XII.

Ai! como elle a amava!

Quantos Paulos, e Romeos, e Othellos mettidos n'aquella côdea grossa de José Francisco Andraens! Que requebros de namorado, e que furias de cioso! Aquella é verdadeira paixão que ora se refrigera com orvalhos do céo, ora se calcina nas labaredas do inferno. A paixão de José Francisco era assim. Ha pouco vimos aquella alma a derramar-se em blandicias de Petrarcha; agora arripia o vêl-a a espirrar coriscos da cratera que lá referve dentro.

Mal Christovão Pacheco sahira, galgando atordoado as escadas quatro a quatro, José Francisco arrancou de si a cataplasma d'um impeto que faria lembrar Catão arrancando o proprio redenho. Saltou para o chão, calçou as mouras escarlates que lhe serviam á farta de tapete, lançou sobre as espaduas um capote de camelão de quatro cabeções, enfiou as mangas do mesmo, e sentou-se á escrivaninha, resfolegando vaporadas pelas ventas, que nem javali monteado por lebreus. A criada entrava n'esta occasião com a terceira camada de linhaça, e fez pé atraz, enfiada de puro horror.

—Que queres tu, moça?,—mugiu José Francisco.

—São as papas...—balbuciou a espavorida criada.

—Não quero mais papas. Vai chamar o meu compadre Amaro, e que venha já de marcha para ir com uma carta a Margaride.

O brazileiro escreveu na pojadura da veia. O traslado da carta, com a authenticidade do de todas as outras, não pude havel-o, apesar de suadas canceiras que este paiz tão sovinamente remunera aos indefessos obreiros das suas glorias. O que pude tirar a limpo foi ser a carta dirigida a Pedro de Mello, pai de D. Silvina. José Francisco lembrava ao fidalgo a sua divida de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta réis que lhe emprestára sobre hypotheca da quinta da Lixa. Dizia mais que não podia continuar a remetter as mezadas para os academicos da universidade. Instava pelo prompto pagamento do seu credito, ou trespasse da quinta hypothecada. Ameaçava-o com o poder judiciario, e terminava com estas quatro linhas, unicas authenticas:

Pr'ámor da sua filha é que é tudo isto. Se ella andasse direita comigo outro gallo lh'avia de cantar. Assim o quiz, assim o tenha. Comigo não se manga, e está arrumada a pendencia.

Ai! se elle a amava!

A carta partiu, e José Francisco, aplacado o maior afôgo da convulsão, chamou a moça, pediu uma tigela de tapioca, e comeu á tripa fôrra.

Cotejemos agora com os do negreiro os ciumes do morgado de Santa Eufemia. Egas de Encerra-bodes esperava o primo no hotel, curioso de saber o fim a que o chamára o brazileiro. Christovão contou lealmente o acontecido, já barafustando furioso, já enternecendo-se a lagrimas. O de Matto-grosso descompunha-se em gargalhadas, e nem os prantos do primo lhe embargavam as guinadas de riso. Começava a desconfiar o de Santa Eufemia, quando Egas, composto o gesto e a postura, fallou assim:

«Um Pacheco Valladares a correr parelhas com um José Francisco na conquista d'uma mulher! Um neto do governador de Cochim a disputar meças de merecimento com um chatim de negros! um moço no mais florido dos annos, gentil de sua pessoa, sacrificado á mazorral caricatura, que ahi está symbolisando uma fortuna tão besta quanto assignalada das vergoadas do látego com que o infame de Deus e dos homens fazia espirrar sangue das costas dos escravos!... Primo Christovão, torne sobre si, peje-se d'essas lagrimas que ahi derramou, e que eu escarneci para não tomar ignominioso quinhão da sua dôr aviltante para evos e para vindouros! Que mulher é essa, a neta do sargento-mór d'Amarante, que anda ahi a chafurdar nos chiqueiros da sua cubiça um appellido que usurpou? Mello! Quem lhe deu a ella Mello?! Seu visavô era Antonio Gonçalves; seu avô era Francisco Antunes Gonçalves; quem enxertou no pai esse pomposo appellido? Silvina Antunes é como ella se chama, essa farrapona que mendiga para uma carruagem e seis vestidos o preço dos ultimos doze pretos que José Andraens mandou acorrentados ao mercado. Primo Valladares, neto de Heitor Valladares, bisneto de D. Mafalda Pacheco e Alvim, açafata illustre da côrte do snr. D. Pedro 2.º, descendente dos Alvins de Braga, onde casou o condestavel D. Nuno Alvares Pereira! primo, lembre-se de quem é, e esmague debaixo das solas das suas botas o coração, se sente que uma gotta de seu nobre sangue se ha degenerado no vilipendioso affecto que prodigalisou á esposa promettida de José Francisco!»

Este aranzel fez bem ao coração do morgado. Entrou em si, coçou-se com ambas as mãos algumas vezes, estirou os braços convulsivos com os punhos cerrados, e exclamou de golpe:

—Que a leve o diabo!

Egas estreitou o primo ao coração com vehemencia, levantou-o tres vezes em peso, e bradou por fim:

—Reconheço o meu sangue!

Sem embargo d'isto, o morgado de Santa Eufemia precisava de ar, abriu a janella, sorveu tres grandes haustos, e repetiu a phrase que provára ao de Matto-grosso a identidade da sua estirpe:

—Que a leve o diabo!

N'este comenos, vinha atravessando o largo da Batalha Leonardo Pires.

—Lá vem aquelle!—exclamou Egas—Vou chamal-o para lhe dar a noticia que ha-de ser muito agradavel ao seu amigo Jorge. Olé! snr. Albuquerque! Psio.

Pires fez uma continencia militar com o chicote.

—Suba cá—tornou o fidalgo de Entre-ambos-os-rios—temos que contar-lhe.

—Viram aqui passar a Francisca da Cunha?—perguntou Pires.

—Não.

—Ando-lhe na pista, como galgo que perdeu a lebre, que eu desconfio bem que seja gata, que a minha paixão me dá por lebre.

—É muito possivel...—redarguiu a rir o de Matto-grosso—Suba, e verá que não está longe da verdade.

O da Maya circumvagou com a luneta em torno da praça duas vezes, e subiu.

—Então que temos?! Dou-lhe parte que o meu amigo Jorge Coelho não tarda ahi, e que o duello, se os cavalheiros insistirem, ha-de consummar-se.

—Quem falla aqui em duello?—acudiu Egas—Escreva ao seu amigo, e diga-lhe que se deixe estar com a mãi e com o padre lá na sua aldêa, se não quizer vêr Silvina, o anjo de candura, de braço dado com as fronhas carnosas de José Francisco Andraens...

—Quem é José Francisco Andraens?—interrompeu Leonardo.

Egas de Encerra-bodes compelliu o primo a contar a historia, que, d'esta feita, não sahiu com intermittentes de lagrimas. Era de vêr com que graça soez o amante ultrajado ia já apimentando os sarcasmos detraidores de Silvina, e os projectos de cynica desforra que elle offerecia ao parecer dos seus amigos, projectos que, realisados, collocariam José Francisco n'uma situação tão irrisoria como bemquista do siso commum, o qual é uma cousa muito ao envez do que por ahi nos grandes alcouces da opinião publica se denomina senso-commum.

O programma do morgado de Santa Eufemia foi applaudido com razões pouco para se estamparem. Leonardo Pires disse que não avisava o seu amigo para não perder occasião de o ter no Porto alguns dias, e cural-o mais facilmente com a vista do espectaculo hediondo. N'isto, como estivessem os tres á janella, viram assomar no topo da rua de Santo Antonio Silvina, e Francisca da Cunha, seguidas de um criado de farda.

—Ellas ahi vem!—disse Pires, e sahiu a encontrar-se com ellas. O morgado de Santa Eufemia, a rasoavel distancia, quando as damas vinham com os olhos postos n'elle, fez recuar o primo, e fechou-lhes a janella na cara. Silvina ria tanto como a prima, quando Pires, com o chicotinho em arco, e quasi aos pulinhos como funambulo que vai fazer a sorte, se lhe atravessou no caminho, dizendo:

—Criado de vv. exc.as

—O snr. Pires!—disse Francisca toda graça e affabilidade ironica—Faziamol-o no seu chateau... Que é feito de si?

—Agoniso, minha senhora, agoniso.

—Ai! que funebre vem!—disse Silvina—póde-se agonisar com esse rosto tão de vida, e rubicundo?

—Póde-se padecer muito, minha senhora, com o rosto rubicundo—replicou Pires—Eu sei de creaturas, metaphoricamente chamadas humanas que soffrem muito, sem impedimento das massas de toucinho que as envolvem. Darei a v. exc.ª um exemplo. Conheço uma metaphora chamada José Francisco Andraens... (Silvina córou e franziu a testa) monstro cevado em sangue humano, que elle distilla em banha e asneiras, o qual monstro,—ninguem o ha-de crêr, minha senhora—neutralisa o combustivel da paixão com o refrigerante das cataplasmas de linhaça. Ahi tem v. exc.ª um exemplo que justifica de sobra a minha agonia.

—Vamos, prima, que são horas—disse Francisca da Cunha, condoida do enleio desacostumado de Silvina.

—Pois sim, vamos—disse esta, corrida de modo, que incutiria compaixão em homem que não fosse Pires.

—Dão-me as suas ordens, minhas senhoras?—disse elle, ladeando—Ah!—continuou Pires de sobresalto—esquecia-me dizer á snr.ª D. Silvina que o nosso Jorge vem ahi...

—Ah! vem?—disse machinalmente Silvina.

—Vem, sim, minha senhora, a requerimento meu, por que lhe conheço grande curiosidade de naturalista, e desejo mostrar-lhe José Francisco Andraens, a hyperbole de enxundia, monstro, de quem eu tive a honra de fallar a vv. exc.as, e que até ouso recommendar-lhes, para que vv. exc.as admirem não só o bruto, mas o effeito prodigioso da linhaça.

O enleio de Silvina redundou em colera.

—O senhor, disse ella, está-me insultando por que eu e minha prima, confiadas na cortezania da sociedade em que vivemos, sahimos sem um homem, cujo desforço nos desafronte com honra.

—Dizes bem, prima—acudiu Francisca, tambem colerica por contagio—Deixemos o villão.

Pires, quando lhe voltaram as costas, deu dous passos em seguimento d'ellas, e tomou-lhes o passo.

—Continua a petulancia?—disse Silvina irada—olhe que eu trago um criado!

—Com libré emprestada, minhas senhoras?—disse o imprudente fidalgo da Maya, que trazia os ouvidos cheios das diffamações geanologicas d'Egas de Encerra-bodes.—Snr.ª D. Silvina, eu fui quem lhe apresentou a nobre alma de Jorge Coelho, que v. exc.ª quiz estragar. Empeçonhou-lh'a, mas não ha-de enlameal-a. Quem vinga Jorge sou eu, Leonardo Pires de Albuquerque. Saiba v. exc.ª que José Francisco Andraens é meu. Aquelle problema de carne hei-de desatal-o eu com o escarneo, e v. exc.ª ha-de ficar submersa nas avalanchas d'aquella montanha de cebo. Agora nós, snr.ª D. Francisca da Cunha. V. exc.ª, que só sabe lêr as cartas do linheiro das Hortas, e que tem tido o indiscreto recreio de me andar ridicularisando no boudoir das suas dignas amigas, ou se encastella com o linheiro das Hortas lá no seu burgo de Traz-os-Montes, ou tem de esconder-se nas rimas de estopa em que seu futuro esposo lê de pernas ao ar as suas epistolas. Sem mais.

Pires, vibrando no ar estalinhos com o chicote, entalou a luneta no olho esquerdo, e foi expandir o jubilo em folgada palestra com os morgados, que o espreitavam.

Silvina, quando entrou n'uma casa nobre de Traz da Sé, soffreu um insulto nervoso que desabafou em gritos. Queria Francisca da Cunha consolal-a; mas estava esperando de instante a instante ser assaltada tambem do mesmo insulto. As senhoras da casa á competencia desfaziam-se em desvelos; mas Silvina respondia apenas: «hei-de vingar-me!»

Desiderio Erasmo, como sabem, escreveu a «Apologia da tontice.» Eu não me afouto a encarecer a de Leonardo Pires; porém, assim como os regedores das republicas nobilitam com mercês e titulos não só a estupidez—isso é o menos—mas a infamia soberba d'uma opulencia cevada e medrada em cruezas e deshumanidades, que muito se aventurarmos um voto de louvor a alguns selvagens da civilisação, doudos providenciaes que atiram a vaza do insulto a caras já de si tão sujas, que não ha medo de enferretal-as?

Alguns homens, como Pires, seriam muito proveitosos n'uma sociedade como esta. Houve-os sempre com differentes nomes e appellidos. Na antiguidade, chamaram-se Aristophanes, Diogenes, Marcial e Plauto; na meia idade eram os prophetas, os padres da igreja, e, com menos caução de suas prerogativas censorias, os histriões palacianos. Na correnteza d'esta geração por excellencia policiada, mas de todas a mais gafa do que ahi se chama «ridiculo» e do que mais é para chamar-se lastima, ha muito quem tire a campo de zombaria os «ridiculos» do mundo; mas ninguem se vê copiado n'elles, e os copistas de modo o fazem que fique salvo o orgulho de cada azêmola que fita a orelha ao ornejar da copia, mas não responde. A isto é o que ahi dizem «guardar as conveniencias»: á mesma cousa, chamavam d'antes «guardar as costas.»

Seja o que fôr, a satyra assim não vinga fructo de servir á geração que está nem á porvindoura.

Satyra prestadia, se alguma houve, é a de Leonardo Pires. Eis ahi um doudo, que tolos e sisudos lançarão de suas casas com horror; e todavia qual de nós não sente um Pires, na consciencia, a travar-se de razões e murros com a nossa soberba? Seis Leonardos activos no Porto purificavam o ar pestilencial que para alli veiu das terras de Santa Cruz. Na idade media, os tabardilhos, as pestes fulminantes; no seculo 16.º o verme roedor que desmedula os ossos através de vinte gerações que hão-de lembrar-se sempre de Colombo pelo mimo; no seculo dezenove, mais que nunca, a peste do Brazil, de que adoecem espiritos empinados em seu orgulho como o de Silvina e Francisca da Cunha.

D'um lado Leonardo Pires; de outro lado José Francisco Andraens, e o linheiro das Hortas. Quem levará a melhor? É tola a pergunta. Ha-de ser o linheiro das Hortas, e José Francisco.