XXII.

José Francisco Andraens venceu a morte, que lhe entrára no buxo, disfarçada nos dez pombos, que elle ceiou, em casa do visconde dos Lagares.

Das recahidas é que ia sendo impossivel salvar-se. Quando a medicina lhe empunha um caldo simples com meia onça de pão esfarelado, José Francisco desfazia meia gallinha na tigela. A inflammação gastrica reaccendia-se-lhe nas cavernas, e a morte voltava de novo a espremer-lhe os succos das tres barrigas até descorçoar rebatida pela brutal compleição. A final nem a medicina pôde acabal-o!

Ergueu-se José Francisco algum tanto abatido, um pouco pallido, quebrado de vista, e mal seguro das suas pernas zambras. Deu um passeio de carroção até á Foz, e almoçou com appetite. Voltou no dia seguinte, e almoçou duas vezes. Cubiçou pescada, por que a viu sahir das redes, e mandou cozer uma com cebolas e batatas. Depois de jantar, dormiu um somno de justo, com a barriga repleta, (cousa que não succede muitas vezes aos justos)—e sahiu de tarde a tomar a fresca em Carreiros, onde a fortuna lhe deparou uma vendedeira de manjares brancos e pasteis de Santa Clara, que lh'os vendeu todos a olho, e elle comeu, empinado sobre um penedo sobranceiro ao mar.

Tomada a refeição, José Francisco limpou o suor da papeira, e lambeu os beiços pulverisados do assucar dos pasteis. Depois descobriu a cabeça á bafagem fria do oceano, cruzou os braços em postura de quem medita, e pensou assim:

—Como isto é tamanho! Como se faria o mar? Por que será que o mar cresce e minga? Quantas pescadas haverá no mar? A gente sempre a comer peixe, e nunca se acaba!

Entrava José Francisco na solução d'estes problemas, quando a linha do seu horisonte foi cortada por um barco a vapor. Topetaram então com o sublime do engenho humano as suas meditações:

—E o vapor!?—dizia elle—Sempre os homens tem idéas! Pelos modos o que faz girar as rodas é o fumo do carvão! Uma cousa assim! E como a gente come boa carne a bordo d'um vapor inglez! Bons tempos eram aquelles em que eu viajava, e comia tanto, sem me sentir enfartado como agora que qualquer cousa me trabalha cá no interior!...

Estas considerações entristeceram José Francisco, e o espectaculo do oceano enfastiou-o. Ergueu-se, desceu do seu throno de caranguejos e algas, e foi dar alguns passeios na lingueta de pedra, onde então passeavam muitas familias.

Entre estas estava Francisca da Cunha conversando com Antonio José Guimarães, o linheiro; e Silvina de Mello procurando conchinhas na praia.

O linheiro foi comprimentar o commendador, e D. Francisca chamou a attenção da prima.

José Francisco, logo que viu Silvina, perdeu a cabeça.

É preciso explicar o que o leitor já devia saber, se esta historia fosse contada com mais arte.

Quando Andraens cahiu doente, Silvina mandou saber do seu estado, e teve quem lhe assegurasse que o illustre enfermo succumbiria ao typho, resultante da gastrite. Ao mesmo tempo, disse-lhe alguem que José Francisco fizera testamento, sendo uma das verbas testadas aos seus parentes de Cozelhas a quantia de um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, de que lhe era devedor Pedro de Mello, declarando a quinta hypothecada ao pagamento da quantia, e juros da lei.

Silvina não mandou saber do homem; e Pedro de Mello, que viera ao Porto para apressar o casamento, tão indignado ficou da avareza do moribundo, que deu louvores a Deus de matar a tempo o villão, para que sua filha se não conspurcasse na lama de tal javardo. Era o sangue escandecido do sargento-mór d'Amarante que refervia nas veias do neto. E, ao mesmo tempo, como o morgado de Santa Eufemia andasse ahi nas ruas do Porto, exhibindo um rosto de amargura e uma gravata verde-gaio com alfinete de cabeça d'ouro rendilhada, Pedro de Mello disse á filha que seria prudente não dar de mão ao morgado, porque lhe constava que o pai tinha soffrido um insulto apopletico, e não poderia viver longo tempo.

Silvina, anjo de submissão, accedeu á vontade paternal, e trocou algumas palavras com Christovão Pacheco, quando ambos immergiam no mar, e recebiam a unção conciliadora da mesma onda. Succedeu assim o caso em que pegou o desamuarem-se:

O morgado, ao aproximar-se a onda, dava urros, e mettia-lhe a cabeça com furioso impeto, perneando fóra d'agua. Como Silvina estivesse perto d'elle, viu que o sapato d'ourêlo n'um d'esses pinotes de arlequim maritimo, lhe saltára de um dos... dous pés—digamos dous pés por deferencia á historia natural.—E, quando o sapato, entumecido de agua, ia ao fundo, Silvina disse á banheira que apanhasse o sapato do cavalheiro. A tempo foi isto que o morgado o andava procurando á tona d'agua; e, como ouvisse a magica voz da dama, e visse o sapato na mão da banheira, que lh'o atirava a elle, Christovão, bem assombrado, disse a Silvina:

—Obrigado á sua attenção, minha senhora!

—Não tem de quê—respondeu Silvina, sorrindo.—Porque não toma o senhor o seu banho mais quieto?

—Gosto d'isto assim;—respondeu o morgado.

—Eu cuidei que era o nervoso que o obrigava a dar cambalhotas na agua.

—Nada, não é, minha senhora; é que eu gosto de brincar com o mar; com o amor é que eu já não brinco.

—Nem deve brincar, porque o amor gosta de ser tratado seriamente; e o senhor zomba com as victimas d'elle...

—Eu é que zombo, minha senhora!... Não perca esta onda, que é boa.

O de Santa Eufemia arremetteu com a onda, e fez proezas de natação, deixando-se ir de costas no dorso da vaga, que o levou á praia.

Como Silvina sahisse do mar, o morgado sahiu tambem, vestiu-se, e esperou, disfarçadamente, a sua mulher fatal. Sahiu Silvina da barraca, e deu de rosto com Christovão Pacheco. Sorriu-se, e respondeu á cortezia do fidalgo de Freixieiro. Deu alguns passos, procurando Francisca da Cunha; e, como a visse entre duas barracas protectoras conversando com o linheiro, sentou-se a um recanto, sosinha, e meditativa. O morgado sentia caimbras nas pernas e saltos do coração. Girava em roda d'ella, puxado por magnetismo irresistivel. A final fez ao seu acanhamento o que fazia ás vagas: metteu a cabeça, e foi.

Silvina recebeu-o agradavelmente, e conversou com elle um quarto de hora. D'esta conversação resultou ficarem convencionados para tomarem o banho juntos no dia seguinte, e assim nos oito dias que decorreram.

José Francisco Andraens convalescia da ultima recahida, quando teve noticia da deslealdade de Silvina. Desafogou no seio do visconde dos Lagares, e deu procuração para ser demandado Pedro de Mello por um conto oitocentos e vinte e cinco mil e setenta reis, e juros da lei. Com estes acontecimentos coincidiu a ida do commendador á Foz, e o seu encontro com Silvina em Carreiros. Agora está dada a razão de ter perdido José Francisco o tino, quando a viu á cata de conchinhas.

—Ó prima Silvina—disse Francisca—olha que está aqui o senhor commendador Andraens.

—Bem se lhe dá ella que eu esteja aqui ou em casa do diabo—disse com ira e amargura José Francisco.

Silvina avisinhou-se do grupo, e disse serena e em tom severo:

—Folgo muito em vêr restabelecido o credor de meu pai. Ser-me-ia dolorosa a sua morte, por muitas razões, sendo a primeira o receio de vêr meu pai soffrer alguma penhora a requerimento dos herdeiros do senhor commendador.

José Francisco respondeu com promptidão sem mudar de côr:

—Quem deve, paga. É como é. A senhora esperava ser minha herdeira?

—Não, senhor; esperava merecer-lhe a consideração de mulher que estivera para ser sua esposa. Esperava que o senhor não andasse jogando entre mim e meu pai com um punhado de ouro, que não vale para mim este punhado de conchas. Esperava, finalmente, que o snr. José Francisco Andraens não viesse por si mesmo certificar a conta, em que é tido, de possuir uma riqueza que é o seu flagello, e o das pessoas a quem empresta uma migalha das suas sobras. O senhor, logo que se viu em perigo de morte, esqueceu-se de que eu me tinha desembaraçado de todos os obstaculos para ser sua mulher, e testou a insignificante divida de meu pai, para morrer sem deixar saudades a alguem n'este mundo. Desde que v. s.ª praticou semelhante baixeza em que conceito queria que o eu tivesse?

José Francisco tartamudeou esta resposta:

—Eu não estava escorreito do miolo quando fiz o testamento. Lá foi o meu amigo visconde que arranjou tudo, e eu assignei sem dar tino de mim. Se offendi o senhor seu pai, queira perdoar.

Não ha que vêr: Silvina era a mulher fatal de tres corações, que por ella andavam perdidos. Andraens, como a visse e ouvisse, perdia a consciencia da sua dignidade, e—o que mais é para assombro—a consciencia de credor. Quanto mais arrogante Silvina lhe castigava a natural grosseria, mais escravo se humildava José Francisco. Fulminava-o a electricidade dos olhos d'ella, e tinha a sua voz um encanto, que faria lembrar o da magica da Colchida, se elle não fosse pôrco, antes de ouvil-a. Pasmava elle do feminil predominio d'aquella mimosa mulher que o sopesava; mas este espanto era submisso, e a submissão amor, que os romancistas chamam o fatidico, o predestinado, o invencivel.

Antonio José Guimarães, avesso á reconciliação de Silvina com o morgado, e desejoso de a vêr ligada ao seu amigo Andraens, esforçou-se em desamual-os, dando explicações a favor d'um e d'outro, de modo que ambos já as escutavam silenciosos. José Francisco acompanhou Silvina e Francisca, promettendo vir jantar com ellas no dia seguinte, e authorisou o linheiro a dizer de sua parte á menina que por causa d'elle não se havia de desarranjar o que estava tratado. Mandou immediatamente sustar a começada execução sobre Pedro de Mello; presenteou com alfinetes e pulseiras as duas fidalgas; tomou casa na Foz; deu a Pedro de Mello as satisfações que o pundonor do fidalgo exigia, e deixou ao arbitrio d'este as condições da escriptura nupcial.

E o morgado de Santa Eufemia? Esse continuava a dar cabriolas nas ondas.