XXI.

Cuidava o leitor que estava livre do sujo José Francisco Andraens; do estouvado Leonardo Pires; do nariz de Manoel Pereira; da erudição mythologica de fr. Antonio; do mettediço jornalista; da fidalga de Margaride, adeleira fraudulenta do seu roto coração; da Francisquinha da Cunha, promettida esposa do linheiro das Hortas; do morgado de Santa Eufemia, rival do Andraens; do Egas de Encerra-bodes, illustrissimo sangue neogothico; de Jorge Coelho, alma pura e candida e apaixonada até enfastiar o bom siso de quem nos atura, a elle e a mim; e, finalmente, de Rachel.

Ai! não me digam que estavam enfastiados de Rachel!... As lindas mulheres só enfastiam os seus maridos, e desagradam ás mulheres feias. Parece que a propria moral, severa como a directora d'um collegio, se compraz ás vezes de as vêr louquinhas, se o ellas são. A belleza é o poder moderador dos delictos do coração. Uns lindos olhos são a mais commovente rhetorica em defeza das culpas que a intolerancia lhes assaca. Um braço gentil, que descuidosamente se denuncia nu, abala o animo do juiz austero com mais vehemencia que a mimica de Hortencio e Mirabeau. O sorriso discreto, se não é bem despreso nem expressão de orgulho da culpa, abranda e enternece mais o peito abroquelado de indifferença, que a lacrimosa peroração dos que vingam apertar com os cilicios da piedade o coração de um jury.

Mas a que proposito cahe esta especie de defeza de Rachel?! Peccou ella, por ventura? Não, minhas senhoras. Rachel tem um só peccado de fraqueza; foi optar pelo marido, entre o marido e o suicidio. Desceu ao plebeismo das outras, que lhe haviam dado o exemplo da renuncia de si proprias, podendo afidalgar-se e ser unica pelo heroismo de se entregar á justiça de Deus, fugindo ás injustiças do mundo. A morte moral, que a sociedade inflige ás malfadadas, que a cupidez d'um pai acorrentou a um marido abominavel, se o coração, em phrenesis rompeu o grilhão, é, mais dolorosa que o suicidio tantas vezes, quantos são os repellões que a sociedade lhes dá até as engolfar no abysmo sem sahida.

Querem dizer-me que Rachel, se tivesse aceitado o beijo da morte, e fugisse ao beijo marital de Manoel Pereira..., (um beijo de Manoel Pereira, com aquelle nariz na vanguarda... santo Deus!) ninguem se lembraria do seu heroismo a estas horas? Dizem mais que o desdem da gente séria, e a censura da gente religiosa, e a irrisão da gente parvoa, e o contentamento de outra que Manoel Pereira iria escolher, entre mil, n'esta grande feira, fariam do suicidio de Rachel assumpto de reprovação e de affronta á sua exquisitice? Tambem o penso assim. Estou que ninguem já hoje se lembraria do pobre anjo que fôra queixar-se a Deus de o terem querido despir de suas pompas, de suas flôres, de sua aureola, de sua virginal pureza, para o prostituirem aos regalos d'um satyro revelho, que perdeu alma e coração no grangeio da riqueza, com a qual vem mercar um recreio para a sensação do corpo, abrazeado na vida ociosa! Ninguem se lembraria da nobre alma, que preferira deixar as graças do corpo aos vermes, para o não dar ao cêvo de uma besta-fera. Assim é; porém, se uma vez Rachel voltar o rosto de enojada do cadaver a que a prenderam; se a força, que o coração lhe fizer, tiver comsigo a força do exemplo bem succedido e quisto da sociedade; se o seu fragil batel de virtude, forçada e violenta, se desconjuntar e abrir, rebatido pela tempestade das paixões; se em fim, aquella honra, a constrangimento, e não de vontade aceite, se fôr a pique, a sociedade que dirá?

A sociedade—replica o leitor que a conhece e se conhece—a sociedade faz-se desentendida por cortezania; por conveniencia; porque sabe a historia do olho com trave, que se abria espantado de vêr uma aresta no olho alheio. A sociedade fez uma convenção tacita, de que é fiadora a civilisação. Em substancia, este contracto social dá os seguintes resultados:

1.º Respeitar a liberdade do coração humano, sem prejuizo do soalheiro das salas, em que é preciso entreter o tempo, e fingir a gente que não conhece senão as pessoas que estão fóra das salas.

2.º Fingir, outro sim, a gente que está convencido da tolice dos outros, para que os outros nos tenham em conta de boçaes de boa fé, e não de espertos sem pudor. Dá-se um exemplo em hypothese: tal marido sabe que o mundo o lastima ou moteja; mas como a lastima e a irrisão cauterisam, sem curar, a chaga do vilipendio, o lazaro finge-se de optima saude, e aproveita occasião de gemer pela molestia do seu amigo, gafado da mesma lepra. Estes dous homens, se se topam, e fallam da corrupção social, voltam as costas a rir um do outro, e vão cada qual por seu lado, espalhando a risada contagiosa.

3.º Não perdoar o que se chama «escandalo». Escandalo é não ter a sagacidade da hypocrisia, e o despejo de injuriar o senso publico, tratando-o de nescio. Escandalo é tomar a serio as brincadeiras do coração, e vir dar alguem á sociedade uma prova de que despresa o contracto social. Escandalo é cahir da prostituição legal á honra do coração, que cuida ennobrecer-se e regenerar-se; victimando o nome, o estado, e o que a inveja chama fortuna, ao goso de conhecer a liberdade na miseria. Escandalo, a final, o escandalo maximo e abominavel e imperdoavel é a mesma miseria.

A sociedade sabe que o crime é um dos elementos da ordem das cousas, e julga-o um mal necessario, sem o qual não haveria bem-aventurança nem inferno, nem anjos, nem demonios, e Deus seria inutil por não ter que fazer, visto que os theologos lhe não attribuem occupação que não seja julgar, premiar, condemnar, e perdoar, segundo lhe pedem, ou conforme a sua espontanea misericordia quer. Ora, sem o crime, este complicadissimo funccionalismo, cujo presidente é o Creador do céo e da terra, do mar e do sol, da avesinha que regorgeia nas moitas, e do leão que atrôa os desertos, do homem como Alexandre e Napoleão e do homem como José Francisco Andraens, e Manoel Pereira... dizia eu... eu! eu não dizia nada: quem dizia que o crime é necessario era o jornalista, amigo de Guilherme do Amaral, conversando na «Aguia d'Ouro» com Jorge Coelho, alguns dias depois do encontro em que os vimos no capitulo ultimo da primeira parte d'estas biographias.

Vamos agora á historia.

Achou Jorge em casa de D. Marianna Ferreira o seu quarto e sala adornados com muito aceio e selecção. Melhor que isto, era o gosto de se vêr acolhido sem estranhesa nem demasias de ceremonia. Os filhos e filhas de D. Marianna, logo ao segundo dia, o tinham como pessoa da familia, e porfiavam em divertil-o d'aquelle geito de tristeza, que era natural, e das abstracções penosas, que tinham a sua razão de ser na dôr do coração.

D. Marianna, senhora algum tanto despreoccupada do artificio, que tão preciso é, chamado delicadeza, logo que Jorge lhe deu uma aberta, fallou na paixão, que o seu hospede tinha por Silvina, e nos desgostos, nascidos d'esse louco amor, para a sua querida Antonia.

D. Marianna, em termos desabridos, disse de Silvina o que era notorio, e talvez lhe exagerasse os defeitos.

Jorge escutou-a respeitosamente, e ao mesmo tempo admirou-se de ouvil-a assim fallar na presença de suas filhas, que todas estavam presentes, salvo Rachel, a quem elle não tinha ainda visto.

Lembrado está o leitor de ter sahido Manoel Pereira zangado de casa de sua sogra, por que a maioria lhe rejeitára o parecer de não ser recebido Jorge em casa d'aquella. Como Rachel sahisse então da sua paciente annuencia aos votos irracionaes do marido, este, mal afeito a ser contradictado, protestou convencer a mulher e a sogra de que não queria relações com tal sujeito.

No dia seguinte, ao abrir da manhã, mandou preparar alguns bahus, entrou n'uma carruagem com Rachel, e foi conduzil-a a uma quinta, seis leguas distante do Porto, nas immediações de Barcellos. Quizera a submissa senhora despedir-se de sua familia; mas Manoel Pereira, franzindo as verrugas do nariz, e enviezando o beiço na sua ordinaria expressão de zanga, atalhou as intenções da saudosa Rachel, dizendo que a mulher casada não tinha familia senão seu marido. E Rachel, fitando os olhos coruscantes de raiva no nariz do esposo, disse com o fel do coração nos labios, que sorriam sardonicamente:

—Deus te livre que eu alguma hora me esqueça de que tenho uma familia, que não é meu marido... Se lhe eu perder o respeito a ella, se os estimulos de minha exemplar mãi me faltarem, tu verás então que eu não tenho outra familia.

O marido, arregaçando os musculos businadores, e as azas nasaes com elles, regougou:

—Põe lá essas doutorices em miudos, que eu não te entendo.

—Se me tu entendesses—redarguiu Rachel—nunca me forçarias a fallar assim á tua ignorancia.

Manoel Pereira cascalhou uma risada de velhaco, e coçou-se atraz da orelha esquerda.

Não se trocaram palavra no decurso de seis leguas. Rachel ia linda pelo escarlate da sua colera; e Manoel Pereira bufava, quando não cabeceava de somno jogando contra o hombro de sua mulher.

A gentil senhora, a espaços, encarava no marido, e dizia entre si: «Que destino o meu! Este é o homem, que me deram para a vida! Querem que seja d'este homem o meu coração! Ter uma só existencia, e curta como hade ser a minha, e hei-de sacrifical-a toda a esta cousa que vale duzentos contos de réis!

«Que aproveitou meu pai d'este monstruoso enlace? Que lucrou este homem em se aviltar para me chamar sua, se elle mesmo conhece que lhe obedeço abominando-o? Mas eu não devia soffrer, porque Deus bem sabe que fui levada de rastos, e que me perdi por ser boa filha, e me tenho atormentado para ser uma victima obediente dos calculos de minha familia! Calculos! quaes, e de que serviram? Quem foi feliz com elles?!...»

Estes mentaes soliloquios eram cortados por algum ronco pavoroso, ou espertar estremunhado do negociante de couros, quando não era uma pancada da mão esponjosa que algum sonho sacudia ao peito de Rachel.

Chegaram ao seu destino, e pouco depois as cargas da bagagem, e as criadas de Rachel. Manoel Pereira passou na quinta aquelle dia e o seguinte; ao outro, voltou para o Porto a fim de fazer uma carregação de couros, e activar uma leva de escravos brancos para o Rio de Janeiro.

Rachel, á hora crepuscular da noite d'esse dia, foi sósinha sentar-se nas escadas do cruzeiro, que defrontava com o portal da quinta, e então chorou as lagrimas represadas em tres dias de exasperada angustia.

Como tu serias linda alli de uma formosura do céo, Rachel! Qual Magdalena mais linda inventou o buril aos pés da cruz misericordiosa! E se anjo tu eras de purissima alma; se as mesmas lagrimas te depuravam de intenções culposas, que alegria não seria a do teu Creador, vendo-te assim incontaminada, com menos ventura que muitas que não tinham no coração uma fibra incorrupta!

Se a essa cruz voltares, n'outra tarde, a pedir perdão da queda, hão-de os anjos chorar-te, ó Rachel; mas pedirão a Deus que te leve para si e para elles, como se houvesses cumprido immaculada o teu desterro do céo.