AOS BAROENS.
Amigos! sinceridade!
Não sejamos todos tolos;
Deixai vêr os vossos rôlos
De brasoens.
Ninguem disse ainda ao certo
Onde vão, donde vieram
Os baroens.
Dizem velhos alfarrabios
Que os baroens da idade d'ouro
Davam tapona de mouro,
Fanfarroens!
Nesse tempo eram
crusados
,
Hoje fogem dos
cruseiros
,
Os baroens.
Os de então na Palestina
Eram rijos e potentes;
Mas os d'hoje são valentes
Nos certoens.
Quem domina as vastas tribus
Dessas plagas africanas?
Os baroens.
Quem envia, mar em fora,
As esquadras dos
Trajanos
,
D'archejantes e ufanos
Galeoens?
Quem envia
Guerra
aos barbaros,
E lhe algema os pulsos livres?
Os baroens.
Digam lá o que disserem
Contra os
crusados
da moda,
Sois os grandes deste reino,
Meus baroens!.. sabeil-a toda!
«Carne humana!! escravaria!!!
Crime atroz!!!!» são palavroens.
Chia a imprensa? ha-de calar-se...
Sabeil-a toda, baroens!
Vossos pais quando vieram
De Figueiró para aqui,
Quem diria... vendo vil-os
Como eu chegal-os vi!..
Era assim: via-se um mono
De jaqueta de cotim,
E calças de estopa grossa
E pernas côr do carmim.
Trazia sócos ferrados,
Em que pés!.. Deus nos accuda!..
Lenço vermelho amarrado
Na cabeça ponteaguda.
Vosso avô vinha com elle,
E gemia derreado
Sob um saco de batatas
Do patrão mimo adorado.
Vossa avó, de pé descalço,
Traz canastra com toucinho,
Pão de broa corpulenta,
Borracha de verde vinho.
Inda hontem eu vi isto!..
E vossês sus patuscoens,
Devem espantar-se comigo
De serem hoje baroens!
Querem de graça um conselho?
Não fallem, que faz tristeza,
Vêr o raso da toleima
A que desceu a nobreza!
Burros ficam sempre burros,
Embora tragam selim,
Cravado de diamantes
E estofado de setim.
O brilhar dessas commendas
Não vos muda a condição.
O instincto vos arrasta
Para o covado e balcão.
HYMNO
AO HECKER SALOIO.
Senhor Fontes Pereira de Mello,
Que sois Pitt, e
pitada
tambem,
Já que tudo metteis n'um chinelo
A cantar-vos a banza aqui vem!
Senhor Fontes! Sois de Lysia
O que ninguem inda foi!
Quem dissera que tão perto
D'um Sangrado existe um heroi!
Longo tempo o cultor da batata,
Senhor Pitt, por vós suspirou.
As abob'ras meninas murcharam,
E a mesquinha cebola grelou!
Mas creaste um ministerio
D'agricultura, ó portento!
Era um gosto vêr o grêlo
Sob o imperio do Fomento!
E o repôlho, a cinôra, o coentro
Espontaneos brotavam nos montes;
E nas folhas da côve tronxuda
Viu-se escripto: «Gloria ao Sôr Fontes!»
Senhor Fontes! vosso nome
Pelas hortas se dilata!
Como o Cesar é na Fabia,
Sois salvador da batata!
Carangueijos os lusos viviam
Desterrados n'um solo infeliz!..
E, comvosco, quebrar inda esperam
Nos caminhos de ferro o nariz.
Senhor Fontes! este povo
Vossa gloria proclama,
Quando viaja enterrado
Té ao pescoço na lama.
Era triste esse tempo d'outr'ora
Em que um homem quebrava um quadril,
Nessas quinas d'estrada de pedra
Onde agora fumega um carril!
Á vista disto, Sôr Fontes,
(Á parte censuras tolas)
O paiz quer-vos na fronte
Uma restea de cebolas.
Quando o Porto vos deu quatro patos,
E de forno o arroz competente,
Quiz mostrar-vos que a gloria é um sonho,
Quando o ventre não anda contente.
E comestes, senhor Fontes,
E fizestes muito bem;
Colbert, Necker, e Pitt
Comiam patos tambem.
Quem nas polkas mostrou mais donaire?
Quem nas walsas mais quebra a cintura?
Quem melhor joga a tibia flexivel?
Quem compete comvosco em tesura?
Senhor Fontes, dous instinctos
A natura em vós relata;
A não serdes o Fomento,
Devieis ser acrobata.
Beatus venter qui te portavit,
Diz a patria na sua expansão!
Desde o Vistula ao Douro retumbam
Algazarras de rouca ovação!
Gloria, gloria ao rasgado
Fomentador immortal!
Modelo dos bons bigodes,
Permanente carnaval!