XIX.
—Não sabes quem hoje me escreveu?—disse D. Marianna a Rachel, terminada a partida do quino?
—A minha Antoninha do convento.
—Sim? que novas lhe dá ella do filho? A mãi disse-me que a pobre senhora vivia muito consternada com a paixão do rapaz pela tal Silvina.
—Segundo me ella diz, continuou D. Marianna, o pobre Jorge está enfeitiçado, e cuida ella que a maneira de o desenguiçar é mandal-o para aqui, a fim de elle, á vista do comportamento de Silvina, se desenganar. Acho esquisito o remedio.
—O remedio é eficacissimo, snr.ª D. Marianna—disse o litterato.—O que a mim me espanta é ser uma senhora quem o receita. O fim da sua amiga é fazer com que o filho se sinta aviltado por amor de uma mulher ridicula. O amor rompe todos os tropeços, transige com muitos defeitos e mesmo vicios da pessoa ou... cousa amada; mas da mulher escarnecida é que não ha cegueira que o aproxime.
—Conhece a tal Silvina de Mello?—disse Rachel.
—Já a encontrei em algumas partidas na Foz, minha senhora.
—Que idéa fez d'ella? A sua apreciação deve chegar-se muito á verdade.
—Pareceu-me, respondeu o poeta, que era galante, e até mesmo esperta. Ouvi-a declamar acrimoniosamente contra uns folhetins que denomina Felizardas as senhoras provincianas, e pasmei da imprudencia com que desprimorou as damas portuenses, chacoteando-as por um lado que é justamente, a meu vêr, o mais vulneravel da fidalga do Minho...
—Qual é?—interrompeu Rachel com vivacidade. O jornalista, reconhecendo a inconveniencia da resposta ajustada, fez, como por disfarce, esta pergunta:
—Não é certo estar tractado o casamento da tal senhora com um commendador fulano de tal Andraens?
—Assim dizem—respondeu D. Marianna—pelo menos cuido que...
—Parece-me que não é anno de fortuna para ella... atalhou o snr. Manoel Pereira, coçando a verruga media da aza esquerda do seu nariz.
—Por que?—disse Rachel olhando de través o marido.
—Por que o meu amigo commendador, desde que foi o baile do visconde dos Lagares, nunca mais se levantou, e vai cada vez a peor. O homem já soffria molestia interior, e comeu tanto á ceia, que esteve a rebentar-lhe a tripa... Ainda ha quem queira bailes!... Se elle estivesse em sua casa...
Rachel, prevendo que seu marido aproveitava o ensejo para uma enfadosa e desconchavada diatribe contra os bailes, cortou-lhe logo o fôlego comprido das tolices com esta fina ironia:
—Nem toda a gente leva aos bailes as tripas dos teus amigos... Com que então—continuou ella, voltando-se para o jornalista—o amor não será capaz de vencer a indigestão do noivo?
—Segundo ouço ao snr. Manoel Pereira—respondeu o litterato em tom lastimoso—a gentil menina está em risco de vêr o coração, que tão caro lhe era, romper-se, batido pelas explosões do estomago que rebenta, deixando a seu dono a gloria de morrer como Tito.
Rachel e uma das irmãs sorriam; Manoel Pereira desconfiou do riso da mulher, e disse mal encarado, com o nariz já roixo:
—Se elle quizesse mulher tão bonita e mais rica que ella, não lhe faltavam por ahi ás duzias.
—Ninguem contesta o dito de v. s.ª—redarguiu o escriptor.
—Mas o senhor parece que estava caçoando com o meu amigo...—tornou Manoel Pereira.
—É injusto o cavalheiro. Eu se tivesse quatro irmãs dar-me-ia por ditoso se o seu amigo quizesse casar com todas quatro, e lamento não saber o segredo de um tal Lucius que Plinio viu transformar-se em mulher; por que se me eu podesse felizmente mudar em mulher, havia de galantear o amigo de v. s.ª, e morrer de amores por elle se uma indigestão rival m'o arrebatasse.
Rachel soltou uma risada contagiosa: riram todos, salvo Manoel Pereira, cujo nariz reluzia ao reflexo da luz, em differentes côres desde o açafrão até ao talo da couve lombarda.
O jornalista continuou, fallando para D. Marianna:
—Tive tambem occasião de conhecer no hotel da Aguia d'Ouro o filho da amiga de v. exc.ª Fallei com elle, e fez-me bem o perfume d'aquelle coração em flôr. Que candura, que adoravel innocencia a dos vinte annos de Jorge... creio que se chama Jorge! E, ao mesmo tempo, que singularissimo typo de rapaz eu conheci com elle, e todos os dias encontro por ahi atraz de uma prima de Silvina, e de um tal Guimarães, linheiro, ou pregueiro, ou cousa que o valha... Que homem se fará d'alli, se o céo o não leva d'este mundo e d'esta sociedade que tanto precisa de um cenaculo d'aquelles apostolos!... V. exc.as de certo não conhecem Leonardo Pires de Albuquerque, fidalgo da Maya, descendente de D. Martim Pires da Maya, que gerou D. Pedro Pires, que gerou D. frei Martim Martins, mestre da ordem do Templo no seculo XIII? De certo não conhecem...
—Nem é preciso conhecerem—exclamou Manoel Pereira—É um patife, que concorreu muito para a doença do meu amigo Andraens!
—Eu não pensava—replicou o poeta—que Leonardo Pires era um alimento indigesto!... Se bem me recordo, v. s.ª disse ahi que a enfermidade do snr. Andraens era uma indigestão!
—Como de facto; mas, pelos modos, o tal brejeiro insultou-o no baile, o homem atrigou-se, e sahiu cá para fóra afflicto, e nunca mais foi bom.
—Não sabia isso; apenas me disseram que elle recommendára ao snr. Andraens que não comesse tanto; e quer-me parecer que este conselho, longe de ser insultuoso, tendia a prevenir a indigestão fatal que se deu.
—Deixemo-nos de contos...—instou o marido de Rachel.
O sorriso d'esta era já forçado por vêr que o jornalista não tinha a cortez caridade de conter as ironias que Manoel Pereira não percebia.
—E D. Antonia que diz, mãi?—interrompeu Rachel.
—Diz que Jorge Coelho vem para esta casa.
—Para esta casa?!—acudiu Manoel Pereira abrindo a bocca, e arregaçando o nariz até á testa.
—Não tenho n'isso duvida nenhuma—respondeu Bernardo Joaquim Ferreira, que tinha sahido e voltára momentos antes.—E dou-te parte, Marianna, que Jorge já está na hospedaria, e não sei se será dever meu ir já buscal-o esta noite. Aqui tenho um bilhete d'elle, pedindo-me que o desculpe de não vir directamente aqui.
—Como ainda é cedo, disse D. Marianna, podes ir buscal-o. O quarto está preparado. A mãi descrevendo n'um estado tal de amargura que eu tenho pena de o deixar sosinho na hospedaria.
—Mas ha um inconveniente—redarguiu o snr. Bernardo.—Tenho gente no escriptorio á minha espera para liquidar umas contas, e não posso deixal-as para ámanhã, que os negociantes são da provincia, e partem de madrugada. Se o snr. Pereira tivesse a bondade de ir á Aguia d'Ouro...
—Homem, eu a fallar-lhe a verdade—disse Manoel Pereira—tenho aqui n'este pé direito uns callos que me não deixam dar passada; se não da melhor vontade; mas, sempre lhe direi o que penso respeito á vinda d'elle para aqui. Eu não sei o que me parece metter n'uma casa onde ha meninas novas um peralvilho que não gosa dos melhores creditos, e que de mais a mais é amigo do tal Pires, que ha-de cá vir onde a elle, e o mundo pega logo a fallar pr'aqui, pr'acolá, e ás duas por tres... Em fim, meu sogro lá sabe o que faz...
D. Marianna replicou com vehemencia:
—O snr. Pereira não ouviu dizer aqui a este senhor que o filho da minha amiga era um moço muito digno?!
—Todos elles são muito bons, mas em minha casa é que elles não põem o pé.—Disse Manoel Pereira, e fez menção de procurar o chapéo.
Rachel relanceou sobre o marido um olhar severo. O escriptor fazia figuras geometricas com as marcas do quino. As meninas olhavam-se entre si com sorrisos rebeldes á prudencia. O bom Ferreira, apesar da sua superioridade relativa de sisudeza e bom senso, não deixou de vacillar ao choque das reflexões do genro. D. Marianna, porém, voltando-se com energia para o jornalista, disse-lhe:
—O senhor faz-me um favor dos que se pedem sem embaraço a um amigo antigo?
—Faça-me a honra de mandar-me, minha senhora.
—Tem a bondade de ir á hospedaria, e acompanhar o filho da minha amiga, o filho d'uma senhora a quem eu devi na minha mocidade o que não posso pagar-lhe d'outro modo?
O jornalista ergueu-se, e disse, tomando o chapéo:
—Se elle estiver doente, ou na cama fatigado, mandarei um bilhete para que o não esperem. Até já, ou muito boas noites, minhas senhoras.
Sahira o jornalista, e D. Marianna enxugando lagrimas que não tinham na apparencia muito cabimento alli, fallou assim:
—Eu nunca disse a minhas filhas os favores que devo á mãi do meu hospede; escutem-me, e depois dirão se o filho de tal anjo não será digno de ser recebido como seu irmão. Eu fiquei orphã e pobre aos onze annos. Entrei nas ursulinas de Braga, entregue á caridade da prelada, que me achou com habilitações para ser uma simples criada grave de convento. D. Antonia de Sepulveda tinha tambem entrado, n'essa occasião, e era rica. Tratei-a com respeito, e ella a mim com familiaridade, para chegar ao fim de me offerecer metade da sua mesada, e habilitar-me a ser senhora entre as outras, que me olhavam com desestima, e com a falsa piedade das ricaças do convento. Aceitei os favores da minha amiga, e tão suave era o dever-lh'os, que nunca me julguei devedora, se não depois que vim a esta sociedade conhecer o valor dos beneficios que recebi de Antonia. Vivi cinco annos á sombra da generosidade d'ella: prendei-me á sua custa, instrui-me com ella d'essa apoucada educação que nos davam no convento; e já depois que a minha amiga sahiu para casar obedecendo ás ordens de seus paes, continuei a receber as mezadas e os presentes que ella recebia. Casei tambem passado um anno, fui feliz, enriqueci, presenteei-a, mas a cada lembrança de amiga que lhe eu mandava, respondia ella com mais valiosos mimos da sua casa. Penso ha vinte e quatro annos no modo de ser util á minha querida Antonia; a Providencia depara-me agora occasião de velar as commodidades do filho d'ella. Haja ahi uma pessoa de boa fé a dizer-me que devia ser outro o meu procedimento...
—Ninguem se atreve a tanto.—disse Rachel com enfado.—Eu, se minha mãi, por desgraça nossa, não existisse, levaria para minha casa o filho da nossa amiga, da protectora de nossa mãi. Se eu tivesse um marido que me quizesse roubar o prazer da gratidão em tão pequeno serviço, amaldiçoaria a hora em que meus paes me subjugaram a tal homem...
—Não te irrites assim, Rachel...—disse Bernardo Ferreira, ferido pelas palavras da filha, que lhe apontavam direitas á consciencia, onde as fibras do remorso doiam sempre.
Entretanto, Manoel Pereira, franzindo o nariz, dilatava as ventas hediondas, por onde vaporava a zanga.
O incidente, passados minutos, foi cortado por um bilhete do escriptor, dizendo que Jorge Coelho pedia desculpa, agradecia extremamente a delicadeza, e convalescia da fadiga para no dia seguinte cumprir as ordens de sua mãi.