X
Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. Thereza.
—Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito—disse D. Euzebia,—mas é inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e ella não podia desherdar-me.
—É verdade, minha senhora,—respondeu o juiz—mas cumpro o meu dever, por que a lei protege os direitos de todos.
—Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem filhos.
—Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?
—Minha irmã—replicou com colera D. Euzebia—seria por ventura capaz de me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que ella teve a phantasia de recolher em sua casa?
—Não o affirmo, minha senhora—respondeu com brandura o juiz;—mas sua irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua estima e amisade.
—Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,—disse D. Euzebia com voz forte—ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...
—Oh! senhora—respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição offensiva—acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e minha avó recebemos da snr.ª D. Thereza?
O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão tão vergonhosa, e feia.
Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que Rosa não pôde refrear a sua indignação.
—Não me injurieis, senhora,—disse Rosa com energia e dignidade—não me injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma? Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que, logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.
Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou corrida de vergonha.
Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro a D. Thereza.
A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito. Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.
O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.
—Vamos, minha avósinha—disse Rosa—a casa da snr.ª Maria da Gandra, que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.
A snr.ª Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.
—Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa—lhe disse ella logo que a avistou.—Que prazer me não causa teres procurado a minha casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua avó.
—Agradeço-vos, senhora—disse Rosa—a vossa bondade, e a caridade com que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó, que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.ª D. Thereza, e receba as minhas inscripções.
—Sim, sim, minha menina,—lhe respondeu a snr.ª Maria da Gandra—Não preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como obtiveste essas inscripções?
—A snr.ª D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, com os quaes a snr.ª D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou duas inscripções em meu nome.
—Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir ao vosso quarto.
Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.
A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e trabalhadeira, que a snr.ª Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que lhe podia apparecer.
No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza, Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.
Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não pôde reter as lagrimas.
Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos dinheiro, do que imaginava.
Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava um accento de triumpho.
—Bem certa estava eu,—disse ella—que esta velhaca havia de ter empalmado alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.
O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo tamanho, não pertencia de certo a Rosa.
—Dize velhaca,—tornou D. Euzebia—como é que este vestido veio aqui parar?—Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando pelo rubôr, que lhe cobre as faces.
—Senhora D. Euzebia—disse o juiz—o seu proceder para com esta criança é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto dar-me as explicações, que tiver a fazer.
Responde Rosinha,—disse o juiz com modo affavel—como é que este vestido se acha na tua caixa?
Rosa fez-se muito corada e respondeu:
—Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.
—Que é; que é?—interrompeu D. Euzebia.
—Senhora—disse severamente o juiz—ordeno que vos caleis.
—É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.
Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos: entregava-me a snr.ª D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a snr.ª D. Thereza no seu dia natalicio.
Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da snr.ª D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de lh'a apresentar.
Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes. Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar a verdade.
Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde conseguil-o.
Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó, apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais cruel e mais requintada avareza as expulsava.