XIV.
As prelecções de historia antiga que padre João fizera, desde o Porto até casa, não tocaram o juizo nem o coração de Jorge; mas as singelas palavras da indulgente mãi, e as caricias dos irmãos, acalmaram algum tanto a febril paixão do academico. D. Antonia, de proposito, passou com o filho no adro da igreja rural, quando, ao fim da tarde, se celebrava dentro um baptisado. Entraram na modesta igrejinha, e foram ajoelhar no arco. A viuva, depois que orou, foi sentar-se n'um banco tosco da capella-mór, e chamou para junto de si o filho.
—Senta-te aqui, Jorge;—disse ella—quero fallar com o meu filho ao pé da sepultura de seu pai. Não a esqueceste ainda, pois não?
Jorge desceu a vista sobre uma das lages que formavam o estreito pavimento da capella-mór. D. Antonia continuou:
—Tenho fé em que o meu coração n'este lugar, onde ha cinco annos venho chorar todos os dias, te saberá dizer o que teu bom pai te diria, filho. Se Deus me não fizer o milagre de ajuntar ao teu espirito mais dez annos, serão perdidas as minhas consolações, e tu as tomarás como conselhos importunos...
—Não, minha mãi...—atalhou Jorge, commovido pelo terror santo do local, e pela imagem de seu pai, em cuja fronte morta elle dera um beijo cinco annos antes—os seus conselhos...
—São conselhos de mulher, conselhos de mãi, que quer desterrar da tua alma lembranças d'outra mulher que me rouba o coração de meu filho. Deus levou-me teu pai, Jorge; e Deus não me podia enganar quando d'aquella tribuna, estando eu ajoelhada sobre esta lousa, me dizia que a compensação da boa alma que chamou para si, eras tu. Lembras-te d'uns beijos fervorosos que eu te dava, quando erguias as mãos ao pé de mim n'este mesmo sitio? Não te deixava eu a face molhada de minhas lagrimas, Jorge? Lembras-te?
—Lembro-me, minha mãi... E porque está chorando agora?—disse compadecido o moço.
—Parece-me que é saudade das dôres de então, filho... As de hoje são inconsolaveis... Nunca tive orgulho peccaminoso, Deus sabe que não; mas orgulho do meu dominio no teu animo, Jorge, tinha-o muito grande; e agora vejo que pequeno valor tem o dominio de mãi, logo que um acaso infeliz depara aos dezoito annos de uma criança os affectos verdadeiros ou simulados da mulher que nunca se viu, nem conheceu nos brinquedos da infancia. Isto é triste! A natureza poderá justificar este vulgar infortunio; mas a piedade e o dever choram-se, e não ha razão que convença uma mãi a conformar-se com a desvalia em que tu tiveste os meus rogos durante tres mezes.
—Eu não desvaliei os seus mandados, minha mãi—disse Jorge em tom de carinhosa submissão—Havia uma corrente invencivel que me prendia á desgraça...
—E partiu-se essa corrente, filho?... O teu silencio diz-me que não... Olha, Jorge... se essa mulher fosse digna de ti, eu dizia-te que me trouxesses para casa mais uma filha; se ella fosse virtuosa e pobre, seria um thesouro, na nossa casa onde sobra o necessario; se fosse rica e creada nas regalias da sociedade, aconselhava-te que a não sacrificasses á nossa solidão e pobreza comparativa; mas, filho, essa menina, que te enganou o coração, não tem virtudes que suppram a riqueza, nem a riqueza que possa compensar o coração estragado e sem escrupulos do homem, que não és tu, mercê do Senhor! Antes de teu tio ir ao Porto, já eu sabia, meu filho, quem era Silvina. Nada disse ao padre do que sabia, quando lhe pedi que fosse em meu nome pedir-te que viesses para nós, que te choravamos. Tu sabes que eu tive uma companheira no convento de Braga, menina de muitas virtudes, que mereceu a Deus casar com um negociante do Porto. Foi a ella que eu escrevi pedindo-lhe informações da tua vida, e não se demoraram. O marido d'esta senhora procurou-te varias vezes, e nunca pôde encontrar-te. Andavas perdido na tua cegueira, meu pobre filho! Abre os olhos da tua alma, e attenta nas lagrimas da pobre mãi que não póde contar com o amparo de tres meninas, nem ellas contam com outro amparo senão o teu. Não achas tanta gente boa a pedir-te amor, filho? Tudo nos queres tirar a nós para o atirar aos pés de uma mulher que d'aqui a um anno será na tua memoria apenas um remorso, senão fôr antes uma vergonha?
—Uma vergonha!... atalhou Jorge, mais ferido na vaidade que surprehendido da qualificação.
—Pois qual é o nome que dá o mundo ás paixões que humilham os que as soffrem, e mortificam uma familia que não espera d'ellas senão amarguras, desgraças, e abysmos?! Jorge, meu querido filho, faz um esforço de vontade! Vence-te, que podes. Ajuda a efficacia das minhas orações. Em nome d'estas cinzas queridas, peço-te em nome de teu pai, que tantas vezes me disse, quando te via triste, aos quatorze annos; «não tires da tua vista este menino, que ha-de perder-se, se entrar no mundo, d'onde me eu salvei com o teu amor»; é teu pai que te pede pela minha bocca, Jorge, esquece essa mulher; não lhe escrevas, os teus amigos que te não fallem d'ella; absorve-te no meu amor; folga com a innocencia de tuas irmãs: volta a Coimbra quando o desejo do estudo renascer no teu animo socegado; entrega-te de novo aos teus prazeres da caça; restaura a tua saude, que trazes tão quebrantada; eu pedirei aos amigos da nossa casa que a frequentem mais a miudo; teu tio ha-de saber conversar com o teu espirito instruido; compra os livros que quizeres; satisfaz todos os caprichos que te não arruinem a saude nem a alma; tens a duas leguas d'aqui uma villa onde ha sociedade, e familias que te estimam. Lucta, filho, deixa triumphar tua mãi do prestigio d'essa mulher, que nunca te deu uma lagrima, nem sabe o travor das que tu me tens feito chorar...
—Basta, minha mãi—murmurou Jorge, levando aos labios a mão tremula da magoada senhora—Luctarei, e... morrerei, se não vencer.
—Vences, filho, vences! exclamou D. Antonia com a vehemencia da sua fé e da sua razão.—Vences, porque Deus não dá ás más paixões o poder de matarem uma creatura, que póde desafogal-as nos braços de sua mãi.—E erguendo as mãos para o altar, disse com a voz convulsiva—Graças, meu Redemptor!
Anoitecera. Padre João, que era o vigario da freguezia, andava discretamente passeando no adro, e entretendo os sobrinhos para não interromperem a pratica, cujo assumpto elle adivinhara. D. Antonia ergueu-se, tomou a mão do filho, e sahiu da igreja. No adro, estavam brincando as tres irmãs de Jorge, a mais velha das quaes tinha nove annos, e o irmão mais novo que nascera depois da morte de seu pai. Saltaram os mais novos aos abraços á mãi, e as duas meninas ao pescoço de Jorge, com grande alarido. Sentou-se elle nos degraus do cruzeiro do adro, e tomou para sobre os joelhos as duas meninas, que á fina força queriam ennastrar-lhe nos cabellos as suas rozas brancas. D. Antonia contemplava o grupo com o semblante banhado de alegria. O egresso, debruçado sobre a parede baixa que contornava o adro, fallava com o mordomo da festa de S. Sebastião ácerca do numero de padres e do prégador que devia chamar. Os meninos mais novos já tinham largado a mãi para apedrejarem as andorinhas que chilreavam em redor do campanario, cuja sineta unica era movida debaixo por um cordel, que os pequenos a muito custo respeitavam por alli estar o tio padre.
Resolvido o negocio da festividade do orago, padre João tirou pela corda, e tocou as nove badaladas das Ave-Marias. Todos ergueram as mãos, e resaram em voz alta. «Ora, Deus nos dê boas noites.»—Disse o padre. Rodearam-no os meninos a beijar-lhe a mão, e Jorge tambem depois que sua mãi lhe deu a fronte.
Terminado este lance, cuja poesia santa não ha pedil-a a corações que deram com ella no pégo da lama brilhante onde dizem que a poesia está, Jorge Coelho fitou os olhos no occidente, e reconheceu o anoitecer dos seus dias passados; viu o boleado pardacento das serranias longiquas que lhe estavam redizendo os pensamentos da sua infancia; ouvia ainda as vibrações do sino que repicava no baptisado de seus irmãosinhos, e dobrára na morte de seu pai, reconcentrou-se; sentiu uma secreta amargura que não era angustia de saudade, nem pavor de previsões afflictivas... Que era, pois, esse vulto lá muito ao longe, ao pé d'aquella myriada de estrellas que repontava na cumieira da montanha? Era a imagem de Silvina ainda perto do céo, porque de lá vinha cahindo, bella como os anjos que lá nasceram; e, rebeldes á piedade, á virtude, á suprema graça, aqui se despenham, e despenhados vencem ainda disputando ao Senhor as almas immaculadas. Era Silvina, toda de festa e risos, reptando-o á lucta com um sorriso affrontoso, e esgares de escarneo ao protesto santo jurado sobre a sepultura d'um pai, e assellado com lagrimas de mulher sem macula. Era a visão maldita, a fada inexoravel dos que vem a esta hecatomba, predestinadas victimas, que o mundo sacrifica e cospe.
Era Silvina, sempre Silvina, a dizer-lhe:
«Que mulher viste mais linda que eu!? Quem te deu philtros de mais saborosa peçonha!? Vê se te sorriem uns labios com mais dôces favos de phrases que assignalaram a mais bella hora da tua vida!»
Meu pobre Jorge Coelho! Tua mãi não te salva d'esse captiveiro. Teu pai, esse resgatava-te, se te désse um lugar no seu leito!... É intransitivo o calix!