EU.

Saibam todos quantos virem

Este publico instrumento,

Que surgiu mais um poeta

Nos aloques do talento.

Não pertenço á mocidade,

Que fechou sem caridade

Da velhice a pobre tumba.

Não sei palavras d'estouro,

Nem descanto em lyra d'ouro:

Minha lyra é um zabumba.

Eu, sou eu. Juiz das Almas,

Nos bons tempos, que lá vão,

Conheci que tinha uma

Como poucas almas são...

Campanhan! terra dos saveis!

Que doçuras inefaveis

Tens nos teus prados amenos!

Ai! Maria da Cancella!...

Cada vez que fallo n'ella,

Sou Petrarcha... em fralda, ao menos!

Dai logar á catarata

D'uma lagrima que rola

Pelas faces, como orvalho

A aljofrar uma papôla,

Respeitai a desynth'ria

Desta enferma poesia,

Que resiste á Revalenta!

Braz Tisana

, esse que diga,

Em que estado anda a barriga

Da Musa, nos seus outenta!

Deixai que um velho recorde

Aureos sonhos infantis!..

Campanhan, mansão das fadas

Onde estão tuas houris?

Ledas brisas que brincaveis

Entre as pestanas dos saveis,

Lindos saveis de coral!

Onde estaes, em que paues

Murmuraes, auras tafues,

Vosso hymno angelical!

Raios palidos da lua

Alta noute, em ceo d'anil,

Já não são os que argentavam

Estes lagos de esmeril!

Nem é este o pulcro savel

Que me deu sorriso afavel

D'entre os verdes salgueiraes!

Nem aqui meu peito anceia

Os carinhos da lampreia

(E outras asneiras que taes).

Quando eu era o mago enlevo

Das fadas de Campanhan,

Apanhava a borboleta,

Que doudejava louçan.

E, por tardes d'almo estio,

Lá nas margens do meu rio

Vi delicias de encantar....

--Pyrilampos, suspirando,

Qual Camoens suspira arfando

Os estos do seu penar.

Ai! trovas da minha aldeia,

Que saudades me doeis!

Doçuras da minha vida,

Quando eu cantava os reis!

Viola d'Antonio Pinto,

Onde estás, que inda cá sinto

O gemer dos teus bordoens!

Minhas chinelas côr d'ovo,

E meu par de sócos novo,

Tão rico d'inspiraçoens!

Lá vai tudo! E minha alma

Erma, esteril, sinto aqui....

Como o lyrio enruga o calix

A fronte calva pendi!

Poeta da lyra amarga,

Vérgo ao peso desta carga

De descrença e maldição!

Lacerado em meu orgulho,

Quero o sangue, o serrabulho

Desta infame geração!

E, depois que a minha lousa

Parta d'um raio a centelha,

Hão-de ouvir ranger meus ossos

Como carruagem velha.

E a mortalha ensanguentada

Como a tunica manchada

Do Cesar de Campanhan,

Ha-de ser mostrada ao povo,

Ha-de ouvir-se um grito novo

Nas praias do Gengis-kan!