nos olhos—não é esse o meu pensamento, e que me causa tanta alegria.

—Que é então?

—Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.

—Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não has-de gastar mal gasto.

Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas de flôres e cestos.