XIII.
O apostolico e dicasissimo padre João Coelho, desde Vallongo até Amarante, excedeu-se a si proprio prégando ao sobrinho o melhor e a maior parte do que disseram philosophos, santos padres, moralistas e casuistas ácerca do amor mundanal e da mulher. Jorge não replicava, por que o não escutava. O egresso, tomando o silencio como victoria, tirava dos corollarios theses novas, que ia defendendo com tamanha profusão de tiradas latinas que, a ser verdade o que elle disse abordoado a Seneca, Santo Agostinho, Euzebio cezariense, e Bredembachio, o amor mundanal e a mulher são cousas muito peores do que pensa o vulgar da gente. Padre João não era erudito que sómente fizesse praça dos exemplos que authorisa a historia. O pulso rijo da engenhosa memoria d'elle entrou nas idades fabulosas e trouxe pelas orelhas certos heroes que os poemas orphicos e os homeridas nos encamparam como sujeitos apresentaveis na boa sociedade. Marte, segundo o padre, era um adultero; Apollo um valdevinos que se andava lamuriando na piugada de Daphne; Hercules um maricas que fiava de cocoras na roca de Omphale; as heroinas da odissea, da iliada, e das tragedias de Eschylo um femeaço impudico e deslavado. Do Olympo desceu padre João aos antigos imperios, e poz pelas ruas da amargura Xerxes, Ciro, Dario, Holophernes, Absalão, Sichem, Salomão, Herodes, Marco Antonio, e muitos outros que pelos modos não deram boa conta de si, ou as mulheres não deram boa conta d'elles.
O leitor de certo se convertia ouvindo o egresso; mas Jorge Coelho ia tão dentro em si, tão lacerado pelo abutre da paixão sem esperança, que as palavras do douto velho lhe eram como esponja de fel e vinagre espremida nas chagas. Pernoitaram na Amarante, onde chegaram ao fim da tarde do segundo dia de jornada. Em quanto o egresso entrou no velho templo a fazer oração a S. Gonçalo e visitar os cubiculos onde viveram santos varões da sua creação, Jorge foi sentar-se á beira do Tamega, e ahi rompeu em pranto desfeito, com os olhos postos nas ondulações das serranias para além das quaes lhe ficava o Porto. O padre sahiu indignado do mosteiro praguejando, menos evangelicamente que de seu costume, contra o governo que permittia á municipalidade amarantina que as vivandeiras do destacamento aquartellado nos dormitorios do mosteiro dançassem ebrias e meio nuas a canna verde e a sirandinha no refeitorio e na claustra. É de crer que as mulheres recebessem com galhofa o egresso venerando, cujas botas de borla e chapéo tricorne deviam de parecer cousa de entrudo ás bacchantes que a onda da civilisação revessou no remanso dos monges, em quanto outra engolfou os monges no porto suspirado da sepultura.
Ahi me vou eu sahindo com o impertinente vêzo de lastimar os frades! D'esta vez hei-de represar a piedade com que n'outros livros tenho desdourado, no conceito de muita gente, os meus altos espiritos de operario que trabalha á candeia do seculo XIX. Que me importa a mim que nos cubiculos do mosteiro de S. Gonçalo se alojem as vivandeiras do destacamento, e que na claustra sobre as cinzas dos frades vão ellas, repletas de vinho e despejo, dançar a sirandinha e a canna verde? Se eu disser que no tempo dos frades não se viam semelhantes desacatos, hei grande medo que me ponderem que outros desacatos mais attentatorios da religião de Jesus ahi se viram no tempo em que os frades comiam no refeitorio, e medravam nas cellas, onde agora coze o seu vinho o mulherio da tropa. Se o padre João Coelho quizesse, esse é que podia responder a preceito; mas, para bem do leitor, ninguem n'aquella hora se lhe atravessou com argumentos, estando elle na estalagem da Amarante, sentado no escabello, a dizer cousas de sorte magoadas, a respeito da profanação do convento, que todo o auditorio chorava, sendo tres das carpideiras as mais lubricas bailarinas da claustra.
Entretanto, Jorge escrevia a Leonardo Pires, dizendo-lhe que resolvera não escrever a Silvina, em quanto lhe durasse a impressão amarga que recebera das revelações do tio, impressão immorredoura, dizia elle. Recommendava-lhe que se informasse da verdade d'aquellas revelações, e sem piedade lhe transmitisse o excesso de peçonha que havia de matal-o. Ajuntava elle que já não amava Silvina; mas que não podia despresal-a; e que entre o amor e o despreso estava o odio, serpente insaciavel que se lhe enroscara no coração.
Esta serpente de que se queixa Jorge Coelho é uma alimaria a que os poetas de animo socegado chamam cupido, deus de Gnido, de Paphos, e Amor em estilo chão. Permitte a rhetorica aos amadores enraivados denominar serpente a cousa que d'um dia para outro se transforma em rola gemedora. Não é raro encontrar sujeito que tem aninhado no seio um viveiro d'estas serpentes, as quaes, depois de cuspirem a peçonha, n'uma carta arrufada, em meia duzia de adjectivos azedos como malagueta, metamorphoseam-se em pombal de candidissimas pombinhas que se catam e beijam umas ás outras com langorosos requebros. Da metamorphose o que fica é a peçonha instillada e derramada na circulação sanguinea. Na correnteza do tempo, vem esta peçonha a consolidar-se no coração, e d'ahi procedem as postemas, que degeneram em aleijões, commummente denominados scepticismo, cynismo, devassidão, libertinagem, impudencia, e outras molestias pegadiças. As rolas e as pombas, desde que o coração inficionado as afugenta, passam para o dominio do estilo, e concorrem para que no banquete d'um amor revelho, gotoso e glutão hajam sempre aves.
Vem a pêllo fallar da gorda gallinha que padre João trinchou na estalagem da Amarante, em quanto Jorge Coelho, recolhido ao seu quarto, se atirava vestido sobre o leito abafando contra o travesseiro os soluços da afflicção, que o egresso, tão de boa fé como crente na efficacia da historia, julgára minorada com a quarta dissertação que fizera ácerca do amor, segundo a carne, e nomeadamente do amor em Roma na época dos Cezares.
Citou versos de Marcial e Juvenal, como prova de que o amor era mau em toda a parte; e, sem elle querer, tambem provou que nas livrarias dos mosteiros entravam livros de moralidade muito equivoca. A ultima these de padre João Coelho assentava n'esta proposição de S. Paulo: «Quem não ama está na morte;» mas tão engenhosamente o erudito frade torceu o bico ao prego que as conclusões eram todas contra o baixo amor terreal, e pregoeiras do amor divino, que elle orador por sua parte cumpria á risca, sem embargo de se pascer em delicias na choruda gallinha, em quanto o sobrinho abafava de dôr no quarto. Esta é a grande vantagem dos que andam empinados em amores do céo, que nunca deixam de comer ás suas horas, e de digerirem em regalados somnos a materia bruta que lhes não pesa na consciencia. Não ha pois duvidar de Montesquieu (parece que foi) que disse—que a religião christã, depois de nos felicitar n'este mundo, nos segurava a felicidade do outro.
Padre João dormiu nos coxins macios da sua limpa consciencia; Jorge, apenas o tio se fechou com o breviario, e adormeceu ao quarto psalmo penitenciario (um egresso repleto de gallinha cozida a resar um psalmo penitenciario! parece um paradoxo! Tomára eu saber se David compoz aquellas lastimas antes que as caricias de Bethsabé o enfastiassem!)... Estas incisões intermittentes hão-de perdoar-m'as os leitores que souberem o que é escrever um romance n'um carcere, onde já não ha carrasco, mas existe o espirito do carrasco identificado a uma cousa que nós cá os assassinos e os salteadores denominamos as authoridades, que medram no cêvo do erario, uns chamando-se procuradores do rei, outros carcereiros, outros chaveiros, outros guardas, a mesma familia representando o rei de theor e modo que fazem odiosa a palavra do symbolo que lhes legitíma a crueza, a barbaridade que lhes tem ladrilhado o coração, e muitas vezes a infamia que se abona com a justiça, essa divina irmã dos anjos, que os cafres trazem tão nusinha e pustolosa por sobre os esterquilinios d'elles.
Agora é que me eu perdi de todo... Perdido devéras andava aquelle pobre Jorge Coelho, pelas ruas da Amarante em quanto o padre dormia o somno do justo. Chegou á celebrada ponte, curvou-se no parapeito, e teve tentação de precipitar-se. Foi instantaneo o accesso de loucura. Jorge viu a imagem de sua mãi no scintillante reverbero da lua que se espelhava no Tamega, Levantou os olhos para o céo, e disse:
«Ó Providencia Divina! leva esta dôr ao coração de minha mãi, para que ella, a santa, peça por mim!»
Eram onze horas d'aquella formosa noite de Setembro. Soava apertada nos rochedos a torrente, que scintillava em escamas de prata. De longe vinha a toada soidosa d'uma flauta que tocava a chacara popular dos «Dous renegados.» Jorge amava desde os doze annos os versos maviosos e truculentos d'aquella canção de amor que chora como anjo e obsecra como demonio. Proferiu a letra cadenciando-a com a flauta, e rematou chorando, já não em ancias, mas suavissimamente, como se o espirito de sua mãi lhe alcançasse do céo a mercê das lagrimas que desopprimem.
Um vulto entrou na extremidade direita da ponte: era uma das mulheres que padre João vira com santa indignação, a tripudiarem sobre as ossadas dos monges na claustra. Veiu direita a elle, e pediu-lhe uma esmola. Jorge deu-lhe tudo quanto tinha. A mulher viu bastantes moedas de prata, e, estupefacta ou douda de jubilo, nem se retirava nem agradecia.
—Vá-se agora, embora, mulher—disse Jorge, sem enfado, mas desejoso da solidão que tão suave lhe estava sendo.
—O senhor dá-me este dinheiro todo?!—disse a mulher, que os homens chamam perdida, e que não o estava, nem o podia estar aos olhos do seu Creador.
—Dou, sim.
—Bem haja, meu senhor!—tornou ella, com lagrimas na voz—já tenho com que ir para a minha familia. Eu sou uma desgraçada, que vim do Algarve, ha tres annos, fugida a meus paes, com um rapaz meu parente, para casarmos onde podesse ser. Elle requereu ao commandante; mas não teve licença para casar commigo; eu depois fui lançar-me aos pés da senhora do commandante, e consegui licença. Quando estavamos muito contentes, mandei buscar a minha certidão e mais papeis á terra; mas disseram-me de lá que nós eramos primos, e não podiamos casar sem dispensa. Não tinhamos dinheiro para ella, e fomos vivendo até vêr se Deus dava remedio. N'este entrementes, o meu primo namorou-se de outra, e deixou-me a morrer á fome. Agora com este dinheirinho vou já amanhã para o Porto, e de lá vou n'um hiate para Tavira, e vou botar-me de joelhos aos pés de minha mãi.
—Pois vá, não mude de resolução, e faça por ser boa filha—disse Jorge com maviosa caridade.
—O senhor será um anjo do céo?—disse a feliz creatura lavada em lagrimas.
—Não sou anjo do céo, não... Vá com Deus.
A mulher retrocedeu, e foi ajoelhar diante de um antiquissimo retabulo de granito em que na fachada do templo de S. Gonçalo sobresahem os grosseiros relevos de uma Senhora com Jesus morto no regaço. Jorge viu, ao clarão sereno da lampada que pende sobre a imagem, a mulher ajoelhada. Banhou-se-lhe o espirito de um contentamento, que não poderia existir na terra, se acima d'este tremedal, não velasse um Deus as acções do homem que póde erguer-se do seu rasto até hombrear com os anjos.
Entre Jorge e aquella peccadora que resava, avultou ainda a imagem da mulher pura, a mãi, a santa, onde chegára talvez a revelação das penas do filho. Silvina, n'esse momento, nada era na vida de Jorge. Nem a poesia da paixão pôde disputar o espirito do mancebo á poesia da caridade.
Entretanto, o varão justo, o padre João Coelho, acordava com a digestão consummada, voltou-se para o outro lado, e reatou a nota quebrada de um beatifico ronco.