XVII.
Verificaram-se os presagios do padre João. Jorge, depois da ultima carta d'aquelle singular e diabolico Pires, quiz reanimar-se, e já não pôde. Debil de compleição, quebrantado de insomnias, sorvido incessantemente na funesta scisma de que não havia ahi na terra voz humana que o chamasse ao amor da vida, nem no céo misericordia que o remisse da immerecida pena, Jorge, sem um queixume, sem uma lagrima, sem dar de si incentivo á piedade dos seus, desculpou-se com um ligeiro incommodo, e ficou um dia no leito. A pobre mãi alvoroçou-se, e com ella toda a familia, que via chorar. Veiu logo a sciencia que trata magistralmente dos achaques do estomago, e d'outras visceras nobres, e declarou que a molestia do doente era cousa moral, paixão, hypocondria, ou romance. O facultativo capitulou assim a enfermidade com um sorriso supicaz, e disse á viuva que não era nada aquillo, e ao padre, piscando o olho, acrescentou que era aquella uma das feridas que se curam com o pello do mesmo cão. Chiste de cirurgião de aldêa.
D. Antonia recobrou-se do seu desmaio; mas o egresso entrou em maiores cuidados.—Para o Porto, e sem demora, o rapaz—disse o padre á cunhada.
—Mas o cirurgião não receia, nem Jorge se queixa...—acudiu D. Antonia, temerosa da separação.
—Deixe fallar o cirurgião, senhora. Seu filho morre sem se queixar.
—Não me diga isso!...—exclamou a mãi consternada.—Pois as suas palavras tão persuasivas, mano, e a religião não hão-de poder nada?
—A religião póde muito: se elle fizer uma confissão contricta, e morrer com sincera dôr dos seus peccados, a religião encaminha-o para Deus; mas o que nós queremos é que elle viva. Que me responde a isto, mana Antonia?
—Eu antes o queria com Deus, que perdido no mundo—disse ella suffocada pelos gemidos.
—Respondeu acertadamente; mas a supposição de que Jorge se perde no mundo, acho-a exagerada. Deixe-o ir onde elle se envergonhe de padecer, que eu lh'o dou por salvo. Torno a repetir-lhe, mana, que eu fui homem antes de ser frade, e a senhora foi sempre o que é—uma alma cheia de innocencia, de bondade, e de ignorancia.
—Pois bem, meu amigo, faça o que entender, mas salvem-me o meu filho.
—Aceito o encargo com uma condição: a mana não chora mais uma só lagrima na presença de seu filho; finge acreditar que elle precisa de banhos do mar; exige que vá já para o Porto, e de lá para Coimbra, se fôr vontade d'elle ir a Coimbra este anno. Conforma-se com isto?
—Com tudo que de mim quizerem—murmurou ella enxugando as lagrimas.
—Agora cuide da bagagem de Jorge, que eu vou fallar-lhe.
Jorge Coelho estava sentado na cama, lendo a Nova Heloisa de J. J. Rousseau. O egresso foi de mansinho ao pé do leito, tirou pausadamente os oculos d'um enorme estojo escarlate, montou-os na ponta do nariz, abriu e arredondou os beiços, pendido o queixo, e examinando o livro, disse:
—Era um grande homem esse Saint-Preux, ó Jorge!...
—Pois o tio conhece Saint-Preux?!
—Relacionei-me com esse cavalheiro e com outros da sua estofa ha bons quarenta annos. Nunca t'o apresentei, quando praticavamos litteratura, por que sempre entendi que o ias encontrar a Coimbra, de parçaria com os muitos filhos que elle gerou para amparo de muitas Heloisas novissimas, de que está inçado o mundo, graças ás novellas, e ao descredito a que baixou a roca e o fuso. Que carta lés?
O egresso levantou o nariz com os oculos á linha horisontal dos olhos, e leu algumas linhas da pagina.
—Ah!—continuou elle—trata do suicidio... Está mui atiladamente debatida a questão por uma e outra parte. O Rousseau era mestre em paradoxos; e sabia bastante de musica; mas os paradoxos dava-os de mimo á humanidade, e para elle guardava a vida com todas as suas paixões villãs, mal resguardadas por uma côdea de soberba e orgulho. Ensinava o mundo a educar os filhos, e mandava os d'elle para a roda. Atassalhava a impudicicia do seu confrade Voltaire, e escrevia as suas Confissões, com esqualido recheio de desvergonhamentos, para prova de que até o impudor tem a sua soberba. E depois, meu sobrinho, o philosopho, a luminaria do seculo, vendo que a ulcera, aberta no coração da sociedade pelas más doutrinas, ia lavrando, defendeu de concerto com os seus tresvalios, uma these apologetica da ignorancia... Vou-me alongando, e já receio de ter dito de mais. Isto são reminiscencias das minhas leituras de ha quarenta annos. Quando orçares pelos sessenta, Jorge, has-de abrir a tua Nova Heloisa n'essa pagina, e has-de rir da impressão, que te magoava, quando a lêste, aos vinte annos.
—Não me sinto magoado por impressão alguma, meu tio—disse Jorge, sorrindo, e depondo o livro.
—Não mintas, meu sobrinho—tornou o padre com branda severidade—Faz quanto em ti couber por salvar dos teus temporaes desfeitos do coração, o melhor thesouro d'elle, a verdade, filho. Sofres, e soffres muito, Jorge. Pensas em morrer, e dás de bom grado a tua vida a Deus, se é que a Divina Providencia transluz nas tuas imaginações negras. Não te culpo, rapaz de vinte annos. O mesmo seria culpar-te e reprehender o naufragado que não soube salvar-se. Nem de fraco te accuso. Se eu quizer que uma tenra vergontea, dobrada pelas minhas mãos, se levante commigo, não hei-de molestar-me se me chamarem insensato. No mais verde dos annos, não responde o mancebo de suas fraquezas: a sociedade que responda por elle, e o temperamento tambem. Isto do temperamento, digo-to aqui muito á puridade, que nós cá, os theologos, não queremos ceder nada aos temperamentos. Ora vamos, Jorge, a pé d'essa cama!
—A pé!—disse Jorge—e poderei eu?!
—Pódes porque queres. Hoje e ámanhã de convalescença; depois de ámanhã para banhos do mar.
—De que me servem banhos de mar, meu tio?
—A resposta é do fôro da medicina. Vaes para o Porto. Hospedas-te em casa de D. Marianna Ferreira, a amiga da creação de tua mãi. Vaes do Porto á Foz tomar o teu banho. Se, no fim do mez, quizeres ir frequentar o primeiro anno juridico, vai; se não quizeres, fica o inverno no Porto, e vem para casa em Maio, caso tenhas saudades nossas e da primavera dos teus arvoredos.
—Peço licença—disse Jorge com amargura sincera—para contrariar a vontade de meu tio.
—Teu tio não concede a licença pedida.
O moço fitou os olhos nas mãos cruzadas sobre o seio, e não respondeu. O egresso lançou-lhe sobre o leito o fato, e sahiu, dizendo:
—Vou mandar pôr o teu talher na mesa.
Jorge disse entre si:—Morrer aqui ou lá... que importa?
Na passagem do seu quarto para a casa de jantar, Jorge recebeu de um criado duas cartas. Uma era de Leonardo Pires; o sobrescripto da outra fez-lhe uma convulsão: era de Silvina. Abriu, e leu o seguinte:
«Não sei que mal fiz a v. exc.ª para merecer-lhe uma vingança tão baixa! Collocou ao meu lado um insultador petulante que me vexa em toda a parte. Que fiz eu ao snr. Jorge Coelho?
«Aceitei os seus galanteios com amor, e aceitei o seu abandono com paciencia. Que queria que eu fizesse para não ser insultada pelo seu amigo? Diga-me se é necessario pedir-lhe perdão de ter sido abandonada. Não hesitarei em fazel-o com tanto que v. exc.ª me garanta a certeza de que não serei injuriada nas praças e nos bailes. De v. exc.ª—eu muito respeitadora, Silvina de Mello.»
Jorge cahiu extenuado n'uma cadeira: a orla roixa das palpebras fez-se negra; apanharam-se-lhe as faces, como se a doença, em poucos minutos, progredisse mezes. D. Antonia vinha chamal-o, e encontrou-o assim, com a carta na mão tremula.
—Que tens, meu filho?—clamou ella ajoelhando diante d'elle, e abraçando-o.
—Nada, minha mãi, é fraqueza... Não chore, por piedade, não chore, que eu estou bem.
E, erguendo-se com vacillante esforço, foi para a mesa. Forcejou por comer; mas as lagrimas cahiam-lhe das faces no prato, e a violencia não conseguia desentalar-lhe a garganta.
—Que é isto?—disse o egresso.
—Foi uma carta...—respondeu D. Antonia.
—Não é nada, meu tio. Recebi uma carta que me fez mal. A impressão gasta-se, e eu d'aqui a pouco estou bom. Agora pedia licença para me erguer da mesa, e dar um passeio no jardim.
—Vai—disse o padre.
—Eu vou comtigo, meu filho—acudiu a mãi levantando-se.
—Não vai, mana; deixe-o ir sosinho.
Eram imperiosas as palavras do padre: D. Antonia sentou-se. Jorge desceu ao jardim, e foi sentar-se n'um banco de cortiça encostado a um maciço. Abriu a carta de Pires, que resava assim:
«A Providencia não é uma mentira. José Francisco Andraens apanhou uma indigestão de pombos, salame e salmão no baile do visconde, e está em risco de rebentar. Eu estou de atalaia a vêr quantos Jonas sahem d'aquelle bojo! O morgado de Santa Eufemia veiu dar-me a noticia, jubiloso, como quem espera empalmar Silvina, extincto o bruto. O qual bruto já se confessou, a vêr se a gente se persuade que existe uma alma n'aquellas cavernas de sebo!
Parte o correio.
Teu do intimo
L. Pires.»
«P. S. O linheiro das Hortas ainda não appareceu com a corda.»
Se a carta de Silvina fosse uma dorida invocação ao amor de Jorge, simulando razões e desculpas, ou accusando o silencio do desleal amante, que a despresara sem motivar o menospreso immerecido, é de presumir que o brioso moço nem respondesse á carta, nem se doesse dos hypocritas queixumes de uma caprichosa estouvada. Porém, o estilo, assim magoado como arrogante d'aquella carta, turvou de tal sorte a cabeça e o coração do academico, que já elle a si mesmo se accusava de indiscreto, de ingrato e de extremamente facil em acreditar o tio. E—o que é mais é—sentiu rancor áquelle leal amigo da Maya, que, por conta d'elle, se andava expondo no Porto a ser expulso de todas as casas!
Quantas idéas lhe occorreram todas advogavam a innocencia de Silvina. Absolvida e amada eram a mesma cousa. Agora já a esperança de ir vêl-a ao Porto lhe era um desafogo, e não sei mesmo se contentamento. O pobre moço, como nem sabia se quer contrafazer-se, denunciou nos exteriores de inquieto regosijo quanto a resolução do tio lhe era grata. A mãi, compondo a roupa no bahu, chorava sempre; os irmãos choravam ao pé d'elle, e elle fugia de todos para que o não vissem alegre.