VI.
D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha determinado.
A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no caminho, ao encontro de sua filha.
—Estiveste incommodada, minha filha?—lhe disse ella.
—Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa da minha demora.
E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.
—Como é lindo—respondeu a viscondessa—Não sabia Julia, que tinhas a prenda de fazer cestos de juncos entrançados.
—Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.
—Então quem foi?
—Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.
—Uma lavradeira?!
—Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?
—Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua simplicidade.
—Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome sob a minha protecção?
—Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e accordaremos no que devemos fazer para seu bem.
D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua bondade.
N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.
D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto, desceu á sala a buscal-o.
D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.
—Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?—disse D. Julia.
—Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo. Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.
—Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia ter melhor gosto.
—Rosa?
—Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive esta manhã. Ora ouve.
D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera com Rosa.
Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.
—E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é assim?—disse D. Bertha.
—Rosa,—respondeu unicamente D. Julia—tem merecimento bastante, que a torna digna da protecção, que se lhe dispensar.
—O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?
—Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.
—Pintal-o?!—disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.—Que liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins, concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.
—A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia. Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa mãi, vêr Rosa?
—Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um tanto aborrecivel.
—Rosa é muito linda e interessante.
—Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me—disse D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.—Vai, Julia, vai pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para onde espero ir muito breve.
Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.
D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.
Alguns instantes depois deu principio ao quadro.