XI.

Estamos no anno seguinte.

Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.

Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a sua querida amiga e preceptora.

Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre ellas.

D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé; mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que, quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e desvelos, de que a cercava a viscondessa.

Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora. D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha retirado para o Porto.

Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.

A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo, ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.

Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal, que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.ª Maria da Gandra.

—Estou satisfeitissima, minha senhora—disse a snr.ª Maria da Gandra—pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.

A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.ª Maria da Gandra toda a despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, e respondeu—Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham despendido.

A despedida de Rosa e da snr.ª Maria da Gandra foi pathetica, e só a muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra, promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a snr.ª Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe não tributasse um profundo reconhecimento.

A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante ventura lhe succedesse.

—Que a minha Rosinha—disse ella—algum dia se havia de tornar senhora da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.

Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos, muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com muita censura e reparo de D. Bertha.

—Era só o que faltava—dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D. Francisca de Meirelles, sua amiga—trazer para nossa casa estas duas mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?

—Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.

—Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e attrahente?—disse D. Bertha com um sorriso ironico.—Se a cega e a neta contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de deixar muito tempo para se aborrecerem.

Conforme com estas bellas resoluções D. Bertha evitava o mais possivel dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia, era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas infelizes ficavam confusas e envergonhadas.

D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que, procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D. Bertha, era um trabalho improbo e esteril.

D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.

D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.

—Queres dar a Rosa—disse uma occasião a viscondessa a sua filha—uma educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?

—Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:

«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e rustica; uma boa menina, a snr.ª D. Julia, filha da snr.ª viscondessa do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar. É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me amaes, deveis igualmente amar a snr.ª D. Julia, minha bemfeitora; e então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»

—Não te torno a dizer mais nada—disse a viscondessa—Continua, minha filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.

A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia, dava as lições a Rosa.

Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o seu coração.

D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.

D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz, castellos no ar, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os confirmar.

A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.

—Não posso crêr,—dizia ella—que Deus nosso Senhor me queira tirar d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha commettido, que mereça semelhante castigo.

—Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha—respondia D. Julia—que estou certa nunca te ha-de desamparar.

Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando distrahil-a por todos os meios possiveis.

O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os merecer faria o impossivel se necessario fosse.