XVIII.

O leitor é uma pessoa de juizo limado e occupações serias. Estou que não lê romances de ninguem, e muito menos os meus, que são escriptos em lingua portugueza e modelados em cousas de Portugal, onde é sabido que não ha imaginação que invente a novella, nem modos de vida que saiam bem no romance. D'onde vem que o romance portuguez, se não é copia do estrangeiro, e aborrecida inverosemelhança, orça por cousa peor, que é a semsaboria.

Eu tenho escripto alguns volumes de semsaborias: creio que são vinte e tantos. Entre estes, mergulharam de cachapuz no rio

do negro esquecimento e eterno somno

tres livros denominados: ONDE ESTÁ A FELICIDADE—UM HOMEM DE BRIOS—e a VINGANÇA.

N'estes tres romances figura um homem, ao qual eu nunca puz nome. Umas vezes chamei-lhe poeta, outras jornalista, outras litterato, e assim fui aguentando com embaraços da composição, mas venci a minha. Custava-me a falsificar o nome d'um homem que copiei com esmeros de rigorosa fidelidade; figurava-se-me irreverencia o que em si não era senão escrupulo banal. Ainda agora me deixo levar da criancice, e não acabo commigo dar um nome qualquer ao homem. Quer-me parecer que ha uns longes de poesia n'este segredo. Diga o leitor que é tolice, e saldemos assim as contas amigavelmente: eu dou-lhe a troco da injuria esta revelação da minha crendice, e guardo as chimeras como o homem de boa fé guarda o tôco de cera benta para se alumiar á hora da morte.

Pois é verdade. Aquelle poeta era o amigo de Guilherme do Amaral e de Augusta.

Espectros sombrios, memorias queridas e amargas da minha alma em infancia de illusões, passai um instante luminosos na escuridade d'esta recamara da sepultura, onde até a lampada da esperança se vai extinguindo na mão do anjo do conforto! Vinde a mim, corações amigos, cujas lagrimas eu vi, e contei uma a uma, quando apenas tinha a intuscepção da alma, predestinada ao vosso fel, para lhes avaliar o travo. Na vossa mortalha foi o melhor da minha vida, o crêr nas promessas do coração, nos levantados desejos do espirito que não caiam á terra sem se infamarem; foi comvosco a fé na religião da poesia, que era a minha fé unica, porque não havia crêr nem sentir em mim em que não estivesse Deus, que eu convidava, sem temor sacrilego, a gosar-se das delicias que eram d'elle, creações suas, umas sujas, outras empestadas pelas mãos dos homens! Comvosco foi o meu ultimo dia de oração, a minha ultima acção de graças, a palavra final da profissão de fé, que devia, a meu vêr, remontar-me ao céo, e que, ao revez das mais espirituaes theorias de Platão, de Socrates, de Jesus, e de todos os Messias da redempção das almas, deu commigo em baixo n'um golfão de lama, onde ha o ranger de dentes d'estas bestas feras, que até na lama sustentam o egoismo da sua propriedade!

Ó visões immorredouras, que me ensinastes o amor e o sentimento, e levastes comvosco o segredo de morrer antes do longo paroxismo do tedio da vida, vós bem vistes com que saudosa unção eu vos offertei dous livros e um ramo de perpetuas, que valiam mais que os livros, e menos que esta pagina em que bem vedes com que fervor me atrevo á prosa d'estes annos, á mofa d'estes industriaes, que me estão perguntando se a apostrophe ha-de ser muito comprida, para tomarem fôlego, e accenderem o seu charuto.

Pois accendam o seu charuto, e retirem-se as almas evocadas, e mais os romances, que não tem que vêr com elles o leitor, que tanto conheceu as almas, como se lhe dá dos romances.

Veiu isto a ponto de estar aqui já comnosco o amigo de Guilherme do Amaral e d'aquella Augusta por quem choram as flôres do Candal, e as almas desamparadas d'aquelles que... Lá ia já sahindo outra tirada de sentimento. É enguiço, que me ha-de retirar a protecção de muita gente boa, que não precisa de lêr um folhetim para convencer-se do seu direito de espriguiçar-se, e voltar a gazeta de costas, e calcular perspicuamente as relações economicas que podem dar-se entre a alta do cravo dito girofe e a baixa do cacau.

Ora ahi vai agora o conto direito. O antigo jornalista, amigo da defuncta baroneza de Amares, estava no Porto de visita em casa de Bernardo Joaquim Ferreira, ahi nos ultimos dias de Outubro de 1855.

D. Marianna, esposa do snr. Ferreira, e suas quatro filhas, e dous meninos, e varias outras pessoas, estão sentadas em roda de uma grande mesa jogando o quino. O jornalista está sentado n'um sophá, conversando com o dono da casa, sobre cousas do Brazil, d'onde o primeiro tinha vindo depois de cinco annos de ausencia. A conversação foi interrompida pela entrada de uma filha do snr. Ferreira, que a mãi e irmãos receberam com muitas vozes de alegria, ás quaes ella respondeu dando um beijo na fronte da mãi, e outro nos labios das irmãs. Com a bem vinda entrou tambem o marido. O litterato, já de pé, deu dous passos, e disse á dama que entrára:

—Quero vêr se me conhece ainda, minha senhora.

—Se o conheço!—exclamou Rachel.—O mesmo que foi para o Brazil; o mesmo que era ha cinco annos... Não se admire da nenhuma surpreza com que lhe fallo porque eu já sabia que o vinha encontrar. A mãi, quando o senhor chegou, mandou-m'o dizer para a quinta, e deu-me sempre noticias suas. Agora pertence-me a mim perguntar-lhe se me acha muito mudada.

—Quando, ha cinco annos, me despedi de v. exc.ª—disse o poeta—se bem me recordo, tive a honra e o prazer de ser propheta, dizendo-lhe que a viria encontrar cinco, dez, ou vinte annos depois, bella como a deixava, minha senhora. Noto-lhe apenas uma differença sensivel.

—Qual?—perguntou D. Marianna com solicitude de mãi.

—Acho-a mais bella—respondeu o poeta.

Por entre os dizeres usuaes que vem sempre depois de um dito feliz como aquelle, ouviu-se a voz aspera do snr. Manoel Pereira, marido de Rachel, dizendo:

—Então, vamos a isto?—E escolhia cartões do quino.

Queria dizer na sua o snr. Manoel Pereira que bastava já de comprimentos, em que a formosura de sua mulher era encarecida por um homem da antipathia d'elle.

As senhoras sentaram-se, e Rachel, obrigada, pela indicação do marido, ficou com as costas voltadas para o jornalista.

—Não vem jogar?—disse Rachel ao hospede.

—Vou, sim, minha senhora.

As damas deram-lhe lugar immediato a Rachel. Manoel Pereira estorcegou machinalmente um cartão entre os dedos convulsos, e fez-se escarlate, cravando os olhos no rosto descuidado de sua mulher.

O jornalista viu tudo isto, e riu-se para dentro.

Agora descreve-se Rachel; depois Manoel Pereira; por fim alguns traços geraes d'esta familia, e fechará o capitulo.

Rachel tem vinte e quatro annos. É encorpada, mas a robustez não desdiz da gentileza. Não tem attitude alguma de estudo, e parece esculptural em todas ellas. Nos mais communs movimentos ostenta graça, e garbo que vem de seu natural, e ninguem o dirá se a não tiver visto em toda a sua desaffectada singeleza no recesso das suas occupações caseiras. Quando Rachel está n'um baile... N'um baile foi que eu a vi a primeira vez. Era ella solteira, e teria quinze annos. Isto já lá vai ha quinze. Se eu me não lembrar do que ella era então, melhor me será despedir de mim esta bruta alma que nem para a saudade já serve. As minhas reminiscencias dão-me Rachel vestida de branco. Não lhe hei-de aqui chamar anjo, porque não foi essa a impressão. Era tudo magestade, tudo estatuario n'aquella criança; não a vi a descer do céo, onde os poetas teimam em ir buscar tudo que é excellente, como se o céo não fosse um puro congresso de espiritos que valem de certo lá muito mais do que pesam, mas que passariam desapercebidos nos nossos bailes, se não tivessem a esperteza de entrarem em corpos como o de Rachel. Eu quando a vi lembrou-me a Grecia, as artes, em requinte de pompas, a numerosa familia das Venus, todos esses marmores eternos, que hão-de sobreviver á mythologia dos anjos, dos archanjos e dos seraphins. Os olhos de Rachel... estou-os vendo; nem as franjas sedosas e longas das palpebras m'os escondem; poderiam as arcadas espessas e travadas do sobr'olho quebrar a luz d'aquelles olhos; mas nem assim! Como tu olhas, Rachel! Diz a antiguidade que na Scythia havia umas mulheres que matavam olhando se o rancor lhes fuzilava nas pupillas; porém tu que paixão tiravas da alma toda amor, para a lançares de ti como um incendio que te abrasaria, se eu, se todos, que te viam, não tomassem de joelhos um quinhão d'esse fogo! Que haverá alli de mysterios n'aquelles olhos, se o fluido electrico não basta a dizer o que é que vem de lá como corpo estranho que vos entra no seio, e vos não cabe na alma, e quer fugir ás ancias do coração que o aperta, e vos leva do amor ao transporte, do extasis ao phrenesi, do rir ébrio da felicidade ás lagrimas incessantes de noites desveladas! E, depois, porque não eram só os olhos o condão d'esta mulher? Diante de Deus todos somos iguaes! Na alma se quizerem, e o Creador, lá se avenha com os que o injuriam assim; mas que desigualdade diante do divino artista! Lembra-me que a um lado de Rachel estava uma menina de olhos vesgos; do outro lado uma senhora com um nariz impio; mais longe outra menina em torturas para esconder quatro dentes enclavinhados; além aquell'outra franzindo os labios, e exercitando uma laboriosa mechanica do sorriso para corrigir a natureza que lhe dera uma bocca limitrophe das orelhas. E ella, Rachel, toda primores, a estremecida creatura, com uma luz serena de céo n'aquella face em que se espelhava o seu Creador, o Deus que nos fez para a adorarmos, a rever-se n'ella! Abençoada sejas tu de todas as venturas, que tão perfeita és, tão cheia de tua belleza, tão digna dos thronos da terra, já que o Creador, o teu Pygmaleão, te não arrebatou para si! Onde está, ó Senhor Deus das maravilhas, o homem digno d'aquella obra tua, aqui posta entre nós que apenas temos thronos, imperios, talentos, epopeas, as riquezas da Asia, e o sangue das nossas veias para lhe offerecer! De que barro, ó mão divina, fizeste o homem que ha-de primeiro embriagar-se nos aromas que recende aquella virgem? Onde está o homem que...

O homem elle aqui está. É o snr. Manoel Pereira. Já quinou tres vezes. Feliz no jogo, infeliz no amor; é certo o proverbio... até com elle!

Manoel Pereira tem cincoenta e cinco annos! estatura mean, cabeça quadrilatera, e plana como um queijo do Além-Tejo desde o occipicio até á cisura do coronal. As arcadas zygomaticas (vejam um compendio de anatomia comparada) entestam com o rebordo esponjoso dos olhos arrastando cada uma para o seu lado a venta correspondente que termina em fórma de fava. O nariz não tem canas; parece que é formado de parafusos. Começa do centro da testa por uma verruga, transforma-se em lobinho, ladea em pequenos abscessos escarlates, e pega no beiço superior, repuxando por elle de modo que o dono não póde exercitar as funcções olfactorias sem enviezar o beiço. Este nariz ha-de ser lithographado e distribuido aos assignantes, concluido o romance. O nariz é o homem. Quem o vir organisa o complexo de Manoel Pereira, como Cuvier recompunha o reptil iguanodo, e o megaterio.

Temos á roda da mesa a snr.ª D. Marianna e quatro filhas. É de notar em Rachel o typo perfeito d'aquella familia. A mãi, senhora de quarenta annos, é bonita ainda. Se a perfeição das raças é admissivel, nunca mais sensivel foi a gradação do aperfeiçoamento como entre D. Marianna e Rachel. Das outras filhas, uma é formosa, se bem que já ferida da tisica, que d'ahi a mezes a levara para o lado de uma sua irmã que a mesma enfermidade matou, quando lhe sorriam duas primaveras, a das flôres, e a dos prazeres da vida. Outra é uma linda criança de doze annos, com os olhos de Rachel. A que porfia em belleza desvantajosamente com a mais bella é já casada, e tem vinte annos. Ha uma outra de aspecto vulgar, posto que o não pareça entre outras que não sejam suas irmãs.

Bernardo Joaquim Ferreira, o pai d'estas lindas meninas, tem uma agradavel physionomia de homem de cincoenta annos, e maneiras polidas, sem embargo do trafego commercial em que labuta desde rapaz. Revela a esperteza ordinaria na sua classe, temperada pelo uso da boa sociedade em que desbravou as rudezas congeniaes, e as adquiridas nos seus primeiros annos.

Ácerca d'esta familia, outras miudezas seriam intempestivas agora.

Saudemos com lagrimas a entrada de Rachel n'esta historia, que principia desde hoje a tomar as proporções d'um escandalo monumental.